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Uma questão de fé

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António pedro ferreira

Deus vai à discoteca, ao terreiro e à capela. Portugal é maioritariamente católico, mas a diversidade ganha terreno. Há 772 comunidades religiosas não católicas registadas, e o número não para de aumentar. Viagem pelos caminhos da fé

Ana Sofia Fonseca (texto), António Pedro Ferreira (fotos)

Sábado, quatro da tarde no Cais do Sodré. O sol ilumina a rua cor de rosa, a mais dançante artéria da capital. Todas as madrugadas, romarias de copo na mão agitam a rua. Ao lado dos bares na moda, velhas prostitutas estacionadas nas esquinas, antigas discotecas de porta entreaberta. De dia, uma mulher a lavar os restos da noite, carrinhas a entregar caixas de bebida. Mas esta é uma tarde diferente — a igreja vem à discoteca. Um sábado por mês, o Tokyo Rock Bar alberga o grupo de jovens da igreja evangélica Centro Cristão da Cidade (CCC). À porta, rapazes e raparigas penduram cartazes, bandeiras. Sorriem abraços.

Lá dentro, Miriam Ferreira, Mi para os amigos, desconhece o sossego. Ajeita o top amarelo, o cabelo louro. Sobe ao palco. Palavras em frente à imagem dos Xutos & Pontapés: “Vai ser espetacular, ya? Vai ser bué da fixe, ya? Vamos espalhar o amor de Deus, ya?” Entrou para a igreja há três anos, não imagina melhor caminho: “Muita gente diz que tenho um brilho especial, mas não sou eu — é Ele através de mim.” Desce do palco: “Se conseguirmos trazer mais uma pessoa para Deus, é brutal.” A banda ensaia os últimos acordes, quase horas de abrir a porta ao público. Somam-se abraços, risos: “Não há palavras para a alegria que aqui se vive. Não se explica, sente-se.”

Esta é uma das igrejas com lugar na lista do Registo Nacional de Pessoas Coletivas Religiosas. Tutelado pelo Ministério da Justiça, foi criado pela lei da liberdade religiosa de 2001, com o intuito de regulamentar e de conferir maior igualdade. Até então, as comunidades não católicas ficavam-se pelo estatuto de associações religiosas. Hoje, o número de registos impressiona: 772. A Igreja Católica não entra na lista, a sua relação com o Estado é definida pela Concordata. A maioria pertence a igrejas evangélicas, mas há credos para todos os gostos — budistas, espíritas, batistas, metodistas, anglicanos, cristãos ortodoxos, Testemunhas de Jeová, bahá’is, hindus, judeus, cientologistas, umbandistas... Paulo Mendes Pinto, diretor da licenciatura e do mestrado em Ciências da Religião da Universidade Lusófona, tem a lista no pensamento: “A diversidade cresceu como em quase todo o mundo, é um reflexo da globalização. Mas ter cerca de 800 registos não significa que temos 800 religiões. O número explica-se pela matriz das principais confissões em causa — no universo evangélico, é natural as igrejas espalharem-se em instituições autónomas, apesar da crença ser a mesma. Por outro lado, não se sabe quantas comunidades religiosas existem sem registo.”

Seis da tarde na discoteca, alegria de três da manhã. Faltam Bíblias em papel, sobejam nos telemóveis. No palco, uma miúda visita a palavra de Deus. Parece acostumada a falar em público, o verbo na certeza do proselitismo: “Tu, que nunca vieste à igreja, só tens de decidir: ‘OK, bora lá experimentar.’ O que é que tens a perder?” Depois, a banda ao rubro. “Jesus, és tudo em mim.” Dezenas de jovens aos pulos, a cantar: “Sim, eu decido seguir-te, Jesus/ Não volto atrás/ A cruz eu sigo/ O mundo deixo/ Não volto atrás.” Miriam é um sorriso sem par, o corpo no compasso dos acordes: “Quando falamos de igreja, muitos jovens dizem logo ‘nem pensar’ porque têm uma ideia errada.” A pista de dança como se madrugada fosse, canções evangélicas no lugar de Janis Joplin.

DOIS. “No terreiro eu sou o pai de santo, em casa somos iguais a qualquer casal”, diz Pai João

DOIS. “No terreiro eu sou o pai de santo, em casa somos iguais a qualquer casal”, diz Pai João

antónio pedro ferreira

Miriam traz a fé à flor da pele. Filha de pastores evangélicos, espigou por entre orações. As primeiras letras aprendidas numa Bíblia cor de rosa, os dias encetados num louvor: “Falo com Deus muitas vezes, nem que seja para Lhe perguntar: ‘Estás fixe?” O top desliza pelo ombro, revela a mais nova das suas tatuagens, uma passagem da Bíblia — “O amor nunca falha”. Decidiu trocar a igreja dos pais pelo CCC quando percebeu que já não partilhava a mesma visão de igreja. Não houve lágrimas nem julgamentos, os pais certos de que “o importante é a relação pessoal com Deus”. No universo evangélico, a diversidade é dado adquirido. “O problema é outro”, sublinha Fernando Soares Loja, presidente da Comissão de Liberdade Religiosa e da Assembleia-Geral da Aliança Evangélica: “Há igrejas que se dizem evangélicas e não são, é o caso da IURD, da Maná e da Mundial. Nós não vendemos milagres.” Mário Rui Boto revê-se nas escolhas de Miriam. Também ele abandonou a igreja que o viu crescer. Foi em 1995, no dia em que decidiu fundar a sua própria igreja. Tornar-se pastor. Começou em casa, com um punhado de amigos, agora lidera mais de 1300 fiéis. Na sua igreja, nada é deixado ao acaso — a comunicação num brinco, vídeos sedutores e verbo atual. O objetivo claro: “Temos muitos jovens connosco.” Estar no Cais do Sodré é estratégia: “As pessoas vão lá para se divertir, para compensar uma vida que nem sempre é justa, e eu acredito que a igreja é a compensação de Deus para um mundo ferido. A mensagem deve estar onde está o povo.” Na sua igreja, tudo funciona em sistema de voluntariado. Miriam é das crentes que nunca falha. Ao domingo, nos encontros semanais, é vê-la a traduzir os testemunhos para língua gestual. Aos 28 anos, tem uma certeza: “Quero viver cada vez mais com Deus.”

Segundo o Censos de 2011, 81 por cento dos portugueses são católicos. A religião da maioria é tradicionalmente a do país — durante o Estado Novo, o catolicismo era um dos pilares da nação. Paulo Mendes Pinto estuda o assunto: “A presença de outras confissões era muito contida, algumas chegaram mesmo a ser perseguidas.” Foi preciso esperar pela revolução de abril para a religião conhecer outra liberdade. Agora, às 772 comunidades religiosas registadas soma-se um mundo na sombra. O presidente da Comissão de Liberdade Religiosa faz contas: “Imagino que haverá várias dezenas fora do ordenamento jurídico. Na mente de muitos cidadãos, ainda estará vivo o tempo da discriminação, alguns não quererão declarar a sua existência com receio de que venha aí outro Estado Novo.” O registo não é obrigatório, mas é o único garante de personalidade jurídica. Traz benefícios fiscais e vantagens no dia a dia, como um ministro de culto reconhecido com direito a visitar crentes em prisões e hospitais.

Fé em Zé Pelintra

Está frio no terreiro de umbanda de Pai João. Fica em Brejos de Azeitão, lá para as bandas de Setúbal, num emaranhado de vivendas e estradas de terra. Fé sem papel passado, é uma das comunidades à margem do Registo Nacional de Pessoas Coletivas Religiosas. Mais de uma dezena de homens e mulheres vestidos de branco rezam a dançar. Parecem saídos de um romance de Jorge Amado, acabados de desembarcar da Bahia. Todos portugueses, a cantar com sotaque de novela. São crentes de umbanda, religião nascida no Brasil há pouco mais de 100 anos, da mistura de elementos de culturas africanas, catolicismo e espiritismo. João Godinho, mais conhecido por Pai João, é a estrela da casa. Não tem mãos para tanta fé: “Tenho muitos clientes.” Garante desfazer “porcarias”, aconselhar melhor futuro, acabar com dependências — droga, jogo, álcool... Até, “em certa medida”, com o cancro. O que traz as pessoas ao seu terreiro? “O desespero e a fé.”

Acreditar em Deus é a velha dúvida da Humanidade. Segundo o Pew Research Center, um conceituado centro de estudos americano, 83,4% das mulheres e 79,9% dos homens identificam-se com uma religião. Alfredo Teixeira, docente na Universidade Católica e coordenador de um estudo sobre identidades religiosas em Portugal, tem as suas certezas: “O homem procura desde sempre a religião porque é um ser simbólico. A partir do momento em que vê garantida a sobrevivência enquanto espécie, tenta encontrar significados e acrescentar sentido — o que estamos aqui a fazer?, qual é a nossa origem?, o que é a morte?, o que está para além dela?...”

Pai João acende um cigarro. A sala e a cozinha são irmãs gémeas do barracão, cheira a refogado. Outro cigarro, mais crentes. Pedem-lhe tanta coisa “que dava para uma revista do La Féria”, mas o mais habitual “são amarrações para ficar com a pessoa que querem”. Um cigarro colado ao outro: “Por exemplo, há quem dê sangue da menstruação a beber... Eu sou contra essas coisas.” A favor de outras. Ainda há dias, em nome de uma cliente às voltas com um amor desavindo, fez uma oferta à Pomba-Gira. A seguir, deitou os búzios e as cartas a uma rapariga com um casamento malparado. Fez um “descarrego” a uma velha cliente, para livrá-la de cargas negativas. Daqui a nada, há de incorporar Zé Pelintra.

Sábado é dia de gira, o principal ritual umbanda. Dois rapazes tocam atabaque, um miúdo inicia-se na batucada. Olhares tristes sentam-se ao fundo do barracão. À sua frente, uma roda vestida de branco — homens, mulheres e crianças. A sessão não dispensa a incorporação mediúnica, uns e outros a emprestarem corpo às entidades. De repente, a batucada mais forte, a roda canta e dança sem parar. O olhar de Pai João altera-se. Marizete Pita, a mulher, corre a ampará-lo. “É o Zé Pelintra a chegar”, explica. Conheceram-se era ela apenas cliente; de lá para cá, juntos na vida e na religião. Ele separa as águas: “No terreiro eu sou o pai de santo, em casa somos iguais a qualquer casal.” Agora, o homem parece outro. Ele não é ele, está possuído por Zé Pelintra, uma das entidades da gira dos malandros. A voz enrolada como se tivesse bebido cachaça de sobra: “Fui chulo, sou um ‘ganda’ bêbado.” A teatralidade no ponto. Antes da gira, bem avisara: “Quando incorporo Zé Pelintra, digo asneiras, bebo e fumo. Ele era um malandro que sublimou quando morreu. Traz alegria, trabalho, dinheiro.” Respostas às mágoas dos crentes.

Calam-se os atabaques, fala Pai João. Ou melhor, Zé Pelintra. “Tu queres deixar a maconha e o álcool? Queres mesmo? O velho barrigudo ajuda-te!” Volta-se para uma miúda: “E tu queres homem, não é?” Uma menina de 9 anos começa a incorporar, dorme um bebé num carrinho. “Vais deixar a droga, vais! Ficas três luas aqui fechado!” Ao seu lado, Ana Oliveira aponta os mandos da entidade. Engenheira de formação, aqui é filha de santo. Há cinco anos, o desespero foi guia de marcha para o terreiro. A morte de uma pessoa próxima roubou-lhe o chão, e ela, que chegara a ser catequista, mudou de deus. Da Igreja Católica para a umbanda foi um passo: “A primeira vez achei estranho, não era o meu mundo, mas foi aqui que encontrei o equilíbrio.” Tem 28 anos, solteira aos olhos da lei, casada perante os orixás. O seu casamento religioso não produz efeitos civis, só as uniões celebradas por igrejas radicadas têm esse poder. Assim é desde 2007, quando deixou de ser exclusivo da Igreja Católica. As igrejas radicadas têm mais direitos e deveres do que as comunidades somente registadas. Para alcançar esse estatuto, precisam de existir no país há pelo menos três décadas ou no estrangeiro há mais de 60 anos.

Sharmin Sazedj tem na fé “o centro da vida”. Faz parte da comunidade bahá’i, uma das 71 igrejas radicadas em Portugal. Não vai além dos quatro mil crentes, o mais famoso é Nelson Évora. Filha de iranianos, Sharmin nunca conheceu outra forma de encarar o mundo: “A Humanidade é uma só raça, o objetivo é uni-la numa civilização mundial.” Cabelo negro, rosto tímido: “Esta é a mais recente das religiões mundiais, o seu fundador, Bahá’u’lláh, é o último de uma sequência de mensageiros divinos, como Abraão, Moisés, Buda, Krishna, Zoroastro, Cristo, Maomé.”

A revolução que transformou o Irão numa república islâmica empurrou os pais de Sharmin para a Europa. Foi no final da década de 70, bem antes de ela vir ao mundo. A queda do Xá da Pérsia acentuou a perseguição religiosa, que ainda hoje marca os dias dos bahá’is. “No Irão, continuamos a não poder frequentar a universidade, a ver os negócios confiscados...” As vidas atiradas para a cadeia. “Se vivesse no Irão, seria certamente outra pessoa, nunca me teria licenciado em Economia. Felizmente, em Portugal há liberdade religiosa, ninguém me incomoda por causa da minha fé.” Também o presidente da Comissão de Liberdade Religiosa faz um balanço positivo: “Neste aspeto, é um bom país. Acompanhámos alguns casos de discriminação, mas por ignorância — hospitais que não deixam o ministro de culto visitar os paroquianos, escolas que não dispensam os alunos de prestar provas no dia santificado.”

Portugal católico

Há um caixão aberto no centro da capela. Lá dentro, um rosto trincado por um século de morte. Colada ao caixão, Maria de Fátima Ferreira desfaz-se num murmúrio: “Minha santinha, não há no mundo quem goste mais de ti do que eu.” Benze-se. Arruma o rosário no bolso do casaco negro, aproxima os joelhos do chão. Benze-se. Cinco voltas ao caixão — sempre de joelhos, sempre a rezar. “Minha santinha, és a minha santinha.” Todas as manhãs, é na Capela de Santa Maria Adelaide, em Arcozelo, Vila Nova de Gaia, que apazigua os amargos da vida. Vem a pé, a fé a meia hora de casa: “Se não vier, não ando bem.” Foi “a santinha” quem a curou do “diabo do cancro”, quem a livra “de todos os males”. Pede-lhe dotes de intermediária, que a ajude junto de Deus. “Há três coisas de que não mudo — da religião católica, de partido e do Futebol Clube do Porto.”

RECENTE. Sharmin Sazedj tem na fé “o centro da vida”. Faz parte da comunidade bahá’i, uma das 71 igrejas radicadas em Portugal

RECENTE. Sharmin Sazedj tem na fé “o centro da vida”. Faz parte da comunidade bahá’i, uma das 71 igrejas radicadas em Portugal

antónio pedro ferreira

A manhã avança fria, mas não há vento que afaste a devoção popular. Maria de Fátima acaricia as contas do rosário, duas mulheres caladas num canto, um homem de capacete junto ao caixão. Para albergar a fé do povo, a Junta de Freguesia construiu um museu ao lado da capela. Gravado na fachada, o nome reza a história: “Milagres”. É aqui que ficam guardadas as oferendas dos crentes. Mais de cinco mil vestidos de noiva, um armário de camisolas de futebol, peças de ouro, fotografias... A santa não é canonizada pela Igreja Católica, mas isso pouco importa. Se a vida pia lhe mereceu respeitos, a morte trouxe-lhe santidade — 30 anos depois de baixar à terra, o coveiro encontrou o corpo intacto. Num instante, a incredulidade deu origem à crença. Maria de Fátima levanta os joelhos do chão: “A gente acredita e pronto.”

A fé no compasso do país. A maioria dos portugueses considera-se católico, mas a prática está muito aquém da autolegenda. Paulo Mendes Pinto tira o retrato: “Só 10 por cento é praticante, continuamos é a ser imensamente católicos na forma de encarar o mundo.” Opinião diferente tem Fernando Soares Loja: “Se a maior parte dos cidadãos fosse católico, nós não teríamos aborto nem casamento gay. As pessoas declaram-se católicas mas não vivem como tal.” Alfredo Teixeira vai mais longe: “No mundo católico, verificamos que há uma enorme variabilidade no modo de as pessoas se vincularem. Verificamos também que o número de pessoas sem religião tem vindo a aumentar, assim como o dos crentes sem religião.”

Em nome de Deus

É quinta-feira, tarde de sol na Mouraria, o mais multicultural dos bairros lisboetas. O guineense Quebá Dabó pendura uma capulana e logo outra na montra da sua alfaiataria. Ao cabo de anos a suar nas obras, ter uma loja “é sorte que Deus dá”. Não perde segundo nem cliente, o dia inteiro por entre panos coloridos e linhas de costura. Traz um par de familiares a trabalhar, sempre modas africanas a sair da máquina. “Nasci muçulmano e hei de morrer muçulmano. A sorte que Deus me dá ninguém pode tirar.” À sexta-feira, dia sagrado, caminha até à principal mesquita do bairro. O seu ritual é o dos muitos muçulmanos que ali amanham vida. Todas as semanas, a mesquita é pequena para tanta fé — três turnos de oração, uns 1300 homens. Quem não encontra lugar estende o tapete na zona de ablução, no corredor. Os últimos, na rua. Orações a Alá na calçada portuguesa. Nos outros dias, para não fechar a loja, cumpre as cinco orações diárias junto às capulanas.

Quem ainda se admira com a multidão das sextas-feiras é Rana Taslim Uddin, presidente do Centro Islâmico do Bangladesh. “Quando cheguei em 1991 éramos seis pessoas. Depois, a comunidade foi crescendo, e como era muito difícil ir à mesquita central, em 2000, alugámos um quarto com capacidade para 35 pessoas. Agora, é assim... Esperamos que seja inaugurada uma nova mesquita até 2018.” Sabe bem que o Islão chegou a Portugal com a descolonização, os retornados de Moçambique foram o passaporte. Hoje, estima-se que sejam 50 mil. Sabe também que a religião desperta amores e ódios. Os atentados terroristas colam-se ao pensamento: “O autoproclamado Estado Islâmico não tem nada a ver com religião.” Respira fundo: “O Islão é paz.” O professor universitário Alfredo Teixeira tem ideias feitas: “É necessário fazer a dissociação entre religião e terrorismo, mas penso que é pouco eficaz achar que a religião não tem nada com isso. É preciso ter em conta que a narrativa religiosa será uma das disponíveis para determinados grupos criarem a sua narrativa de agressão. A religião tem sido capaz de construir a violência e de construir a paz.”

Quebá Dabó não quer saber de guerra. Veio da Guiné em 1998, três meses antes dos tiros esventrarem Bissau. O pai não aguentou as dores da fuga, “correr de um lado para o outro”. Morreu sem que o filho lhe dissesse adeus: “É uma dor muito grande...” Resta-lhe seguir as lições do patriarca: “O que ele me ensinou, assim eu vou passar aos meus filhos, temos de viver como muçulmanos.” E pedir a Deus para “ir à Guiné ver a mãe antes de a morte chegar”. Estende o tapete no chão, quase hora da oração. Não conhece o estudo do Pew Research Center, mas algo lhe diz que “o Islão tem cada vez mais gente”. É a segunda maior religião do mundo, a que mais cresce. Em 2050, haverá quase tantos muçulmanos quanto cristãos. Mostra um tecido a uma cliente, o pensamento: “A religião é de coração limpo, o homem é que suja.” Até no melhor pano cai a nódoa.


A reportagem “Uma Questão de Fé” será exibida no “Jornal da Noite” da SIC a 21 de abril

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 16 abril 2016