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Roger Crowley: “As antigas civilizações estão a reerguer-se”

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Ricardo marques

O historiador inglês escreve sobre um pequeno e pobre país que atravessa meio planeta à procura de riqueza e, ao fazê-lo, muda a história do mundo

Ricardo Marques

Ricardo Marques

Entrevista

Jornalista

Quinhentos anos depois de Vasco da Gama chegar à Índia e após quatro anos de investigação, Roger Crowley escreveu “Conquistadores — Como Portugal Criou o Primeiro Império Global”. O sentido de oportunidade deste professor de História em Cambridge não podia ser melhor. Para ele, claro. É que o mundo tal como o conhecemos, e como começou a ser construído pelas viagens dos portugueses, está a acabar.

Podemos começar pelo título do seu livro? Porquê conquistadores e não descobridores?
Não foi uma escolha minha. Os meus editores quiseram promover uma coisa um pouco mais sensacionalista do que eu preferia. Sinto-me até um pouco envergonhado. Eles é que vendem o livro, e eu confio no julgamento comercial. Admito que talvez seja um pouco mais agressivo...

Embora essa dimensão de agressividade, de imposição de vontade, esteja bem presente na história da presença portuguesa no Índico...
Sim. A ideia era escrever sobre um período maior, de Ceuta a Alcácer Quibir. Mas percebi que era uma tarefa impossível. Gosto de escrever História com base em fontes primárias e vozes humanas, o que seria impossível de fazer. Tive de pensar bem qual era a fase determinante, e esse momento foi a chegada à Índia.

É nessa chegada que tudo realmente começa?
Esse é o momento mais importante. Tentei mostrar um pouco o que acontecera até aí, principalmente para os leitores de língua inglesa, falando de Henrique, “o Navegador” e também de um aspeto mais interessante: Portugal não desenvolveu um império assente na guerra, mas no comércio. E isso é fascinante.

Também é interessante verificar que quando os portugueses desembarcam na Índia encontram um homem que já os conhecia.
Sim, sim. Vasco da Gama manda os seus delegados a terra, e eles são recebidos por um árabe, de Marrocos, que já viu os navios portugueses, já fez comércio com eles. E fala castelhano. É um momento extraordinário na História mundial, um enorme anticlímax. Eles passaram 80 anos a tentar chegar ali, descobrem um mundo novo e falam com uma pessoa na sua própria língua. O que os portugueses fizeram foi acabar com o isolamento da Europa. Colombo descobriu terras que eram, entre aspas, desconhecidas. Mas os portugueses encontraram um mundo antigo, muito culto. A Europa estava isolada do resto do mundo por uma barreira islâmica, o Império Otomano.

Estava para lá da última fronteira desse império?
Precisamente. E creio que uma das grandes motivações foi um sentimento de claustrofobia. Os europeus sabiam menos sobre a Índia do que os romanos. A viagem de Vasco da Gama foi a descoberta de um mundo muito antigo, muito civilizado, com rotas comerciais estabelecidas.

O entendimento do mundo por parte dos europeus é hoje melhor?
Eles chegaram com um enorme sentimento de superioridade, mas creio que há dois impérios para os portugueses. Quando olhamos cinco séculos para trás, o que mais me impressiona é que foi a viagem de Vasco da Gama a dar início ao domínio europeu do mundo. Nesses cinco séculos, toda a gente seguiu os modelos do Ocidente. Mas agora creio que chegámos a um ponto de viragem. As antigas civilizações estão a reerguer-se, e tudo isso está apenas no início. Os chineses dizem que a Europa é um museu. Mas ainda não sentimos isso.

Estamos prontos para ser o museu do mundo?
Não creio que tenhamos grande alternativa.

Há museus bons e museus menos bons...
Somos algo curioso, uma relíquia que é interessante visitar. Repare, os chineses estão a abrir uma universidade nova por semana.

O livro começa com os chineses.
Exatamente. Porque há um contraste gritante com os portugueses. Era um império poderoso — todos os barcos de Vasco da Gama cabiam num junco chinês —, mas não queria nada. Queriam mostrar que não precisavam de nada. Os portugueses chegam com um objetivo determinado, sabiam o que queriam e levaram os canhões de bronze. É o início do domínio europeu. Um pequeno país que controla uma parte do mundo sofisticada e culta. Como é que o fazem? A concorrência entre os países europeus é muito importante. Os portugueses partem porque se sentem ameaçados por Castela e estão excluídos dos negócios no centro da Europa. Não têm nada a perder. É algo que admiro nos portugueses: estavam prontos para ir a qualquer lado e não voltar.

Gosta de trabalhar com fontes primárias. Foi fácil aceder a essas fontes?
Sim, há imenso material digitalizado na Torre do Tombo e acessível online. O gozo maior que tiro da História é ouvir estas vozes que chegam do passado. O que fez e disse um determinado indivíduo. E essas fontes estão disponíveis.

Daqui a 500 anos, quando um historiador fizer um exercício semelhante e procurar fontes primárias, será mais fácil ou mais difícil encontrá-las?
Será extremamente difícil. O que temos agora é mais do que conseguimos processar. O que gosto mais no período pré-moderno, logo após a invenção da impressão, é que temos material suficiente, mas não demasiado. O mercado de livros de História no Reino Unido é dominado pela Segunda Guerra Mundial. Como é possível ler todas as fontes e encontrar uma visão equilibrada? Sinceramente, não gostaria de estar a escrever História daqui a 500 anos.

Houve alguma coisa na sua investigação que o tenha surpreendido?
A coragem, os riscos que estavam dispostos a correr. Albuquerque partia de Lisboa com mil homens apertados em navios para ir conquistar Malaca, enfrentando forças bastante superiores. Passou 77 dias cercado num rio, em Goa, em plena monção, a ser bombardeado das duas margens e não recuou. De vez em quando, mandavam um emissário a bordo a oferecer tréguas, e ele respondia que não partia sem as chaves de Goa. Muito daquilo era bluff, sim. Albuquerque vestia-se com as melhores roupas, exibia a espada e recebia os emissários na cabina principal do navio. Recusava os presentes porque, como dizia, podia ter de lutar contra eles. Era uma mentalidade de não recuar um passo. Extraordinário.

Quando olhamos para este período, há ainda muito por saber. Já conhecíamos o Brasil quando assinámos o Tratado de Tordesilhas?
Não gostaria de responder a isso. Acho que há uma questão mais vasta mas cuja resposta desapareceu no terramoto de 1755, deixando um enorme buraco nas fontes: terão os portugueses feito muitas viagens secretas ou descobriram tudo por acidente? Parece que Duarte Pacheco Pereira terá visto uma terra para oeste, e acho que sabiam. Mas como é que poderemos saber?

Que efeito teve o terramoto para o estudo dos descobrimentos?
Muito grave. Os estragos foram vastos e uma parte significativa das respostas para as dúvidas que temos desapareceu. Haveria certamente um número maior de registos de viagens, de ordens do rei... Acabei de ler um livro sobre duas gravuras que mostram a Rua dos Mercadores, em Lisboa, no século XVI, mas está cheio de dúvidas. Como é que há porcelana chinesa com a esfera armilar? Outra questão: foram os portugueses os primeiros a ver a Austrália?

Como é que os portugueses de hoje olham para este período da História?
Existe uma certa nostalgia, um orgulho ferido pelo facto de o seu grande contributo para a História mundial ter sido abafado pela História de Colombo.

Temos uma visão demasiado romântica?
Toda a gente faz isso. A História pós-colonial é difícil. Um historiador indiano fala de piratas portugueses e de toda esta ideia de descobrimentos... Nada foi descoberto. Aquelas pessoas estavam ali há mais de três mil anos. É uma visão eurocêntrica do mundo, que está a começar a acabar. Somos uma minúscula parte do mundo. Podemos criticar Portugal pelo que fez de errado, como as rotas de escravos no Atlântico e a disseminação de doenças, mas é legítimo sentirem-se orgulhosos do risco, da iniciativa, da inteligência. Como é que se domina um oceano como o Índico em dez anos? Há ali uma dimensão medieval, mas também há muito de conhecimento, de observação científica.

O que pode acontecer se o Reino Unido deixar a UE?
Eu não quero deixar a UE, mas se acontecer vamos ficar mais pobres e mais isolados. Vamos querer ser uma espécie de Austrália da Europa. Não me espantaria que os escoceses fizessem um novo referendo e que acabássemos ainda mais pequenos. Mas também será grave para a Europa, porque pode potenciar o crescimento da extrema-direita em Itália, em Espanha, na Áustria. Poderão querer fazer o mesmo. Estamos a entrar num mundo mais complicado. b