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“És tão bonita, é pena seres gorda”

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D.R.

Em criança, os médicos chegaram a alertar para o risco de raquitismo. Raquel não gostava de comer e a conversa à volta da comida fazia com que comesse ainda menos. Até ao dia em que foi operada à garganta. A partir daí, começou a comer mais, ao ponto de hoje sentir que comer naquela altura era uma forma de chamar a atenção: “Não tinha muitos amigos, era solitária e a comida acabou por ser um refúgio, uma forma de autovalidação”. Aos 9 anos começou a perceber que a imagem era um problema para os outros. “Na escola toda a gente era magrinha, menos eu”. Na escola, na rua e mesmo na família, passou a ser “a baleia”. A mãe juntava-se ao coro de todos os que usavam palavras duras, insultos que até hoje não conseguiu esquecer. Quando chegou aos 104 quilos, tinha 14 anos, começou a fazer tratamentos para perder peso que hoje se sabe são “prejudiciais à saúde”. Isolou-se, desistiu de estudar porque não aguentava mais a pressão, comia às escondidas. Quando a desafiavam para ir à praia dizia que não gostava. O programa da SIC E Se Fosse Consigo? aborda a questão do peso da imagem e questiona até que ponto uma pessoa mais gorda tem menos oportunidades ou é alvo de discriminação. Através de uma experiência encenada, uma mãe insulta a filha em público. Quantos estão dispostos a parar com a humilhação da jovem?

Raquel é uma das entrevistadas do programa. Enfrenta a câmara sem hesitar e desabafa quase de rajada a história de uma vida cheia da censura dos outros. Como quando procurava trabalho : “Ninguém me queria dar trabalho porque a minha imagem corporal não era a imagem ideal. Pessoas com qualificações semelhantes às minhas, e se calhar menos à vontade, ficavam no meu lugar.” Um dia apresentou-se num restaurante depois de ter feito um curso de técnicas de cozinha e puseram-na a descascar batatas. Só para não lhe dizerem que não queriam contratá-la por ser gorda. “Eu não fiz nada que testasse a minha capacidade profissional. Nesse dia faltou alguém para descascar batatas e puseram-me a mim”.

Entrou em depressão, deixou de fumar, engordou ainda mais. Pediu ajuda ao psiquiatra e foi assim que chegou à consulta de obesidade, onde entrou na lista de espera para cirurgia. Ao fim de um ano e meio após ser operada, passou para os 62 quilos. “Perdi meia Raquel». Hoje conta os dois lados da história. De quem já foi gordo e de quem deixou de ser. É uma luta que continua: «Ninguém fica magro para o resto da vida depois de fazer esta operação. Todos os dias é preciso olhar para o que temos no prato e saber se vai ser positivo ou negativo.”

No hospital de Santa Maria, em Lisboa, uma vez por mês os pacientes da consulta de obesidade reúnem-se para partilhar experiências. De quem já se sujeitou às chamadas cirurgias bariátricas e de quem ainda está em espera. As reuniões terapêuticas Afago contam com a presença das psicólogas do serviço de endocrinologia. O nome traduz o que acontece ali dentro entre quatro paredes, longe dos olhares alheios. É preciso afagar, confortar desabafos carregados de sofrimento provocado por um mundo que exclui e julga os gordos.

Luísa Pinhão é estreante. Depois de ouvir os outros, chega a vez dela. Já tentou vários tipos de dieta e de cada vez que conseguiu emagrecer tornou a engordar e ainda mais do que estava antes. Os filhos em casa têm dificuldade em compreender e por vezes até brincam com o peso da mãe. Ela ri e disfarça mas agora ali a falar do assunto não consegue evitar as lágrimas. O mesmo no emprego. Coisas que se dizem a brincar mas ficam a doer. Depois da morte da mãe, a situação piorou. Luísa sente-se mais vulnerável e está mesmo a precisar de gestos que lhe mostrem que a vida é muito mais do que o peso que se tem. Um dos outros pacientes diz-lhe que compreende: «Eu também já tive momentos assim, uns piores, outros melhores, como todos os que aqui estão. Este é um caminho muito grande que temos que fazer.» Um caminho em que os outros vão colocando preconceito, incompreensão, falta de respeito, falta de humanidade. Raquel é uma testemunha de todos esses entraves. Conta a história do antes e do depois de ser obesa. «Quando uma pessoa é obesa ou é invisível ou chama a atenção de uma forma negativa. Acontecia-me entrar numa loja de roupa e as empregadas dizerem-me: 'nós não temos nada para si'. Ou então ignoravam-me e eu podia andar uma tarde inteira dentro da loja que ninguém me abordava a perguntar absolutamente nada. Hoje em dia, sou logo atendida. O gordo tem a noção de que é gordo, não precisa que lho digam. Não é dizer: Ah és tão bonita, é pena seres tão gorda. Pena porquê?»