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Cartagena: o realismo mágico mora aqui

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foto joana pereira bastos

A cidade ex-líbris do Caribe foi o cenário para muitas das obras de García Márquez

É possível ser feliz ao regressar a um sítio onde nunca estivemos. Descobrir no desconhecido a familiaridade confortável de um lugar que dominamos. Ao pisar pela primeira vez as ruelas estreitas de Cartagena das Índias, percebi que, afinal, a viagem não seria uma estreia, mas um reencontro. Muitos anos antes, e sem nunca sair do quarto, já tinha passeado longamente por entre as casas coloniais pintadas de azul profundo, rosa velho, vermelho sangue ou laranja ocre, com imponentes varandas de madeira cobertas de buganvílias de outras tantas cores. Já as tinha percorrido, sob um calor sufocante, ao som dos ritmos caribenhos e das carruagens de cavalos no empedrado, cruzando-me com jovens mulatas e velhos crioulos que parecem povoar um conto de fadas tropical. Antes de lá ir e muito depois de voltar, aquele lugar, feito de histórias e mitos, habita na minha estante, entre as páginas de mais de uma dezena de livros de Gabriel García Márquez. Gabo, como é carinhosamente chamado na Colômbia, costumava dizer que em todos os seus romances “há fiapos de Cartagena”.

Em “O Amor em Tempos de Cólera”, foi ali, junto às arcadas do Portal de los Dulces (ou Portal de los Escribanos), uma das praças mais emblemáticas da cidade onde hoje se vendem rebuçados, gomas e doces de todas as cores, que Fermina Daza disse a Florentino Ariza que não iria casar com ele, adiando esse amor por 51 anos, nove meses e quatro dias.

foto joana pereira bastos

Em todas as vielas da cidade quinhentista, ex-líbris do Caribe e Património Mundial da UNESCO desde 1984, parece ecoar uma frase de García Márquez, mágica, colorida e musical. Para melhor a ouvir, vale a pena entrar no pequeno café-livraria Ábaco (no cruzamento das calles de La Iglesia e de la Mantilla) para beber uma cerveja gelada, arrefecer o corpo do sol abrasador e folhear um dos livros do Prémio Nobel da Literatura, no seu castelhano original.

Gabo está por toda a parte. Na imponente moradia onde viveu, com vista para o Mar do Caribe, na casa onde funcionou a redação do “El Universal”, onde começou a carreira de jornalista, ou no colorido bar Bazurto (Av. del Centenario), no boémio bairro de Getsemaní, onde o autor de “Cem Anos de Solidão”, que morreu em 2014, gostava de beber champanhe, ao som de rumba e tambores.

Mas está sobretudo no romantismo das ruas à noite parcamente iluminadas, onde o realismo mágico parece ganhar vida e todo o amor, mesmo o mais improvável, parece possível. Como o do padre que se apaixonou pela menina que foi chamado a exorcizar, em “O Amor e Outros Demónios”, cuja história decorre no Convento de Santa Clara, hoje transformado em hotel de charme.

foto joana pereira bastos

Mas não são apenas os romances de García Márquez que ganham corpo numa das mais belas e melhor preservadas cidades coloniais de toda a América Latina. Banhada pelo Mar do Caribe (que só ganha os tons turquesa a várias milhas da costa, nas Islas del Rosário ou, mais a sul, no arquipélago de San Bernardo), Cartagena foi o mais importante porto espanhol no Novo Mundo, onde chegavam navios negreiros e de onde partiam galeões carregados de ouro. Não é difícil imaginar histórias grandiosas num paraíso tropical onde se cruzavam escravos, índios, soldados, corsários e piratas das Caraíbas.

Feita de amores improváveis e aventuras épicas, Cartagena é muito mais do que uma cidade bonita, num país só agora a despertar para o turismo. É um romance. Daqueles que prendem desde a primeira frase e ninguém consegue parar de ler.

Fora das muralhas

É preciso coragem para enfrentar o sol impiedoso e subir, sem uma única sombra, a rampa que dá acesso ao Castelo de San Felipe de Barajas, fora das muralhas que protegem a cidade. Mas vale a pena. Construído no século XVII a partir de um engenhoso sistema de túneis, é o mais importante forte espanhol no continente e revelou-se sempre impenetrável perante as múltiplas tentativas de invasão, nomeadamente dos corsários ao serviço da coroa britânica. Por lá, diz-se, aliás, que a sua invencibilidade é a razão porque a América Latina fala castelhano e não inglês. O forte oferece ainda uma vista única sobre o centro histórico e também sobre a zona moderna de Cartagena, que lembra Miami, com arranha-céus a crescer entre palmeiras.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 16 abril 2016