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Um passeio pelo Alentejo, entre vinho e História

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Victor Machado

Se quer passar um dia tranquilo, a comer bem, beber melhor e descansar o espírito, o Monte da Ravasqueira, em Arraiolos, é uma boa opção

A paisagem alentejana é sempre uma aposta segura. É terra onde é difícil ir e não regressar com um sorriso - além da mente descansada, arejada. É provável que seja a planura do espaço, a possibilidade de olhar e ver terra quase sem fim, sem obstáculos nem desníveis geográficos. Os 3000 hectares da Ravasqueira têm precisamente esse efeito sobre quem chega. Quando José Manuel de Mello, o empresário que fundou a CUF e a Lisnave, comprou aquele monte, em 1943, apenas o usava como reserva de caça. Depois, pouco a pouco, vieram os cavalos, a produção de cortiça, azeite e mel, a criação de gado bovino. Só muito mais tarde chegou o vinho.

A casa do Monte da Ravasqueira, propriedade da família de José Manuel de Mello, abriu as portas a grupos que ali queiram pernoitar

A casa do Monte da Ravasqueira, propriedade da família de José Manuel de Mello, abriu as portas a grupos que ali queiram pernoitar

Victor Machado

Latifúndio típico daquelas bandas, a Ravasqueira dava trabalho a 600 pessoas que ali viviam como uma grande família alargada. A revolução de Abril, em 1974, levou à nacionalização do Monte e obrigou a família a exilar-se na Suíça. Só em 1986 José Manuel de Mello recuperaria a sua propriedade na íntegra. Desenvolveu a coudelaria, com cavalos lusitanos (que até 2009 foram um dos grandes negócios da Ravasqueira), e mais tarde o vinho. Com os cavalos, concretizou o seu primeiro sonho: pôr o cavalo lusitano na boca de todos. Em 1996, ganhou o campeonato do mundo de atrelagens. Mais tarde, em 2001, iniciou o seu outro desígnio: "produzir o melhor vinho do Alentejo". Plantou 45 hectares de vinha e um total de 15 castas, algumas escolhidas por ele. Chegou a provar o seu vinho, mas um acidente que o levou ao coma, em 2006, trocou as voltas a tudo. A sua morte, em 2009, mudou também o curso do Monte.

O Monte da Ravasqueira alberga uma das maiores coleções privadas do mundo de atrelagens. São 37 exemplares, do século XVIII ao XX

O Monte da Ravasqueira alberga uma das maiores coleções privadas do mundo de atrelagens. São 37 exemplares, do século XVIII ao XX

Victor Machado

O vinho, cuja produção se iniciou em 2001, seguiu um caminho regular até 2012. Nessa altura, a chegada de um novo enólogo, Pedro Pereira Gonçalves (com muito trabalho vinícola no Novo Mundo, na Austrália, Chile e Nova Zelândia), imprimiu uma dinâmica nova à criação de vinhos do Monte da Ravasqueira. Pedro pratica uma viticultura de precisão, em que um avião sobrevoa a vinha e faz uma fotografia aérea multiespectral, mostrando o grau de clorofila das vinhas e a sua "variabilidade". A partir daí, desenvolveu a gama Premium da Casa, com vinho branco, tinto e rosé. O Monte da Ravasqueira branco estagia um ano em barrica de carvalho francês, sem qualquer influência do enólogo; o tinto estagia 22 meses e o rosé seis. Isso torna o vinho "mais gordo e mineral", explica Pereira Gonçalves.

A casa de vinhos foi das primeiras a criar um rosé Premium, afiança o enólogo. Este, que é vendido a 25€ a garrafa, "é muito representativo da Ravasqueira, pois tem uvas tintas dos cinco talhões da herdade", explica. Há ainda dois outros vinhos para os quais Pedro chama a atenção: o Vinha das Romãs, com castas de um antigo talhão de romanzeiras, que dão um travo peculiar ao vinho, e o seu preferido, o Syrah-Viogniers. Na edição de maio da conceituada revista de vinhos norte-americana "Decanter", dois vinhos da Ravasqueira mereceram distinção: o Vinha das Romãs 2013 foi considerado "outstanding" (a categoria máxima de excelência) e o Monte da Ravasqueira Reserva Tinto 2013 obteve a classificação "highly recommended". Também o Late Harvest do Monte da Ravasqueira é uma novidade da Casa (e uma aposta conseguida). E em 2016 vão ainda lançar o primeiro espumante da casa, que está em estágio desde 2012.

Na loja do Monte da Ravasqueira, além da vasta gama de vinhos, há ainda mel da herdade

Na loja do Monte da Ravasqueira, além da vasta gama de vinhos, há ainda mel da herdade

Victor Machado

Ir passar um dia (ou dois) à Ravasqueira pode ter vários momentos: começar com uma prova de vinhos, seguir para almoço no restaurante da herdade (que tem de reservar com antecedência), visitar o Museu dos Arreios e das Atrelagens ali na propriedade, que tem uma das maiores coleções privadas do mundo – com 37 atrelagens, do século XVIII ao XX -, e terminar a dormir o sono dos justos num dos 12 quartos do enoturismo. O passeio é de sucesso quase garantido.

A sala de estar do enoturismo, onde sobressai o retrato de José Manuel de Mello, e os motivos de caça, desígnio original do Monte da Ravasqueira

A sala de estar do enoturismo, onde sobressai o retrato de José Manuel de Mello, e os motivos de caça, desígnio original do Monte da Ravasqueira

Victor Machado