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O burlão do offshore de Londres

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Luís Nobre foi condenado a 14 anos de prisão por um tribunal de Londres pelos crimes de fraude e usurpação de capitais

CARL COURT/GETTY IMAGES

Português condenado em Inglaterra tinha duas empresas fictícias numa morada onde estão registadas duas mil

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

O número 29 da Harley Street fica a dois passos das clínicas privadas procuradas pela elite londrina e das lojas concorridas de Oxford Street. É uma casa vitoriana de três andares, com uma porta de madeira escura e vasos de flores pendurados nas janelas de ferro branco e situada numa rua de mansões não menos aristocráticas. Aquela é a morada de 2159 empresas que podem ser criadas em poucos minutos na internet, bastando para isso preencher um formulário e pagar entre 15 a 595 libras (entre 20 e 750 euros). A maioria está sediada no Reino Unido mas também em paraísos fiscais como as Ilhas Virgens Britânicas, Panamá, Gibraltar, ilha de Man ou Belize.

Duas dessas empresas aí registadas, a LARN Holdings e a ERBON Wealth Management, pertenciam a um português chamado Luís Nobre que enganou uma importante firma petrolífera holandesa, a Allseas. Nobre e o seu sócio, Mark Rejniak, convenceram os holandeses a transferirem-lhes 100 milhões de euros com o argumento de que conseguiriam duplicar o dinheiro em apenas trinta dias. E que em três anos o montante atingiria os 1,2 mil milhões de euros. O segredo para conseguirem juros tão altos? A dupla garantia representar uma plataforma “secreta e lucrativa” ligada à Reserva Federal norte-americana, ao Vaticano e à Casa Real de Aragão. Uma mentira rapidamente descoberta pelas autoridades inglesas que detiveram o português em 2011 e 2012 mas não o conseguiram impedir de esbanjar uma boa parte daquela quantia em hotéis de cinco estrelas, segurança privada e festas sem limite de gastos.

Em fevereiro deste ano, o burlão de 50 anos e origem moçambicana, foi condenado por um tribunal britânico a 14 anos de prisão pelos crimes de fraude e usurpação de capitais. Mas o seu envolvimento em esquemas ilegais e transnacionais cometidos em Londres não estará ainda totalmente desvendado. Uma investigação do jornal “The Guardian” tenta preencher os espaços em branco, revelando a existência de uma ligação estreita entre Luís Nobre e Nadeem Khan, o cofundador da Formations House, nome do organismo que alberga as mais de duas mil empresas no número 29 da Harley Street. E que tem por objetivo ajudar qualquer pessoa a criar um offshore.

Ataque cardíaco antes do julgamento

Nos últimos seis anos, Khan terá tentado distanciar-se da Formations House, nomeando outros diretores e criando subestruturas “impossíveis de penetrar para quem tenta descobrir a identidade dos verdadeiros donos”, salienta o diário britânico. Mas as autoridades acusaram o empresário nascido no Médio Oriente, e que chegou a ser um pregador anti-Islão com alguma popularidade em conferências nos EUA, de ter dado cobertura aos negócios do português, mesmo já depois de este ter sido detido pela primeira vez em novembro de 2011. Havia fortes suspeitas de que Khan não se limitou apenas a vender-lhe empresas. “As suas ações foram decisivas para permitir que Nobre branqueasse o dinheiro roubado à Allseas”, defenderam os procuradores do caso.

As autoridades britânicas garantem ter provas de que Nobre pagou 160 mil libras (cerca de 200 mil euros) a Khan poucos antes de os fundos depositados pela empresa petrolífera holandesa na conta da LARN Holdings terem sido congelados. Aquele dinheiro terá servido para a compra de quatro empresas “shelf” (criadas com o intuito de parecerem ter já vários anos de atividade, dando a impressão a possíveis investidores de serem de confiança).

Segundo a acusação, Nadeem Khan conseguiu, através de um esquema financeiro complexo que terá contado com a ajuda de um banco cipriota, que o português pudesse manusear os milhões da Allseas, fintando a proibição da polícia. “Uma vez que Nobre teve o OK da banca, assumimos que estava tudo clarificado para podermos continuar a trabalhar com ele. E por isso continuámos a fazê-lo”, justificou Nadeem Khan às autoridades.

Sem surpresas, Khan foi constituído arguido no processo-crime contra Luís Nobre. Apesar de os indícios contra o fundador da Formations House serem fortes, nunca foi condenado por qualquer crime. Acabou por morrer, vítima de um ataque cardíaco, poucas semanas antes de se iniciar o julgamento no tribunal de Southwark, em Londres, que decorreu entre 2015 e o início deste ano. Luís Nobre garantiu sempre estar inocente e ser alvo de uma conspiração, mas o juiz não aceitou os argumentos. A família, espalhada pelos arredores de Lisboa e Londres, mantém-se em silêncio.

Quanto à Formations House continua ativa quinze anos depois da fundação, mantendo-se dentro dos limites da lei britânica. O Expresso contactou esta empresa através do número que consta no site. Um operador telefónico explicou que não era possível falar com qualquer responsável e muito menos saber os nomes dos atuais donos da LARN Holdings e da ERBON Wealth Management. “Temos de facto uma grande lista de empresas nesta morada mas não podemos divulgar informações sobre elas”, foi a justificação dada.