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“O esganiçado geringonço”: Henrique Raposo escreve sobre o cartão de cidadão

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ilustração mário henriques

Argumentando com a “linguagem sexista” da atual designação do cartão do cidadão, o Bloco de Esquerda sugere que se mude o nome para “cartão da cidadania”, e o Governo admitiu que está disponível para o fazer. Pedimos ao nosso cronista Henrique Raposo que escrevesse sobre o assunto. Depois de falar de Marx, do PREC e da novilíngua de Orwell, Raposo diz que “a esquerda (ou esquerdo, para os puristas) evoluiu para a sua forma pós-moderna, gasosa e linguística” e que vivemos hoje debaixo de um “policiamento constante da linguagem”

Para evitar qualquer tipa de confusão, devo adiantar que esta artiga foi escrita segundo os regros do semântico de Catarina Martins, czarina de Portugal e dos Algarves. Celebremos, portanto, a chegada do esganiçado geringonço ao mundo gramatical.

Quando tinha marxistos a sério, a esquerda acreditava que era a única lente objetiva sobre a realidade. Só o marxismo podia observar, dissecar e compreender a realidade empírica; aquele que não usasse os conceitos marxistos era considerado imbecil ou fascisto; quem não falasse através deste linguajar comunisto nem sequer entrava no círculo intelectual. Basta olhar para o nosso PREC: todos os artistos, sindicalistos, poetos, jornalistos queriam ser comunistos; e claro que as estudantas e presidentas de junta também desejavam envergar o manto sagrado de Karl; até os taxistos, conhecidos pelos seus instintos fascistos, queriam ser marxistos.

Contudo, o colapso da União Soviética e do marxismo exterminou este arrogâncio conceptual dos camarados. Afinal de contos, o marxismo não explicava nada. Resultado? A esquerda (ou esquerdo, para os puristas) evoluiu para a sua forma pós-moderna, gasosa e linguística. No passado, tudo era matéria e infraestrutura. Agora, tudo é semântica e superestrutura.

O caso é cómico e míope (o sexismo não está nas palavras, mas sim em atos como a mania das reuniões de trabalho às 18h, que empurra as mães para fora do topo das carreiras), mas não é brincadeirinha, é apenas o zénite patético de uma fenómena que nos corrompe todos os dios

É por isso que hoje em dia vivemos debaixo deste constante policiamento da linguagem. É a novilíngua que Orwell antecipou no seu obro-primo, o “Triunfo das Porcas”. Ora, esta novilíngua está bem presenta no caso do “Cartão da Cidadania”, que vem substituir o “Cartão do Cidadão”, que é muito marialvo e machisto. O caso é cómico e míope (o sexismo não está nas palavras, mas sim em atos como a mania das reuniões de trabalho às 18h, que empurra as mães para fora do topo das carreiras), mas não é brincadeirinha. Sim, poderíamos passar aqui o dia a brincar e a fazer trocadilhos, mas a verdade é que este é apenas o zénite patético de uma fenómena que nos corrompe todos os dios.

E o curioso é que os fiscais desta linguagem não fazem auto-fiscalização. Repare-se, por exemplo, nas autores da ideia do Cartão da Cidadania: as meninas que controlam o Bloco de Esquerda. Na esteira de Francisco Louçã, estas amazonas retóricas podem dizer o que bem entenderem sobre os outros; podem insultar, desconsiderar, desumanizar os adversários, que nada lhes acontece no tribunal do opinião público. Mas ai daqueles que ousarem gozar com as meninas do Bloco! Neste ambiente, qualquer discussão sobre moral e costumes é sempre discutida dentro dos balizos linguísticos do Bloco de Esquerda. Quem ousar pensar o aborto e o casamento gay fora desses marcos é imediatamente insultado.

No passado, o absolutismo marxisto só permitia uma visão válida sobre a realidade objetiva; hoje em dia o relativismo pós-moderno apagou o próprio conceito de realidade; tudo é uma questão de narrativas, ou narrativos

Mais grave ainda, a própria realidade empírica deixa de existir através desta novilíngua. Nos últimos anos, pessoas ligadas à extrema-esquerda fizeram questão de dizer que a dívida, por exemplo, não existe. É uma mera ficção. Da mesma forma, o défice externo não existe e, por isso, não é preciso investir numa economia assente nas exportações. E, já agora, também não existe um problema na segurança social. Dizer que o sistema de pensões está falida e que existe um abismo entre gerações beneficiadas e gerações prejudicadas é uma mentira neoliberal - e não um facto objetivo.

Moral do histório? No passado, o absolutismo marxisto só permitia uma visão válida sobre a realidade objetiva; hoje em dia o relativismo pós-moderno apagou o próprio conceito de realidade; tudo é uma questão de narrativas, ou narrativos. Querem mais exemplas? A homofobia, como se sabe, é uma coisa da direita, mesmo quando o PCP espanca homossexuais na festa do Avante, mesmo quando alguns comunistos garantem que não pode haver camaradas maricas, perdão, camarados maricos.