Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Foi a morrer que ele nos ensinou a viver

  • 333

Procurar vida na morte. Encontrar morte na vida. Paul Kalanithi tinha toda a vida pela frente e ambição de chegar ao topo, até já o via, mas um cancro matou-o. As suas memórias - que fizeram chorar os Estados Unidos - chegaram esta sexta-feira às livrarias portuguesas e a mulher dele partilha com o Expresso o que ficou de uma vida que se transformou em ar

SIGNIFICADO. Dar sentido à vida, mesmo quando o tempo é pouco, é o testemunho que fica do livro de Paul Kalanithi - que chega agora a Portugal. Na imagem, já doente, com a mulher Lucy e a filha Cady

SIGNIFICADO. Dar sentido à vida, mesmo quando o tempo é pouco, é o testemunho que fica do livro de Paul Kalanithi - que chega agora a Portugal. Na imagem, já doente, com a mulher Lucy e a filha Cady

FOTO SUSZI LURIE MCFADDEN

Significado.” É assim, em apenas uma palavra, que Lucy Kalanithi resume os 37 anos da vida de Paul, seu marido, neurocirurgião que morreu há um ano com um cancro no pulmão. Acabou ali a sua história? Não. “Antes de eu partir” é o título em português de um livro que emocionou os norte-americanos. Porquê? Porque toda a obra é atravessada por uma pergunta fundamental para todos nós: o que faz uma vida valer a pena ser vivida? As pequenas coisas. Como respirar. Ou estar lá para as pessoas que amamos. E já é tanto.

O título do livro é enigmático, parece um sussurro. Em inglês é “When breath becames air”. Um referência misteriosa, porque não completa o raciocínio subjacente ao poema que lhe serviu de inspiração. No fundo, fala do “ar que respiramos tornar-se o ar que nos sufoca”, como transparece do soneto “Caelica 83”, de Brooke Fulke Greville (século XVII): “You that seek what life is in death, now find it air that once was breath. New names unknown, old names gone: Till time end bodies, but souls none. Reader! Then make time, while you be, but steps to your eternity”. Então, feito o convite, mergulhemos nesta história, guiados pela mulher do autor.

“Paul escreveu este livro como se de um diário se tratasse. Foi também uma prenda para os leitores, incluindo os seus colegas médicos. É o relato de um neurocirurgião que confronta a sua mortalidade, um amante da literatura e um doente terminal. Ele fala da relação médico/paciente estando dos dois lados, fala de medicina e tenta dar significado ao sofrimento”, conta Lucy Kalanithi.

Ela própria, médica, mudou a sua forma de exercer a profissão depois da doença do marido. Diz que a formação a preparou para ser uma melhor cuidadora e até mesmo uma viúva, o que também acabou por fazer dela uma melhor médica: “Aprofundou a minha convicção de que não devemos abandonar os nossos princípios mais interiores e apoiar os outros a guiarem-se também pelas suas mais firmes crenças. Fazemos isso com os nossos amigos e com as nossas famílias e devemos fazê-lo com os nossos pacientes”. Porque, faz questão de recordar, na sociedade contemporânea, a morte e a doença não são dimensões aceites, são até escondidas.
Médicos, seres mortais

Os médicos não podem esquecer que são mortais. Como os seus pacientes. São falíveis. “São homens e é disso que Paul fala”, sublinha Lucy. E foi essa dimensão de humanidade que ele não desistiu de procurar, mesmo quando a doença parecia derrubá-lo: “Ele continuou a procurar um propósito para a vida, fosse tentando regressar à neurocirurgia, fosse escrevendo o livro, fosse tendo a nossa filha, mesmo depois de receber o diagnóstico de que tinha um cancro terminal”. “Como ele disse no livro, até morrer, estava vivo”, alerta a mulher e colega de vocação. A mensagem é simples: viver não é sobre como se pode evitar o sofrimento, mas sobre como é possível encontrar significado no que dói.

O livro assombrou o mercado literário norte-americano. O “The New York Times” diz que é “imperdível” e o “Washington Post” elogia a elegância da escrita e que consegue transformar a medicina em filosofia, recomendando a leitura, mas avisando que o leitor vai chorar.

MADEIRA. Lucy e Paul passaram a lua de mel no arquipélago, ao qual gostariam de retornar para comemorar duas décadas de casamento

MADEIRA. Lucy e Paul passaram a lua de mel no arquipélago, ao qual gostariam de retornar para comemorar duas décadas de casamento

d.r.

Mas, afinal, quem era esse homem? Um rapaz de origem indiana, moreno, alto, magro e com uma farta barba. Basta para o definir? Não. Percebe-se melhor quando se explica que Paulo era o filho de um médico, alguém que chegou à medicina depois de se encontrar na literatura. Um aluno brilhante de Stanford, licenciado com louvor por Yale, premiado com o mais alto galardão de investigação da Academia Americana de Cirurgia Neurológica.

“Passei as tomografias uma a uma, o diagnóstico óbvio: os pulmões estavam maculados de inumeráveis tumores, a espinha deformada, todo um lóbulo do fígado obliterado. Cancro, amplamente disseminado. Eu era interno de neurocirurgia a iniciar o meu último ano de formação. Ao longo dos últimos seis anos, examinara dezenas de tomografias idênticas, na remota eventualidade de que determinado procedimento pudesse beneficiar o doente. Só que essa tomografia era diferente: era minha.” É assim que começa o livro de Paul Kalanithi. Sem meias palavras. Que ninguém que aqui chegue vá ao engano.

Tendo escolhido a especialidade que o confrontava com o Outro, Paul sabia ao que ia: “Os neurocirurgiões trabalham no cadinho da identidade: toda a operação ao cérebro é, por necessidade, uma manipulação da substância dos nossos seres, e toda a conversa com um doente sujeito a cirurgia cerebral não pode deixar de confrontar este facto”. Ele, que se encantara com a neurocirurgia pelo seu “inexorável apelo à perfeição”, pelo seu confronto direto “com o sentido, identidade e morte”. E Paul encontrou-as a todas, antes de partir.

O último capítulo do livro é escrito por Lucy. Paul já tinha morrido. Oito meses antes, tiveram tempo de gerar, de urgência, a pequena Cady, Elizabeth Acadia de seu nome completo, um símbolo de esperança, de futuro. Lançada aos bichos, Lucy não foge à liça. Mantém o nível de profundidade do marido e confronta-se(-nos) com a perda. Enfrenta-a cara a cara.

Apoia-se, como ele o fizera, na poesia. E vai buscar a “Terra Devastada” de T.S. Eliot: “Mistura a memória e o desejo, agita / Raízes dormentes com chuva da primavera”. Um ano depois, cá estamos nós a lê-los. A perceber, passo a passo, como um homem morre. Sem eufemismos, como só os médicos sabem relatar a morte. Mas o que mais choca e emudece não são os relatos concretos do corpo a ceder, é o que fica por dizer, o que se vê, o ar que sai do nosso peito quando se leem as letras impressas nas páginas do livro.

A morte chegou

“'Antes de Partir' está, em certo sentido, inacabado, interrompido pelo rápido declínio de Paul, mas essa é uma componente essencial da sua verdade, da realidade que Paul enfrentou”, conta-nos Lucy. Ela que não se esquece de partilhar que o marido chorou no dia em que foi diagnosticado, chorou ao olhar um desenho que o casal tinha no espelho da casa de banho com o dizer “quero passar o resto dos meus dias aqui contigo”, chorou no seu último dia na sala de operações. Um homem que “permitiu-se estar aberto e vulnerável, permitiu-se ser confortado”.

Ela que, antes de se despedir do Expresso, faz questão de contar que a lua de mel do casal foi passada na Madeira em 2006 e que ainda voltaram em 2013, depois do diagnóstico, e que queriam voltar para o vigésimo aniversário de casamento. Não tiveram tempo. Mas ela ficou para nos contar e não perdeu esta oportunidade. Porque, como Lucy sublinha, “o que aconteceu a Paul foi trágico, mas ele não foi uma tragédia”.

O livro, editado pela Saída de Emergência, chegou esta sexta-feira às livrarias portuguesas e é, sem qualquer dúvida, como já se pode perceber, um suave soco no estômago. Uma paragem para pensar, sobretudo para quem já perdeu um familiar com a mesma doença. Uma recordação de como tudo o que mais importa rapidamente se transforma em ar. Respiremos, portanto.