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Francisco George: “O filho de um motorista de um qualquer ministro tem um acesso diferente ao SNS. Temos de acabar com isso”

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Francisco George disse ao Expresso que alguns dos doentes legionários registados neste surto já tiveram alta hospitalar

Tiago Petinga/Lusa

O diretor-geral da Saúde diz não falar de política, "porque isso divide a sociedade". Confessa ter-se tornado amigo de Paulo Macedo, ex-ministro da Saúde, e descreve-o como alguém que sabia "ouvir"

Não é um mito ou segredo de Estado: muitos portugueses queixam-se que existem certos privilégios, direitos de prioridade, que só alguns têm acesso no Serviço Nacional de Saúde. Em entrevista ao "Jornal de Negócios" esta sexta-feira, Francisco George, diretor-geral da Saúde, assume esse problema. "O filho de um motorista de um qualquer ministro tem um acesso diferente ao SNS por questões culturais. Temos de acabar com elas", afirmou.

Francisco George admite a existência de uma certa "iniquidade" no acesso ao SNS: a cultura do interceder por, do pedir para. Este é um dos problemas que diz ser mais necessário combater. Durante a entrevista ao "Negócios", relata um episódio em que uma vez, quando era delegado de Saúde, viu "um helicóptero ir buscar um doente que tinha tido um enfarte do miocárdio". Parte da instituição hospitalar em causa começou automaticamente à procura de um coração para transplante, algo que achou estranho. A sua atitude foi de questionar a situação: e se fosse um pastor, também teria esse privilégio? Passadas algunas semanas, durante uma corrida de automóveis, foi atropelado um pastor e o mesmo voltou a acontecer, garantiu.

Mesmo com este levantar de questões sobre o SNS, o diretor da DGS lembra que a "saúde dos portugueses" não está mal entregue. "É das melhores do mundo, traduzida pelos indicadores clássicos", disse. "Se houvesse um jornal que relatasse os sucessos das pessoas que saem cuidadas do SNS, não teriam páginas suficiente. Mas os sucessos nunca são relatados", acrescentou.

Diz não falar de política, "porque isso divide a sociedade. Um diretor-geral da Saúde não pode dividir". E revelou ainda que ganha mensalmente 3.100 euros líquidos, mais uma "compensação simbólica" pelas aulas que dá na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP).

Quando questionado sobre se o SNS tem regredido, Francisco George diz "não discutir questões de política". Tem a certeza que o Governo e o novo ministro da Saúde farão tudo para diminuir a desigualdade e falhas do sistema.

Deixou elogios a Paulo Macedo, de quem ficou amigo: "Tive uma experiência fantástica com ele. Chegou sem nunca ter trabalhado em Saúde. Sabia ouvir..." Relativamente ao novo ministro da Saúde, Francisco George também é "amigo pessoal". Os dois deram, inclusive, uma disciplina em conjunto na ENSP.