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O lugar do tempo

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Todos os países da OCDE viram os horários de trabalho anuais baixar entre 2000 e 2014. A Alemanha é o país da Europa onde se trabalha menos horas por ano (1371), apesar de ser a economia mais pujante. Portugal está no outro extremo: é um dos países europeus onde se trabalha mais horas (1857), apesar de isso não se refletir em termos de produtividade

Faz-nos falta o tempo. Mas como nos organizamos, Portugueses e Europeus, face às horas de que dispomos? Diferentes hábitos e tradições culturais organizam o modo como trabalhamos,as horas a que comemos e o sono que dormimos

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

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Jornalista

Vítor foi “27 anos escravo”. É assim que a médica à qual foi forçado a recorrer o caracteriza, referindo-se às quase três décadas de dedicação à empresa multinacional para a qual ainda hoje trabalha. O gestor de 53 anos viveu décadas “a trabalhar mais de 12 horas diárias e quase todos os fins de semana”. “Se havia um sábado ou domingo em que não ia trabalhar, a minha mulher estranhava e perguntava se me sentia mal. Usufruí de poucos dias de férias — cheguei a acumular mais de 100 dias por gozar, de anos anteriores”, conta. Recentemente, numa viagem ao estrangeiro, sentiu-se mal e teve de ser internado no hospital. Foi sujeito a um cateterismo e rendeu-se: tinha de mudar de estilo de vida.

“Tenho problemas crónicos de saúde, nomeadamente gastrointestinais [foi operado duas vezes aos intestinos, teve duas oclusões intestinais...], devido ao stresse, à má alimentação e à ausência de qualidade de vida”, explica. “Durante anos, o pequeno-almoço era um iogurte, cafés durante o dia, almoçava ao meio-dia e jantava à meia-noite, sem refeições intermédias. Dormia poucas horas, sentia-me cansado ao acordar, pressão na cabeça e, em alturas de maior pressão profissional, desequilíbrio ao andar.” Vítor andou anos assim, ausentando-se da vida familiar e do crescimento dos três filhos, que hoje têm 21, 18 e 11 anos. Perdeu “o acompanhamento e a partilha das suas diversas fases de crescimento”. Até que, muito tempo mais tarde, percebeu que “vivia em stresse permanente”. E que de nada adiantava “chegar ao topo da montanha correndo o risco de não ter ninguém ao lado para comemorar”.

Fez então alterações na sua vida de que hoje não abdica. Pratica footing com a mulher quatro a cinco vezes por semana. Tira um mês de férias para a família. Dedica tempo a projetos pessoais, para preparar um futuro ao qual quer chegar inteiro. Aprendeu que as melhores coisas da vida não são “pagas”, mas dependem apenas “de termos tempo para as viver”. Que “o equilíbrio da vida profissional e pessoal é fundamental para o bem-estar psicológico e emocional”. E que “a vida é muito mais bonita quando nos concentramos em estar aqui”, em vez de em “chegar lá”.

Muitas pessoas desvalorizam a importância que têm os horários na vida quotidiana e, mais do que isso, na nossa saúde e qualidade de vida. Mas Teresa Paiva, especialista em medicina do sono desde 1983, explica que “o nosso corpo está cheio de relógios” (naturais). “Isso está nos nossos genes, no nosso cérebro, na nossa pele, em todos os órgãos. O nosso corpo é capaz de medir o tempo. Esses relógios são mais antigos do que o próprio sono. E violá-los é completamente antinatura”, alerta. Sono e vigília, temperatura corporal, produção hormonal são tudo questões sincronizadas durante o sono. Não respeitar isso é estar a trabalhar para a doença. Um exemplo é a elevada taxa de “acidentes noturnos”, cuja prevalência mundial atinge o seu pico “às 4h da manhã”. “É a hora em que se atinge o nível máximo de melatonina”, a hormona que o cérebro produz para induzir o sono. Seguindo a mesma lógica, “um trabalhador por turnos tem um aumento de risco de cancro, de doenças cardiovasculares, de consumos”, continua a médica.

Há regras de ouro que devem ser respeitadas. A primeira é “dormir de noite e estar acordado de dia”. A segunda é “não nos deitarmos depois da meia-noite”. Pense nisso como uma espécie de “Hora da Cinderela”. A partir daí, a qualidade do sono (e do organismo) piora. Contudo, “75% dos portugueses não estão a dormir a essa hora”, afirma Teresa Paiva, sendo dos povos que mais tarde se deitam no mundo. “Os asiáticos dormem menos do que os americanos, e os europeus dormem mais do que estes dois.” Sabemos que a recomendação da Organização Mundial de Saúde para um adulto é de sete a oito horas de sono por dia. Mas “os portugueses dormem tanto como os asiáticos — cerca de seis a sete horas por noite”, alerta a especialista.

Esse défice de sono tem custos: de memória, de erros que se cometem, de distrações que podem ter efeitos mais ou menos complicados, de cansaço permanente, de menor produtividade. Teresa Paiva explica que existem “cronótipos diferentes” de pessoas: os matutinos, que acordam naturalmente pelas 6h da manhã e se deitam mais cedo; os que estão na média, que acordam pelas 7h, 8h e se deitam pelas 23h; e os noctívagos, que acordam até às 10h e se deitam sempre depois da meia-noite. A médica ressalva: “Deitar-se depois das 2h da manhã é estar a trabalhar para a doença.”

A regularidade e a constância dos horários são outro elemento fundamental para a saúde. “É importante acordarmos e deitarmo-nos regularmente mais ou menos às mesmas horas, assim como fazer refeições a horas. Não sair de casa sem tomar o pequeno-almoço, não jantar demasiado tarde...” E “os horários de trabalho também têm de ser finitos”, defende. “Os objetivos e os resultados não podem comprometer a saúde física e mental das pessoas. Trabalhar demais estraga a cabeça. Não se deve ter vergonha de sair a horas”, argumenta.

Conciliar, palavra mágica

“Uma sociedade 24/7, onde nada para.” É assim que Emília Araújo, professora da Universidade do Minho, no Departamento de Sociologia, e investigadora no Núcleo de Estudos em Sociologia (NES), descreve a sociedade contemporânea. “Chegámos a um ponto em que todos os ritmos naturais — incluindo os ritmos biofisiológicos, de crescimento, de maturação — podem ser manipulados através do uso de tecnologias e também da formação e disseminação de uma ideologia: a das vantagens e da inevitabilidade da sociedade 24/7.” Em consequência, os horários determinados sobrepõem-se às disposições do organismo, e as atividades passam a ser “quando o relógio social ou mecânico determina, e não quando o relógio biológico pede. O ritmo acelera, e no mesmo intervalo de tempo são inseridas cada vez mais tarefas”, conclui.

Mas, perante as crescentes solicitações, não organizamos todos o tempo do mesmo modo. “Há diferenças na forma de entender e usar o tempo entre latinos e nórdicos. Os povos nórdicos têm mais disposição para serem monocronos, ou seja, para fazerem cada coisa na hora certa, não misturando atividades de esferas distintas, enquanto os latinos, ou povos das culturas quentes, tendem a fazer mais coisas ao mesmo tempo e de esferas diversas — sendo polícronos.” O mesmo é dizer que, enquanto está em frente ao computador a trabalhar, um sueco não tem redes sociais abertas e não faz telefonemas pessoais; um português ou um espanhol faz um pouco de tudo — desde procurar uma receita para o jantar ou espreitar um novo local onde passar o fim de semana a preparar uma reunião. O resultado costuma ser uma maior dispersão no caso do “polícrono”, que acaba por passar mais horas no local de trabalho, sem que isso tenha reflexos diretos na produtividade.

Na vizinha Espanha, o primeiro-ministro Mariano Rajoy propôs o fim de uma tradição de décadas para alterar o horário laboral de nuestros hermanos. Acabar com a siesta, período da tarde que engloba o almoço e pode durar até três horas, atrasando a jornada laboral até às 20h — o que compromete muito a conciliação entre vida profissional e familiar —, é o seu objetivo. Quem vai buscar os filhos à escola? Como ocupá-los a partir das 17h, quando saem das aulas, até às 20h, hora a que os pais saem do trabalho? Quando é que jantam e vão para a cama? Que tempo têm os pais para estar com os filhos durante a semana? Acresce que o sul da Europa padece de um mal comum: o envelhecimento da população, resultante da falta de filhos. Encurtar o dia laboral dos espanhóis até às 18h é uma tentativa de melhorar a produtividade do país e aproximá-lo dos horários europeus — além de facilitar a vida social e familiar dos trabalhadores.

Enquanto a Espanha arrepia caminho em matéria de sesta, noutros países, como os EUA, o Brasil ou o Japão, cada vez mais empresas e instituições estão a implementar as power naps, curtas sestas de 20 a 30 minutos que visam repor as baterias da pessoa. Nas Universidades de Miami, Washington ou Wesleyan, nos EUA, há mesmo umas cabinas especiais, onde as pessoas se deitam e fecham a “tampa” por cima delas, para dormirem sem interrupções e às escuras (chamam-lhes nap pods). Em empresas conhecidas, como a Google, a Uber ou a Ben & Jerry’s, também há instalações próprias para fazer a sesta. E em São Paulo, no Brasil, existe desde 2012 o Cochilo, espaço que aluga cabinas individuais a quem quer dormir um sono reparador. Em suma: já se percebeu que parar para dormir é muitas vezes mais produtivo do que estar horas a fio a trabalhar, sem pausas e sem respeitar os ritmos naturais do corpo. Não são só as crianças que beneficiam em fazer a sesta...

A gestão do tempo em Portugal é vista como uma questão do foro pessoal, ao contrário dos países do norte da Europa, em que é considerado assunto político que é preciso legislar, retoma Emília Araújo. O século XX foi muito marcado por lutas sindicais que conseguiram reduzir o tempo de trabalho até oito horas diárias, perfazendo as 40 horas semanais que a maioria tem de cumprir por lei (e que a partir de julho, na função pública em Portugal, passarão a 35, progressivamente). “As políticas para a família têm de integrar a gestão do tempo, de modo a ajudar as famílias a conciliar vida profissional e pessoal. O último Código de Trabalho prevê que pais com filhos até aos 12 anos possam pedir aos seus empregadores para não trabalhar de noite”, explica. “Mas, na prática, as organizações usam as pessoas até ao limite...”

A verdade é que os horários também têm um efeito pacificador. “Os horários institucionalizam uma rotina, e isso dá segurança”, continua a investigadora. “Quem vive sem horários vive um pouco perdido. Sem estruturação do tempo, sem sentido, ou noção das prioridades.” Veja-se o caso dos reformados, ou dos desempregados, que sentem muita dificuldade de adaptação na passagem de uma vida ativa para outra sem obrigações nem horários. Aquilo que poderia parecer uma bênção — passar a dispor do tempo na íntegra, fazendo dele o que bem entendermos — é para muitos até motivo de depressão. O tempo — do relógio, do calendário... — é aquilo que nos baliza, mede e segmenta a vida. “Há duas semanas fiz isto”, “há três anos nasceu-me um filho”, “hoje tenho de sair às 17h30”.

No início do filme “E tudo o Vento Levou”, um relógio de sol exibe a frase, gravada na pedra: “Do not squander time, that is the stuff life is made of” (“Não desperdices o tempo, ele é a matéria de que é feita a vida”). A citação de Benjamin Franklin não podia, hoje, ser mais verdadeira — e intemporal.