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As famílias portuguesas comem todos os dias o suficiente? Há muitas que não

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Tiago Miranda

No dia em que abre em Lisboa o primeiro “supermercado social”, em que os utentes não precisam de dinheiro para levar o que precisam, publicamos os resultados do mais recente inquérito da Direção Geral de Saúde sobre as carências alimentares da população portuguesa. Os casos mais graves verificam-se no Algarve e em Lisboa e Vale do Tejo sendo a falta de dinheiro a principal razão

Raquel Albuquerque

Raquel Albuquerque

Texto

Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Infografia

Jornalista infográfica

Nem todos os portugueses vivem com a certeza de conseguir alimentar-se em quantidade suficiente todos os dias. Entre os vários fatores que agravam esse risco de carência de alimentos, as condições económicas das famílias têm um papel central. E segundo os dados existentes, há zonas do país onde essas carências se sentem mais.

Uma das conclusões que o inquérito anual InfoFamília, da Direção-Geral de Saúde, reflete em 2014 é que 16,1% das famílias inquiridas vivem em situações onde existem carências alimentares. Entre esses casos, uma parte maior (9,5%) está numa situação em que a falta de alimentos atinge os adultos da família – os primeiros a serem afetados. A outra parte desses casos (6,6%) são famílias em que a carência de alimentação já atinge as crianças.

O ponto de partida destes dados é um inquérito feito a famílias utentes do Serviço Nacional de Saúde, não abrangendo uma amostra representativa da população e, por isso, não podendo ser corretamente extrapolado para o total do país. É, contudo, atualmente uma das únicas formas de perceber quem são e onde estão as famílias em maior risco.

E os dados mostram que é nas regiões do Algarve e de Lisboa e Vale do Tejo que há mais casos graves de insegurança alimentar.

Porquê estas duas regiões? “Por um lado, sabe-se que estas são as regiões do país onde se verificam taxas de desemprego mais elevadas e também uma maior proporção de famílias monoparentais, características estas que têm sido associadas positivamente à situação de insegurança alimentar noutros trabalhos já publicados”, explica Maria João Gregório, docente da Faculdade de Ciências da Nutrição da Universidade do Porto, que tem estado envolvida na análise do inquérito InfoFamília desde a sua criação, em 2011.

“Por outro lado, alguns estudos sugerem que as regiões do Algarve e de Lisboa e Vale do Tejo apresentam um elevado número de populações imigrantes, resultado tanto dos fluxos migratórios internacionais como das migrações internas em Portugal.” E as populações migrantes, com uma rede de apoio e de suporte mais frágil à sua volta, são um dos grupos vulneráveis à insegurança alimentar.

Em regiões onde a população viva mais afastada da produção agrícola, como é o caso de zonas urbanas como Lisboa, o risco pode ser também maior - contrariando a ideia de que a fome passa mais por uma família rural que tenha tido uma má colheita, como lembra Pedro Graça, diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da DGS, num artigo na “Visão”. E no caso do Algarve, a sazonalidade da atividade económica e do emprego poderá igualmente ter peso na maior vulnerabilidade da população.

Quem são estas famílias em risco?

A existência de crianças na família e o número total de pessoas que a compõem, o nível de instrução do inquirido, o grupo etário, a situação profissional e o número de pessoas que contribuem para o rendimento familiar são exemplos de fatores socioeconómicos e demográficos que influenciam o risco das famílias. “Vários estudos têm apontado para o impacto significativo que situações inesperadas de carência económica, tais como situações de desemprego súbito, podem ter numa maior vulnerabilidade para situações de insegurança alimentar”, explica a docente da Universidade do Porto e investigadora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

O inquérito, que consiste em 14 perguntas baseadas numa escala usada também noutros países, permite concluir se a família em questão está numa situação de segurança alimentar (ou seja, sem qualquer limitação ou nível de preocupação na sua alimentação) ou em insegurança alimentar (que poderá ser ligeira, moderada ou severa).

Em situação de maior risco estão as famílias com um menor nível educacional, com idade inferior a 65 anos (e essencialmente entre os 30 e os 64 anos), em situação de desemprego, mais numerosas e com menor número de pessoas a contribuir com rendimento. “As inquiridas do sexo feminino também reportaram mais casos”, sublinha Maria João Gregório.

O risco que as crianças correm

Monica Truninger, socióloga no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenadora de um estudo publicado em 2015 sobre a pobreza e insegurança alimentar nas famílias com crianças em idade escolar, traça o perfil dos grupos em maior risco. “Verifica-se que é entre as famílias monoparentais, famílias com mais de três crianças (famílias numerosas), casais onde ambos ou um dos membros ficou desempregado, famílias com baixos níveis de escolaridade ou baixos rendimentos, sem uma rede de apoio forte ou cuja rede de apoio se quebrou entretanto” que há mais insegurança alimentar.

Pode também ser o caso de famílias que tiveram algum apoio que foi perdido. “Por exemplo, os pais que numa altura de aperto ajudaram os filhos adultos com crianças, mas que passado uns tempos começaram a ter dificuldades por causa de cortes nas pensões ou rendimentos”, exemplifica a socióloga. “Outra coisa relevante, e apesar de não termos esse indicador no estudo, é que as famílias de minorias étnicas/grupos de imigrantes também correm um maior risco de passar por este tipo de situações.”

Qual a razão fundamental? “A falta de dinheiro é o fator principal, sobretudo nos casos mais graves de insegurança alimentar. Isto é, quanto mais baixo o rendimento mais aumenta o risco das famílias com crianças passarem por situações de insegurança alimentar”, conclui.

E na situação de insegurança alimentar mais extrema, as falhas são várias. “Há não só fortes carências nutricionais e episódios de fome, como estas famílias sentem-se excluídas da participação nas atividades consideradas 'normais' na vida em sociedade”, explica Monica Truninger. “Ir às compras ao supermercado sem ter de contar os cêntimos e sem sentir angústia por não poder comprar o que considera apropriado para a sua família e de acordo com os seus gostos e preferências, não conseguir receber amigos e família para refeições em conjunto por não ter dinheiro para comprar comida, não conseguir ir a uma pastelaria e pedir um café porque não tem 50 cêntimos para dar.”

A socióloga sublinha ainda o papel “de ‘almofada de apoio’” que as instituições e as escolas têm prestado a estas famílias, “muitas vezes quando as redes de apoio da família e dos amigos já se quebraram ou são levadas à exaustão”.

Mas é preciso mais, na sua opinião. “É a relação entre Estado, mercado e sociedade civil que deve ser trazida para o debate, em vez de desviarmos o olhar para a sociedade civil apenas”, defende. “É neste triângulo de forças que devem ser encontradas as soluções para resolver o problema da pobreza e insegurança alimentar. Isto porque é nesta relação sinergética que se vão encontrar soluções mais duradouras e eficazes para este problema social.”

Monica Truninger conclui ser preciso pensar em políticas que “atravessem a indústria e o mercado alimentar”, para além de pensar o papel do Estado Social no apoios às famílias com poucos recursos e no papel da sociedade civil.