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Uma sela à medida

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Luís Sabino e a sela que desenhou no dorso do cavalo “Império Egípcio d’Inzeo”

ricardo nascimento

O cavaleiro Luís Sabino pegou em mais de 30 anos de experiência e criou a peça ideal para montar a cavalo. É um sucesso dentro e fora de portas

Luís Sabino nasceu em cima do cavalo, monta desde os 4 anos e a sensação de ser um só com o seu ginete é-lhe tão familiar como respirar. Cavaleiro profissional desde 1979, foi campeão de Portugal por três vezes — em 1998, 2008 e 2011 — e ganhou mais de 60 Grandes Prémios nacionais e mais de 30 Grandes Prémios internacionais em quase quatro décadas de carreira. Nos últimos dez anos deu por si a pensar a sério na importância da sela na competição equestre. Há dois anos, passou finalmente à ação e deslocou-se a uma fábrica em França, onde os artesãos fazem as selas à mão. Muitos cavaleiros conhecidos dão nome a determinadas selas, mas em competição recorrem a outras, que consideram melhores. Durante um ano, Luís montou com vários protótipos e testou uma dúzia de versões, sobretudo para melhorar o conforto do assento. “É importante, quando montamos o cavalo, sentirmos que estamos a meio do centro de gravidade, muito perto do animal, em close contact.” Desenhada pelo próprio, a sela Sabino Pro foi concebida como se fosse para o criador e, explica Luís Sabino, permite ao cavaleiro ficar “bem encaixado, seguro, com movimentos livres”.

A sela pode ser decisiva em competição. Cada cavalo tem um dorso específico, com costas mais ou menos largas, a pedir uma sela mais ou menos aberta. “O esqueleto do assento pode ser em ferro, madeira ou carbono. A base do meu tem duas almofadas atrás, planas e afastadas, para distribuir melhor o peso do cavaleiro sobre o dorso do cavalo”, explica Luís Sabino. “À frente, é bem aberta, para libertar o garrote, o ponto mais alto do animal (entre as duas espáduas).” A ergonomia também não foi descurada. Um cavalo e uma sela não podem ser peças separadas, explica, têm de se fundir numa só. “E se é certo que com um bom cavalo somos um bom cavaleiro, com uma boa sela, somos o conjunto perfeito.”

Feita à mão, em couro tratado sem químicos, a Sabino Pro foi colocada no mercado no ano passado. No primeiro ano, venderam-se 97 unidades — a maioria para Portugal, Brasil, Bélgica, França, Holanda, Emirados Árabes, Itália e Egito. A marca líder de mercado a nível mundial, a francesa Butet, vende cerca de 2000 por ano, valores de 2012. Este ano, o objetivo do cavaleiro português é atingir uma faturação de 750 mil euros (mais do dobro do ano passado). Em termos de preço, a sela do cavaleiro português está a meio caminho entre as peças de qualidade média e os produtos mais caros do mercado: custa €3350. Um valor que, aliado ao design limpo e elegante, tem ajudado as vendas, admite Luís Sabino. “A maioria dos clientes que compras as selas experimenta-as antes e a venda funciona muito por passa-palavra.”

A vida do cavaleiro português foi inteiramente dedicada à atividade equestre. Começou por competir no campeonato de Portugal, mas hoje já só participa no circuito internacional. Faz o Longines Global Champions Tour (a liga de elite do hipismo que conta com 16 competições pelo mundo, todas de 5 estrelas). Este ano há Jogos Olímpicos, mas Luís não participará porque não se conseguiu classificar nos três primeiros lugares dos cavaleiros individuais com a pontuação do último ano. A sua equipa atual conta com 12 cavalos, que saltam todos à altura de 1,70 m. Luís gosta de comprar ginetes em pontos médios do seu percurso, treiná-los, ganhar prémios com eles e vendê-los quando estão no auge. Adora montar a cavalo, mas as viagens constantes, à procura de novos equídeos para clientes, ocupam-lhe a maior parte do tempo. O seu principal negócio é a venda de cavalos. Além disto, faz uma média de 40 competições por ano.

Em casa, em Santarém, o irmão e a cunhada tomam conta das montadas, que exigem muitos cuidados. “Os cavalos de competição têm de sair para treinar três vezes por dia”, conta. Quando monta a cavalo, Luís abstrai-se do mundo. “Esqueço-me de tudo”, diz, com um sorriso. “Aprende-se todos os dias. Há cavalos que são ótimos alunos, cavalos teimosos, cavalos burros... E interpretar isso tudo é muito giro. O cavalo pede muita concentração, física e mental. Sente muito bem os estados de espírito do cavaleiro, se gostamos ou não deles. É preciso estar feliz para se ganhar uma competição.” Há quase seis anos que os fins de semana de Luís são passados em concursos equestres. Mas ele não se queixa. “Sou dono do meu tempo. E faço o que gosto.” b