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O prato está servido: streaming à europeia

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MARSEILLE. Dan Franck, Géraldine Pailhas e Florent Siri falaram sobre a série protagonizada por Gérard Depardieu

d.r.

O evento da Netflix em Paris reuniu mais de 300 jornalistas de todo o mundo e um grupo selecionado de 'social media influencers' (com Portugal representado pelos humoristas António Raminhos e Hugo Sousa). A marca que já opera em todo o mundo sublinha a importância de um serviço de streaming à escala global

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

em Paris

Jornalista

Reed Hastings, CEO da Netflix, trouxe os elencos das principais produções do serviço a Paris e guardou um espaço especial para as produções europeias: “Marseille”, “The Crown” e “Dark”. Há nomes fortes nos protagonistas das duas primeiras, como Gérard Depardieu, a interpretar um Presidente da Câmara na série passada no sul de França, e John Lithgow como Winston Churchill, na história da Rainha Isabel II, de Inglaterra. A aposta é alta, mas a Netflix está confiante. Sobre “Dark” pouco se sabe, mas os criadores já levantaram a ponta do véu.

A soalheira Marselha é ela própria uma personagem dentro da série e as dinâmicas do poder local francês são um dos temas centrais de uma série de que há muito se fala mas da qual pouco se sabia. Se a presença de Gérard Depardieu numa produção da Netflix parecia não passar de um rumor, acabou por verificar-se e o ator (agora russo) vai interpretar Robert Taro, um presidente da Câmara que terá de enfrentar o seu sucessor. O protagonista não esteve presente, mas a atriz que interpreta a sua mulher não lhe poupa elogios. “É uma personalidade fantástica”, conta Géraldine Pailhas, “e um profissional incrível”.

A construção da história partiu de Dan Franck, mas é Florent Siri quem transporta a ação para televisão. Não nos deixemos enganar. Apesar de uma “pretensão cinematográfica, esta é uma história muito real”, assegura Géraldine. Não que seja a realidade da cidade onde é gravada, mas assemelha-se a muitas das histórias do poder local em França e aborda grande parte dos problemas pelos quais as grandes cidades têm passado. “Há política, mas não é nenhum 'House of Cards'”, asseguram os responsáveis pela série, até porque vão além disso e falam de “dinâmicas familiares e de problemas sociais como a criminalidade ou a exclusão”. A 5 de maio tudo será revelado.

THE CROWN. Peter Morgan reconstrói a história de Isabel II com Claire Foy, Matt Smith e John Lithgow como protagonistas

THE CROWN. Peter Morgan reconstrói a história de Isabel II com Claire Foy, Matt Smith e John Lithgow como protagonistas

d.r.

A JÓIA DA COROA

Para ver “The Crown” será preciso um pouco mais, porque a primeira temporada da série sobre o reinado de Isabel II apenas estará disponível a 4 de novembro, mas o criador e os protagonistas já terminaram as gravações. Peter Morgan, que já havia sido responsável pelo filme “A Rainha”, conta que a produção centrar-se-á em grande parte nas “dinâmicas entre o poder eleito e o poder herdado” e que isso constituiu “um dos maiores desafios, uma vez que as audiências do primeiro-ministro à Rainha são confidenciais e não existe qualquer documento que as explique”. Para construir uma série de época — a primeira temporada de “The Crown” centra-se nos primeiros dez anos de reinado — foi necessário constituir uma equipa de investigadores que passassem tudo a pente fino, “até porque não há qualquer contacto direto com a Família Real”.

A informação sobre a série surge a conta-gotas (com muitos embargos a atrapalharem as informações divulgadas), mas no trailer apresentado em exclusivo na Cité du Cinéma parisiense é possível perceber as principais dinâmicas do início do reinado de Isabel II — desde a morte do pai às primeiras decisões enquanto soberana —, passando pela altura em que o seu marido, o Príncipe Filipe, tem de ajoelhar-se perante a Rainha.

“Dark” foi outra das novidades apresentadas e chegará apenas no próximo ano ao serviço de streaming. A primeira produção germânica da Netflix é da responsabilidade dos cineastas Baran Bo Dar e Jantje Friese, que até agora estavam habituados “à produção de curtas-metragens com equipas de cinco pessoas e que agora se aventuram em algo maior. Por enquanto, “a maior diferença é mesmo o trabalho”, explica o casal que está a criar “uma história suburbana com traços sobrenaturais”. Sobre a série a filmar em Espanha, anunciada na última semana, nem uma palavra. Já se sabe que a história vai passar-se na capital espanhola dos anos 1920 e que será protagonizada por quatro mulheres operadoras de PBX da única companhia telefónica da época, mas ainda não há elenco definido. Constituída por 16 episódios de 50 minutos e ainda sem título definido, a série deverá estrear também no próximo ano. Carlos Sedes será o showrunner e conta com Gema Neira como coautora. A produção-executiva foi entregue a Ramon Campos e Teresa Fernandez Valdes.

A SITCOM DO RANCHO Ashton Kutcher e Danny Masterson são os responsáveis por uma comédia que abre portas para futuras produções

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adrien lachapelle

HUMOR AFIADO (E ARMAS APONTADAS)

Parece que estamos prestes a entrar num tempo marcado por alguns regressos (pelo menos ao nível do género). Passaram vários anos desde que Ashton Kutcher se tornou conhecido mundialmente com “70’s Show” e a data é marcada pelo renascimento das sitcoms. “A aprendizagem desde essa primeira experiência foi enorme”, como explica o ator e produtor norte-americano. Agora chegou a vez de se aventurar com Danny Masterson, que conhece desde esse tempo já longínquo. “The Ranch”, sobre uma estrela decadente de futebol americano que regressa ao rancho da família, é uma aposta que parece segura. Aos 10 episódios já disponíveis serão acrescentados outros tantos nos próximos meses, numa das primeiras séries da Netflix em que as temporadas são divididas a meio. Fica a garantia de Kutcher em entrevista ao Expresso: “Queremos continuar com isto durante muitos anos e já estamos a pensar noutros projetos”.

ADRIEN LACHAPPELLE

Nem só de séries vive o humor e Ricky Gervais aposta no cinema. “Special Correspondants”, protagonizado, realizado e produzido pelo próprio, “é uma sátira ao jornalismo”, sem que seja propriamente uma crítica. “É mais sobre o que as pessoas estão dispostas a fazer para se tornarem famosas”, emenda o humorista perante um auditório repleto. Ao seu lado a construir uma história de farsa está Eric Bana, que é, nas palavras de Gervais, “um idiota”. A viver na Austrália, o também humorista explicou ao Expresso que “uma das vantagens de trabalhar com Gervais é a sua capacidade de criar sempre algo novo”. Sobre o futuro na Netflix, Bana explica que “apesar das várias propostas, anda à procura de algo que queira mesmo fazer”.

ORGULHO. O CEO da empresa é um entusiasta do serviço que criou de raiz e não poupa elogios à equipa

ORGULHO. O CEO da empresa é um entusiasta do serviço que criou de raiz e não poupa elogios à equipa

d.r.

Reed Hastings aproveitou o evento da Netflix em Paris — onde estiveram presentes mais de 300 jornalistas de todo o mundo e um grupo selecionado de 'social media influencers' (com Portugal representado pelos humoristas António Raminhos e Hugo Sousa) — para voltar à carga com a importância de um serviço de streaming à escala global. O CEO da Netflix compara a experiência à de um livro “que se compra e que depois pode ser lido como se quiser” e considera que essa experiência é o “binge-view original”. Numa altura em que a marca já opera em todo o mundo (com a exceção da China e da Síria), a aposta vai também para “novos codecs de vídeo que permitem um melhor sinal com uma largura de banda mais baixa”.

O responsável pela empresa, que conta já com mais de 75 milhões de utilizadores, garante também que vão “continuar a produzir em todo o mundo, com equipas de todo o mundo, para todo o mundo” e a dar visibilidade a produções locais em territórios onde até agora era impossível chegar. Para isso é importante a definição de “comunidades globais”, geridas “através de 15 algoritmos independentes”, como explica ao Expresso Carlos Gómez Uribe, vice-presidente para a Inovação. “Hoje é possível que um drama sul-coreano seja visto em Inglaterra ou que uma produção sul-americana seja vista do outro lado do mundo”, exemplifica Uribe.

PRISIONEIRAS. Kate Mulgrew é Galina 'Red' Reznikov em “Orange Is The New Black”

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d.r.

No Slate Event da Netflix, que terminou na tarde de ontem, houve ainda tempo para atualizar algumas das séries-estrela, com “Orange Is The New Black” a prometer “muitas mudanças” e a tornar-se “mais negra” na nova temporada (com estreia marcada para 17 de junho), como avança a atriz Kate Mulgrew. Kevin Spacey também esteve presente e falou sobre os desafios de uma série de ficção com traços que lembram em muito a realidade. “Às vezes vejo as notícias e fico a pensar que não fomos longe o suficiente”, conta o ator de “House of Cards” num momento do painel em que se falava das presidenciais norte-americanas.