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“Hei de morrer como português”. A missão suicida do comandante Carvalho Araújo

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A 12 de abril comemora-se a coragem dos que deram tudo o que tinham, até a própria vida, ao serviço do país. Neste Dia do Combatente recordamos a “missão suicida” do comandante Carvalho Araújo, que desconfiou de uma “perseguição política” na época de Sidónio País e acabou por morrer atingido por granadas alemãs, na reta final da Grande Guerra

D.R

A missão era difícil, para não dizer “suicida”, e foi naquela madrugada de 14 de outubro de 1918 que José Botelho de Carvalho Araújo acabou por perder a vida. Comandando o Augusto Castilho, um antigo arrastão de pesca promovido a navio-patrulha, Carvalho Araújo acabaria por morrer atingido por estilhaços das granadas lançadas pelo submarino alemão que o cercava.

A história é só uma, mas dá uma voz e uma cara às de tantos combatentes que morreram ao serviço de Portugal durante a Primeira Guerra Mundial, nesta terça-feira em que se comemora o Dia dos Combatentes e o 98º aniversário da batalha de La Lys. A cerimónia de homenagem oficial decorreu esta manhã em Oeiras na presença do presidente da Câmara Paulo Vistas e do presidente da Liga dos Combatentes de Oeiras, Isaías Teles; as histórias dos homenageados não caberiam nestas linhas.

Ana Guerreiro, bisneta de Carvalho Araújo, tem consciência de que esta memória histórica se pode perder e é por isso mesmo que a 18 de maio será constituída a Associação Comandante Araújo Carvalho, na qual será gestora de projetos. Ao Expresso, Ana Guerreiro conta a história do bisavô, ele que foi tudo desde militar da Marinha a jornalista, passando por deputado da Assembleia Constituinte e governador de em Inhambane entre 1916 e 1918.

Foi uma vida cheia que terminou com aquilo que a bisneta descreve como uma "missão suicida". Carvalho Araújo, "conhecido inimigo de Sidónio Pais", não deveria ter estado no lugar errado à hora errada naquela madrugada de outubro de 1918. "Quando lhe foi dada a ordem para comandar esta pequena embarcação, Carvalho Araújo ficou perplexo", relata Ana Guerreiro, que relembra que ele "jamais recusou uma missão. Nunca baixou os braços nem se rendeu".

O livro de memórias do comandante dá pistas sobre este desentendimento, uma vez que a nova ordem que lhe impunha o policiamento do mar da Madeira e a defesa desta ilha chegou poucos dias depois de estar de licença em terra, doente depois de uma missão em Moçambique. "Tenho já duas comissões de guerra para que voluntariamente me apresentei quando a minha situação política permitia esquivar-me, e havendo vários primeiros-tenentes que ainda não têm comissão alguma, não devia recair sobre mim o desempenho desta nova comissão. Os que deviam marchar valem-se dos empenhos para não irem, eu marchei quando podia deixar de o fazer", escreveu o comandante.

"Só doidos se lembram de mandar um navio mal artilhado para regiões onde os submarinos actuam, obrigado a fazer viagens numa época de lua cheia, o que está completamente condenado. Fica pois estabelecido que vou fazer uma comissão perigosa que a outros pertencia e que a minha nomeação só poderia ter obedecido a perseguição política. Que sobre os autores de tal patifaria caiam todas as responsabilidades do que possa suceder.”

Este parágrafo, transcrito a partir das memórias de Carvalho Araújo, deixa perceber as dúvidas do comandante sobre a sua situação e a missão que se viu obrigado a cumprir e que lhe tiraria a vida. No livro de anotações que deixou ao irmão Fernando antes de partir, o comandante escrevia: "É absolutamente certo que lá pelos mares, para onde vou, deixarei a vida. Quando a notícia da minha morte chegar ao teu conhecimento, publica-o". O documento acabou por ser editado pelo jornal "O Século".

A mulher de Carvalho Araújo, Ester Abreu, também se sentia inquieta com a missão encomendada ao marido. "Meu marido foi sempre um perseguido, devido aos seus ideais democráticos; protelado em promoções, desfeiteado constantemente, sem quase direito a folgas, que, quando as tinha, eram alteradas para seguir imediatamente em serviço, sem ter tempo sequer de vir a casa mudar de roupa ou beijar os filhos", cita a bisneta.

Dessa vez, a última que partiu, o comandante - a quem foi a nível póstumo conferido o 2º Grau da Torre e Espada e o posto de capitão-tenente - demonstrava "vontade de encarar o perigo de frente", dizia a viúva.

A morte que ambos anteciparam acabou por acontecer um dia depois de o Augusto Castilho ter partido da Madeira, seguindo à frente do paquete San Miguel, que transportava 206 passageiros para Ponta Delgada. Eram 6h da manhã quando "soou o primeiro tiro do submarino alemão U-139", "um dos três temíveis cruzadores-submarinos que os alemães possuíam, uma arma mortífera e poderosa".

Foram mais de duas horas de confronto em que Carvalho Araújo conseguiu que o paquete San Miguel "escapasse das garras do inimigo", explica a bisneta. Mas o militar não teve a mesma sorte e acabou por perder a vida, não sem antes mandar içar a bandeira nacional. "Hei de morrer como português!", terá gritado Carvalho Araújo antes de ser atingido pelos estilhaços de granada que lhe tiraram a vida.