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A arquitetura portuguesa como nunca a viram os franceses... nem os portugueses

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Nuno Portas, Alexandre Alves Costa e Siza Vieira durante a pré-inauguração da exposição "Os Universalistas – 50 anos de arquitetura portuguesa", em Paris

Change is good

Paris recebe a partir desta quarta-feira uma mostra única do trabalho inovador desenvolvido pelos arquitetos portugueses ao longo do último meio século

Quem julga já saber ou ter visto tudo sobre a arquitetura portuguesa, vai ter de rever conceitos e admitir a possibilidade de ficar surpreendido com esta exposição. Ali se revelam percursos inesperados e autores improváveis de obras marcadas pela urgência de perceber uma insuspeitada dimensão conquistada por profissionais demasiado tempo deixados na sombra.

Primeiro a componente estética. “Os universalistas – 50 anos de arquitetura portuguesa”, comissariada pelo professor e crítico Nuno Grande, exposição que abre esta quarta-feira ao público na Cité de l’Architecture et du Patrimoine, na capital francesa, impõe-se como um manifesto sobre a arte de bem apresentar algo à partida tão árido e de difícil leitura para os não iniciados como o podem ser plantas, esquissos, maquetes, desenhos técnicos ou esboços.

Ao ser tudo isso, a mostra está muito para lá desse pequeno e por vezes redutor mundo das especificidades da arquitetura. Desde logo por ousar construir um discurso muito inspirado num conjunto de pensamentos de Eduardo Lourenço e, depois, pelo modo inventivo como consegue mostrar os materiais próprios da arquitetura em confronto ou em diálogo com os pequenos e grandes momentos políticos e sociais, ocorridos em Portugal nos últimos cinquenta anos.

Consegue-o através de uma conceção multimédia distribuída pelas imaginárias paredes construídas por um corredor definidor de um percurso cronológico. De um lado, tudo quanto possa explicar as obras e os arquitetos selecionados. Do outro, as fotografias de Alfredo Cunha sobre um Portugal em vários tempos, em vários estados de alma, em diferentes condições de relacionamento consigo próprio.

Projetadas em contínuo ao longo de todo o espaço expositivo, são acompanhadas dos memoráveis desenhos de João Abel Manta, retratos implacáveis de um Portugal salazarento, e das reflexões de Eduardo Lourenço sobre uma certa forma de ser português.

Em simultâneo, são projetadas entrevistas com críticos de arquitetura portugueses, como Ana Tostões, Ana Vaz Milheiro, José António Bandeirinha, Jorge Figueira e Ricardo Carvalho, bem como quatro críticos franceses: Jean-Louis Cohen, Jacques Lucan, Dominique Machabert e Francis Rombert.

O primeiro contacto visual para quem entra no salão é proporcionado pelos materiais referentes à construção da sede da Fundação Calouste Gulbenkian, cujos 50 anos de presença em Paris constituem o fundamento explicativo da organização desta mostra. É, ainda hoje, um notável programa situado muito para lá dos limites da arquitetura, assinado por Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy d’ Athouguia, com a colaboração dos arquitetos paisagistas António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Telles.

O contacto com esta, como com todas as restantes obras, é dividido em quatro momentos, num percurso descendente que inclui fotos, desenhos, plantas, pequenos textos explicativos e, por fim, as maquetes, na esmagadora maioria dos casos construídas de propósito para esta mostra por alunos de arquitetura.

Logo a seguir está o Hotel do Mar, em Sesimbra, de Francisco Conceição Silva. Insere-se no primeiro de um dos cinco momentos da exposição definidos por Nuno Grandes. É o tempo de “Universalismo versus (in)ternacionalismo 1960-1974” e inclui obras como o Convento da Franciscanas de Calais, em Gondomar, a Piscina das Marés, de Álvaro Siza, em Leça da Palmeira, em Matosinhos, o Complexo desportivo do estádio Al-Shaab, em Bagdad, no Iraque, de Francisco Keil do Amaral e Carlos Manuel Ramos, ou ainda a igreja do “Sagrado Coração de Jesus”, de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, em Lisboa e a Embaixada de Portugal em Brasília, de Raúl Chorāo Ramalho.

Arquitetura que rasga fronteiras

Se aqui já surgem algumas surpresas, até para perceber como há um longo percurso da arquitetura portuguesa no rompimento de fronteiras e na recusa a acondicionar-se a uma visão restritiva do mundo que não deixava de representar, o momento seguinte é porventura dos que de um modo mais radical suscita a perplexidade, à mistura com o confronto com realidades desconhecidas. Até pelos arquitetos. “Universalismo versus colonialismo 1961-1975” é, como nos dizia Gonçalo Byrne, uma quase revelação de uma arquitetura outra concebida nas ex-colónias por homens que assumiam uma linguagem através da qual, refere Nuno Grande, se manifesta uma visão universalista onde se misturam múltiplos conceitos apoiados num inusitado cosmopolitismo.

E surgem, então, obras espantosas, como a igreja da “Sagrada Família”, de Amâncio (Pancho) Guedes, em Machava, Moçambique, a estação ferroviária da Beira, de João Garizo do Carmo, Francisco José de Castro e Paulo Melo Sampaio, em Moçambique, ou o liceu do Lobito, de Francisco Castro Rodrigues, em Angola.

O bloco africano é porventura o que suscita a maior das perplexidades. Desde logo por revelar um conjunto de trabalhos no essencial mantidos na sombra do esquecimento. Depois por confirmar que também na arquitetura, como noutras vertentes culturais, foi possível aos arquitetos desenvolver nas então chamadas províncias ultramarinas uma liberdade de conceitos, um arrojo estético em obra pública e privada inimaginável no território continental do Portugal sombrio condicionado pelo atavismo da ditadura.

Os três restantes períodos da mostra vão desde a Revolução de Abril de 1974, com todas as consequências e contradições vividas na sociedade portuguesa e espelhadas numa arquitetura que tem – embora não se esgote aí – o processo SAAL como exemplo paradigmático, passa pelo período pós adesão à Comunidade Europeia e conclui com o tempo da globalização, estabelecido a partir de 2001 até a atualidade.

É um caminho longo que nos desafia a redefinir muitos conceitos sobre os limites, as fronteiras da arquitetura portuguesa contemporânea. Percebe-se aí como as escolhas, acondicionadas num limite numérico correspondente aos 50 anos da Fundação, estão longe de esgotar os multifacetados discursos arquitetónicos construídos em Portugal nas últimas décadas.

Estão lá os nomes óbvios, como Fernando Távora, Pancho Guedes, Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Álvaro Siza, Alcino Soutinho, Gonçalo Byrne, Eduardo Souto Moura, João Luís Carrilho da Graça, Manuel Graça Dias, mas também os nomes que se impuseram nas últimas décadas, como os irmãos Manuel e Francisco Aires Mateus, Paula Santos, ARX Portugal, Joāo Meneses Ribeiro, Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos.

A escolha termina na geração dos anos de 1960. Daí resultam duas evidências. Uma é a escassa representação de mulheres, numa inevitável tradução do que foi ao longo de décadas a ausência de uma significativa representação feminina numa atividade como a arquitetura. É algo que está a mudar, como o poderá demonstrar em poucos anos uma nova exposição que alargue o seu leque às novíssimas gerações de arquitetos portugueses, marcadas, como nos dizia Eduardo Souto de Moura, pela presença de vários jovens profissionais de elevada qualidade, “mas sem hipótese de mostrar ou desenvolver o seu trabalho no seu próprio país”.

Quem não tiver a oportunidade de ir a Paris nos próximos meses e queira ter a oportunidade de ter este outro olhar sobre a arquitetura portuguesa do último meio século, não tem que desesperar. No final do ano, a mostra será apresentada em Matosinhos.