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Paris e o “coup de foudre” pela arquitetura portuguesa

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Casa das Histórias Paula Rego

Nuno Botelho

Em França debate-se a arquitetura portuguesa contemporânea a anteceder a abertura de uma grande exposição dedicada a 50 arquitetos

Afinal há ou não alguma especificidade na arquitetura portuguesa? Ou tudo não passa de uma ideia romântica com pouca adesão à realidade? E o desenho é ou não uma marca distintiva do modo de fazer arquitetura em Portugal? A participação, o tema da habitação social e o direito à cidade foram características exclusivas do processo SAAL ou há agora, com a crise social na Europa, um renascimento de propostas capazes de marcarem a existência de uma arquitetura diferente? As questões aqui suscitadas ganharam uma nova centralidade durante os debates promovidos esta segunda-feira pela Fundação Calouste Gulbenkian em Paris no âmbito das atividades paralelas à exposição “os universalistas - 50 anos de arquitetura portuguesa”, com inauguração marcada para a próxima terça-feira na Cité de l’Architecture et du Patrimoine.

Álvaro Siza Vieira, Alexandre Alves Costa, Eduardo Souto Moura, Gonçalo Byrne, João Luís Carrilho da Graça, Manuel Aires Mateus, são alguns dos arquitetos convidados para um conjunto de debates com críticos e arquitetos portugueses e franceses a anteceder a abertura da mostra comissariada por Nuno Grande, professor e crítico de arquitetura.

Os debates decorreram numa sala mítica para alguns dos arquitetos portugueses presentes, por se tratar do auditório para onde fizeram verdadeiras peregrinações durante os longos anos em que ali funcionou a cinemateca francesa. Era o espaço por excelência para a exibição de filmes que seria impensável ver em Portugal durante os anos do fascismo. Até por isso se justificava a viagem a Paris. Podiam fechar-se dias inteiros naquela sala a ver cinema. Também ali decorreu outro evento marcante para a cultura portuguesa, quando três atrizes procederam à leitura pública das proibidíssimas em Portugal “Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreto.

Ao longo da manhã, as questões suscitadas pelo processo SAAL e o modo como as mudanças sociais na Europa tornam de novo premente a discussão da habitação para os emigrantes ou para os mais pobres, ocuparam grande parte de uma discussão cujo tema partia do que possam ter sido as aquisições decorrentes da Revolução do 25 de abril de 1974 neste campo específico. Isso mesmo foi sublinhado por Álvaro Siza ao constatar como, após um período de menor interesse pela habitação social, “recentemente renasceu esse interesse, forçado pelas condições sociais. Há de novo a perceção de que é necessário atacar esse problema”.

O processo SAAL e as implicações decorrentes de um processo cuja duração até foi curta no tempo continua a suscitar a maior das curiosidades e interesse a nível internacional, por, de alguma forma, ter dado um contributo essencial para a descoberta da arquitetura feita em Portugal. Não deixa, por isso, de ser desconcertante ouvir Álvaro Siza, depois de questionado por um dos moderadores sobre se entrara no processo por te uma militância anterior e estar particularmente envolvido nas questões sociais, dizer que a razão é bem mais simples:”fui convidado pelos alunos (das Belas Artes, onde funcionava então o curso de arquitetura) e não tinha que fazer”.

Antes, já Alexandre Alves Costa fizera todo o enquadramento do surgimento, evolução e destruição do SAAL. O diálogo criativo de Siza no bairro de S. Vítor, ou o objetivo, afinal (ir)realista, de transformação da cidade, assumiram-se como pontos centrais de uma intervenção que, sem deixar de assinalar algumas das contradições de um movimento desencadeado em pleno fervor revolucionário, com uma imensidão de forças contrárias à radical mudança de conceitos ali contida, não pretendia esgotar-se na ideia de inovar. Porventura era antes uma forma de assinalar um novo começo.

Como seria de esperar, parte substancial das intervenções acabava por se centrar no papel de Álvaro Siza, um homem que, como sublinhava o também arquiteto Laurent Beaudouin, nāo se caracterizava “por um período, é uma atitude permanente”, com a sua atenção “aos problemas muito concretos dos pobres. É um trabalho sincero, comprometido com o papel do arquiteto na renovação da habitação para os pobres”.

Daí a atualidade das propostas de Siza quando vemos hoje a situação social na Grécia, Espanha, Portugal e mesmo França. Para Beaudouin, “a questão da participação dos moradores permanece importante” e pergunta-se se os arquitetos ainda estarão interessados nesta temática”.

De novo com humor, Siza acaba mais tarde por voltar ao tema da participação para sublinhar a sua importância, no tempo do SAAL como em muitas outras circunstâncias. O problema, referiu, é ter passado “anos a tentar livrar-me da ideia de que era um especialista em participação. É uma ideia monstruosa”.

Numa sessão aberta por Guy Amsellem, presidente da Cité de l’Architeture et du Patrimoine, Nuno Grande fez a apresentação dos conceitos globais inerentes à filosofia de uma exposição que obedece a escolhas condicionadas pela circunstância de ser necessário fazer coincidir o número de arquitetos com o número de anos de presença da Gulbenkian em Paris.

Artur Santos Silva, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, disse considerar que a arquitetura é o que de melhor existe em Portugal contemporâneo. “Não há no nosso país outra profissão que tenha tão relevante prestígio internacional, sobretudo com obras realizadas no estrangeiro, em regra no quadro de concursos internacionais abertos e plenamente competitivo

Com 50 arquitetos representados, tantos quantos os anos da Fundação em Paris, as grandes referências são, inevitavelmente, Fernando Távora, no Porto, e Nuno Teotónio Pereira em Lisboa, os mestres da arquitetura e da cidadania das gerações que lhes seguiram.

Realçou ainda a importância dos arquitetos na segunda metade do século XX, com um papel de vanguarda nas causas sociais. É um posicionamento que advém das próprias características da profissão, que permitem entender melhor as complexidades sociais. “As prescientes obras de habitação social são, neste sentido, particularmente paradigmáticas desta capacidade de apreender as desigualdades, desde logo no acesso ao bem básico essencial que é a habitação”, defendeu.

Na opinião do presidente da Gulbenkian, “muita da nossa felicidade está dependente dos espaços onde habitamos, trabalhamos e fruímos. E mesmo quando viajamos é sempre a cidade e os seus diferentes elementos que procuramos. A boa arquitetura contribui assim para nos devolver a nossa humanidade, como um manto que nos acolhe e nos conforta contra os aspetos mais brutais da nossa existência”.

A terminar, uma confissão. Tal como nunca imaginara vir a presidir à Fundação Calouste Gulbenkian, também o futuro pode vir a proporcionar a Artur Santos Silva a possibilidade de “concretizar o sonho” de se formar em arquitetura, apesar de nunca ter obtido uma nota positiva a desenho.

O debate prossegue a esta hora e torna-se cada vez mais evidente uma espécie de “coup de foudre”, isto é, um entusiasmo quase apaixonado de muitos dos franceses que começam agora a descobrir a verdadeira dimensão da produção arquitetónica portuguesa. Mesmo se, como o assinalou o crítico Jorge Figueira e dessacralizou Souto Moura, por vezes torna-se necessário combater uma ideia excessivamente romântica e idealizada do que possa ser na verdade a arquitetura portuguesa.