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Eles são inteligentes, elas esforçam-se muito mas não chega. Diz Catherine

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José Carlos Carvalho

Sim, elas são poucas nos cargos de topo. Sim, elas ganham menos do que eles pelo mesmo tipo de trabalho. Mas porque é que isso não muda? Porque elas são esforçadinhas, mas eles é que têm talento - foi o que Catherine Verniers ouviu dos jovens, ela que esteve no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa a apresentar a sua investigação. O Expresso falou com ela

Na última década tornou-se banal dizer que as raparigas têm mais sucesso escolar do que os rapazes na maior parte do países ocidentais. E que elas são maioria nas salas de aulta, tirando as notas mais altas. Também não há novidade nenhuma em constatar que, quando chegam ao mercado de trabalho, as mulheres continuam a receber salários inferiores aos dos homens no desempenho de idênticas funções. Mas como explicar este paradoxo: se elas são melhores alunas, porque têm um desempenho profissional menos entusiasmante?

Esta foi a missão assumida por Catherine Verniers, investigadora do Laboratório de Psicologia Social e Cognitiva da Universidade de Blaise Pascal, na cidade francesa de Clermont-Ferrand. Ela quis saber como podem os estereótipos de género no ambiente escolar justificar o desempenho profissional menos conseguido das mulheres?

Depois de perceber que, apesar do constante e contínuo aperfeiçoamento académico feminino, as mulheres continuavam a ser minoritárias quando em causa estava a ocupação dos melhores cargos nas empresas, Verniers voltou ao ponto de partida para tentar encontrar uma resposta sobre a causa da contradição. Voltou às salas de aula.

Ouviu quase dois mil alunos e alunas franceses em escolas secundárias e percebeu que as diferenças de género começam a surgir muito cedo. É já no ambiente escolar, entre rapazes e raparigas, que a distinção começa a evidenciar-se: quando elas têm bons resultados académicos, é porque são alunas esforçadas, mas eles são naturalmente inteligentes.

Pior, é que elas têm uma inteligência menos flexível do que a deles. E quanto mais elas se esforçam por obter bons resultados, menor potencial de sucesso profissional no futuro é-lhes apontado. Uma relação que não foi estabelecida na investigação para os rapazes. O problema é que nenhum estudo científico parece comprovar na prática o que os jovens revelam sentir no ambiente escolar.

Marcos Borga

Cumpridoras e talentosos

Alguns comportamentos destacaram-se das respostas dos inquiridos como essenciais para alcançar o sucesso escolar: sentido de cumprimento do dever, assertividade, e capacidade de trabalho/inteligência. E elas foram vistas como mais cumpridoras e aplicadas, eles como mais firmes na defesa das suas posições.

O estudo abrangeu um universo de 1954 estudantes, dos quais 1115 raparigas e 839 rapazes , dos sétimo, nono, décimo e décimo segundo anos das escolas francesas. E os participantes tiveram de avaliar e dar nota às qualidades de cada um como estudantes mais valorizadas pelos estabelecimentos de ensino.

Em resposta ao Expresso, Catherine Verniers explicou que, de acordo com o estudo, é desde os 12 anos que este tipo de observações começa a ser relatado pelos jovens franceses. O que poderá indicar, sublinha a investigadora, que esta perceção poderá surgir em idades ainda mais precoces.

E quando os inquiridos dizem que elas têm sucesso escolar porque são cumpridoras, as respostas vão ainda mais longe, afirmando que elas não colocam em causa as regras dos estabelecimentos de ensino, são mais “educadas e cuidadosas”. Eles, quando têm sucesso, é porque apresentam características de “liderança, são dominadores e têm capacidade de decidir”.

nuno fox

“De acordo com a investigação, parecem coexistir duas conceções de inteligência: aquela que é inata e flexível e pode ser desenvolvida e aquela que resulta de uma habilidade limitada, evidenciando falta de talento e um reduzido capital de progresso futuro”, explica Catherine Verniers.

A professora diz ainda que as consequências destes estereótipos no processo de socialização, são as de levar as raparigas a pensar, desde muito cedo, que estão mais orientadas para as Humanidades, enquanto os rapazes estão vocacionados para as Ciências e as Matemáticas, podendo, por isso, afetar a confiança feminina na sua habilidade de poder vir a ter sucesso nestas áreas.

Então, como mudar a situação? “Este é o desafio”, responde Verniers. E, para esta investigadora, a saída é encontrar modelos femininos de sucesso. Alguém capaz de ter sucesso, mas que não corresponda aos estereótipos masculinos. Ou seja, uma mulher que não deixe de apresentar as suas características naturais para vencer em áreas onde as mulheres ainda são minoritárias. E alguém que também não esteja demasiado distante das estudantes: “Uma aluna mais velha é mais eficiente neste papel do que uma mulher que tenha conquistado o Prémio Nobel”.

A conferência onde Catherine Verniers apresentou a investigação decorreu esta segunda-feira ao início da tarde e fez parte da semana “Falar de Género”, iniciativa do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

Esta terça-feira, o debate será liderado pela investigadora portuguesa Maria do Mar Pereira. A socióloga na Universidade de Warwick vai refletir sobre como o sistema universitário nacional “aceita, rejeita, contesta, ignora ou incentiva os estudos de género”. E, no fim do seminário, o objetivo é reunir todas as investigadoras e investigadores do ICS dedicados a trabalhar das questões de género, para tentar construir “uma plataforma transdisciplinar” sobre o tema.

O último dia será ocupado por Ana Matos Fernandes, conhecida como a rapper Capicua, que se assume publicamente como feminista e irá responder às perguntas dos investigadores e da audiência e ler as letras das suas músicas, assumidamente defensoras da causa de direitos iguais para as mulheres.

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