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Uma história de amor

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rosa de porcelana editora

O belíssimo álbum “Cartas de Amílcar Cabral a Maria Helena. A Outra Face do Homem” revela dimensões menos conhecidas do principal líder dos movimentos de libertação das colónias portuguesas de África

Cabo-verdiano de sangue, mas nascido em solo guineense, Amílcar Cabral é considerado o pai da independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Figura cimeira da África lusófona e da sua luta pela emancipação, viveu entre 1946 e 1952 em Lisboa, onde estudou, trabalhou e casou. Até 1960 continuou a vir regularmente à capital do império, mas destes anos decisivos, e particularmente da sua vida privada, pouco se sabia — além de uma entrevista à revista “História” dada pela primeira mulher, a portuguesa Maria Helena Rodrigues. Agora, a editora Rosa de Porcelana lançou um magnífico álbum com as cartas mais significativas do jovem Amílcar para a mulher amada, que vão obrigar a reescrever este período decisivo da biografia de Cabral — a quem o investigador francês Gérard Chaliand chamou “a mais bela figura revolucionária, juntamente com Nelson Mandela, produzida pela África”.

Nascido em Bafatá, no interior da Guiné, em 1924, mas filho de pais cabo-verdianos, Cabral fizera o liceu no Mindelo, na ilha de São Vicente. Bolseiro, chegara a Lisboa em 1946, logo a seguir ao fim da Segunda Guerra Mundial, para estudar no Instituto Superior de Agronomia. Tinha 22 anos e enamorou-se rapidamente de uma colega, Maria Helena de Ataíde Vilhena Rodrigues, de 19, nascida na também longínqua Chaves e que viria a ser uma das primeiras mulheres agrónomas em Portugal.

Incursão pela poesia

A primeira carta, de 7 de outubro de 1946, é dirigida a “Maria Helena”, a quem ainda trata, de forma distante, por “você” e “colega”. “Tenho por norma teimar na realização dos meus desejos”, avisa. A que acrescenta na segunda carta: “A hesitação é estado psicológico que raras vezes experimento.” Mais tarde, expõe alguns traços da sua personalidade: “Não gosto nada de indecisão” e “não tenho o defeito de ser excessivamente modesto”.

É no final de 1946 que dirige à colega amada um primeiro poema. “Sabes o que é saudade?/ Espera: vou-te dizer./ Saudade é tudo que fica/ Depois de tudo morrer”, assim começa o seu “Mote para Maria Helena V. Rodrigues”. Segue-se, em 1948, “O Soneto do Nosso Amor” (ver pág. 53), escrito “sem métrica”, o que justifica pela sua preferência pela “‘corrente moderna’, onde há liberdade de movimentos”. Volta à poesia em 1950, com a “2ª Canção de Amor”, cujo manuscrito serve de contracapa ao luxuoso álbum: “A fronte erguida, Amor — Mulher, a fronte erguida,/ que o céu tem mil ladrões roubando a luz solar!/ E a luz é Vida, Amor — Mulher, a luz é Vida/ que tem de ser comum p’ra que o Homem possa amar!”

Namoro. Amílcar Cabral, algures em Lisboa, com a colega, namorada e futura mulher, Maria Helena Rodrigues

Namoro. Amílcar Cabral, algures em Lisboa, com a colega, namorada e futura mulher, Maria Helena Rodrigues

1948 já é ano de namoro a sério. De sedução. De arrebatamento. “Amanhã escreverei [...] Lembras-te, querida, que prometemos escrever todos os dias?” Nesse ano, de grande produção, escreve a Lena pelo menos 32 cartas. Sobretudo no verão, quando ela está de férias em Chaves, com a mãe, Carlota, viúva de um capitão-médico que perdera as duas pernas. Só em agosto escreve 15, seguindo-se oito em setembro. É de agosto o referido soneto, seguido de uma carta de amor toda em francês: “Oui, mon amour, je veux parler français avec toi.”

Pelas cartas é possível reconstituir o dia a dia de Cabral em Lisboa no final dos anos 40. O café preferido é o Palladium, no extremo sul da Avenida da Liberdade, em cuja esplanada, ao fim da tarde, escreve muitas das suas missivas. Faz regularmente a sesta, frequenta o cinema Ginásio e, como bom crioulo, gosta de dançar nos bailes de estudantes. Quando duas “raparigas metropolitanas” se sentam a seu lado no café, não resiste a comentar, na carta que está a ultimar: são “razoáveis”. No final, adenda um post scriptum: “Encontrei há bocadinho, ali, junto ao elevador da Glória 2 colegas (duas) de trabalho que, entusiasticamente, me convidaram para ir com elas ao Tivoli, hoje à noite. Acreditas, querida, acreditas que declinei o convite? Pois acredita que é verdade. Eu... desconheço-me.”

Durante uma temporada, é empregado de escritório numa Caixa de Previdência, em cujo boletim, com o título “Metalúrgico”, colabora. É leitor do “Sol”, “o meu semanário predileto” e “o meu tónico dos sábados”. Na casa de Lena em Chaves não há telefone, pelo que, para contacto urgente, recorre ao telegrama. Na ausência da namorada, deixa crescer o bigode e vai a um estúdio tirar uma fotografia, que lhe envia num envelope. Bom observador, descreve a moderna Avenida Casal Ribeiro, que contrasta com os bairros pobres de Alcântara: “O Casal Ventoso, a Fonte Santa e todas as demais imundícies que a injustiça social criou e alimenta.”

Frequenta a Casa dos Estudantes do Império (CEI), com colegas de outras escolas e colónias que virão a fundar e liderar os movimentos de libertação da África portuguesa: o PAIGC (da Guiné e Cabo Verde), o MPLA (de Angola), a Frelimo (de Moçambique), o MLSTP (de São Tomé e Príncipe). Chega a partilhar o quarto com Marcelino dos Santos, mais tarde o número dois da Frelimo. Começa por ser da direção da secção de Cabo Verde, mas cedo passa a integrar a direção geral da CEI. Participa nas assembleias gerais, que se prolongam noite fora. Relata: “Consegui comover a Assembleia (peneiras!) e, francamente, fiquei com a impressão de que, apesar de ter falado como estudante de Agronomia, eu devia ter estudado Direito.”

Amante de futebol, joga nas equipas de Agronomia e da CEI. Numa ida a Coimbra (cujo ambiente estudantil o deslumbra), defronta “as reservas da Académica”, a quem ajuda a derrotar por 7-0. Ufana-se: “O teu Amílcar parece que agradou aos espectadores, que se não pouparam a gritos e aplausos. Meti um ‘goal’, jogando a ponta esquerda.” No estádio da Tapadinha, em Alcântara, vê o Benfica, seu clube “predileto”, vencer o Atlético. E vai ao Jamor torcer por Portugal contra a Espanha, a 9 de abril de 1950.

“Diz-lhe que eu sou antropófago e canibal...”

Dos raríssimos estudantes negros de Agronomia, são frequentes os impropérios de conteúdo racista que escuta em Alcântara, ao verem-no na companhia de uma rapariga branca. Teoriza longamente sobre os preconceitos raciais e os mitos em torno da superioridade dos brancos. Com uma ponta de ciúme, diverte-se com quem galanteia e assedia a namorada: “Diz-lhe que eu sou antropófago, canibal, e que os canibais, ao contrário dos caracóis, gostam de... (bem, bem) Vou mandar-te uma foto com cara de mau e, adeus ele, se te perseguir!”

Pelos jornais, segue os Jogos Olímpicos de Londres de 1948. “Veem-se os negros triunfar [...] conquistando os mais vibrantes aplausos, cobrindo-se de glórias.” A seu ver, “a obtenção de vitórias não implica uma superioridade mas unicamente uma melhor preparação atlética, sem desvirtuar as suas características fraternais”. Orgulha-se dos feitos de negros norte-americanos como Joe Louis, “o maior ‘boxeur’ de todos os tempos”, e Katherine Dunham, “uma das maiores bailarinas do nosso tempo”. Indigna-se quando ambos são impedidos de entrar num hotel no Brasil.

Neste contexto, elogia a Constituição portuguesa de 1933, um “dos mais belos documentos da igualdade dos homens” — cuja prática, porém, é diametralmente oposta, com o negro a ser “afastado do exército, da marinha, da magistratura, etc.”. Ou seja, um documento para “deitar poeira nos olhos”.

Com preocupação acompanha as eleições na África do Sul, que dão a vitória ao partido de Daniel Malan, que virá a institucionalizar a segregação racial — mais tarde batizada de apartheid. Saúda a luta empreendida naquele país por um advogado indiano de nome Gandhi — estava-se ainda em 1948... “Venceu, venceu porque deu consciência aos seus irmãos e fê-los ver que, como homens, eram elementos essenciais na vida do país em que se encontravam.”

Brinca com os compatriotas ilhéus. Com a sua “inteligência”, com o seu “sentimentalíssimo amor”, com as mornas, com “uma certa cabo-verdianidade (o termo é extenso e nós é que o inventámos)”. Envia a Lena uma foto dos tempos de liceu, juntando alunos e professores: “Há tantos miúdos pretos, mulatos, morenos, brancos (de todas as cores). É uma imagem fiel do que é Cabo Verde. Lá não se sabe o que é ‘ser desta ou daquela cor’. Lá o que interessa é o homem em si.”

 Da cidade dos estudantes escreveu em 1948 à namorada contando como jogara a “ponta esquerda” e marcara um “goal” contra a Académica. À direita, com um grupo de dirigentes da Casa dos Estudantes do Império num jardim de Lisboa (sentado ao centro)

Da cidade dos estudantes escreveu em 1948 à namorada contando como jogara a “ponta esquerda” e marcara um “goal” contra a Académica. À direita, com um grupo de dirigentes da Casa dos Estudantes do Império num jardim de Lisboa (sentado ao centro)

Uma das frases mais surpreendentes é ao descrever as relações entre Cabo Verde e Portugal. É a propósito do já referido Portugal-Espanha em futebol: “A propósito de ‘os Portugueses’: afinal de contas, nunca me supus tão português. O desafio de ontem provou-mo. Se bem que desconfio que talvez tivesse sido espírito ‘clubista’. Em todo o caso, se o meu vibrar foi de português, justifica-se: o cabo-verdiano é na realidade, e até onde se pode ser, obra portuguesa, português, portanto. Estás contente? Ah, o teu patriotismo doentio!”

A Guiné, terra natal, a que regressa em 1952 e que percorre no âmbito do recenseamento agrícola, deixa-o encantado. “A Guiné, flor, [...] é das terras mais belas que tenho visto.” “A natureza, aqui, apesar de tudo quanto opiniões metafísicas podem apontar, convida ao trabalho e à conquista no sentido da ‘vivificação da vida’. Se alguma certeza eu tenho — oh, se tenho certezas! — é a de que gostarás disto. Da terra e dos povos, das coisas e das gentes.” É na Guiné que trabalha (e conspira) na década de 50. É lá que nasce a primeira filha, a historiadora Iva Maria, que colaborou na organização do álbum.

Luanda: “racismo do mais sujo”

Diametralmente diferente de Cabo Verde e da Guiné é a opinião sobre Luanda. “Não: não gosto”, exclama na sua primeira epístola angolana, de 1955. Explica porquê: “Pois é, Lena: isto de Luanda, que estou a conhecer [...] é das coisas mais miseráveis que imaginar se pode em matéria de ambiente colonial. Há muitos prédios em construção, é certo, mas que valem os prédios se os homens ‘vivem’ deploravelmente? Além disso, como cidade, coitadinha de Luanda aos olhos de Dakar, por exemplo. E coitadinhos dos indígenas destas paragens aos olhos da gente da Guiné, sim, da Guiné dita portuguesa. Uma miséria, Lena. Só para pensares, fica sabendo que, aqui, os choferes de táxi, os criados de hotel, restaurantes e cafés, etc., a raia miúda da sociedade é constituída por europeus. Calcularás por certo quais as posições e as situações que restam (mas o que poderá restar?) para os africanos? Miséria de todos os tamanhos. Para brancos e pretos. Racismo do mais sujo, com sorriso nos lábios, só para os pretos. Enjoado, Lena. Mas a esperança e a certeza de que, afora de tudo, o mundo marcha. Há de caminhar para a redenção na terra destes seres que por aqui vegetam e que são homens de coração e de cabeça.”

No mesmo ano escreve da Catumbela, no planalto angolano, onde descobrira uma outra dimensão do domínio colonial: a exploração intensiva, em regime de monocultura, e que o revolta. “Campos de sisal por todo o lado. Nem uma parte de terra para o indígena cultivar. Exploração dos diabos. O que vale e consola e anima é que isso tudo não vai tardar, vai acabar — oh, se vai! — para a ressurreição da vida nestas paragens.” O agrónomo trabalha intensamente na área em que se especializara. Trabalha e estuda, o que será uma constante de toda a sua vida, em que tanto valorizou o estudo. E exorta Lena: “Estuda sempre, porque vale a pena.”

“Eu preciso de vida, preciso de ter muita vida, porque tenho um longo caminho a percorrer”, anota o estudante, em 1948. Estas e outras passagens mostram o que o guineense Carlos Lopes, subsecretário-geral da ONU, designa num dos prefácios como “o afã de uma personalidade vocacionada para fazer História”. É uma espécie de premonição do seu destino. Em abril de 1950 dedica uma carta de 12 páginas a falar da morte. Num registo de diálogo, muito frequente na troca epistolar com a namorada, filosofa: “É interessante notares, Lena, que este supremo bem de vencer a outra morte [...] traz em si a consequência de triunfar sobre a morte vulgar, a cessação dos fenómenos vitais. Mesmo perante tal cessação, ele continua vivendo: na obra que realizou, no contributo que deu ao Progresso da Humanidade, no sentir e no pensar das gerações que ele não viu. Na vida.”

Coincidindo com um dos momentos de maior enlevo por Lena, escreve-lhe a confessar o irresistível apelo que África exerce sobre si. Está-se a 20 de agosto de 1948, o curso vai a meio, falta uma dúzia de anos para abandonar Lisboa e 15 para dar início à luta armada. Numa carta de 10 páginas expõe o que o ex-Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, chama, noutro prefácio, de “chamamento africano”: “Mas tu sabes, como eu, quais as forças que me chamam para África, forças a que não resistirei, porque seria trair-me, trair a própria vida. [...] O que me chama, Lena, (tu sabe-lo bem) são milhões de indivíduos que precisam do meu contributo na ingrata luta que têm travado com a natureza e com os próprios homens. O que me chama é, afinal, a própria Humanidade, solicitando, melhor, exigindo que eu cumpra o meu dever de Homem. E tudo me diz, Lena, tudo me diz que o meu posto de trabalho, pelo menos inicialmente, é lá. Lá, onde pouquíssimo ou nada ainda se fez. Lá, onde, apesar das cidades progressivas e belas do litoral, ainda há milhões de seres (seres humanos, Lena) que vivem em plena escuridão.” E mais à frente: “Subordino-me conscientemente a esta contingência da vida: tenho de ir para África.”

Na carta seguinte, volta ao tema. O casamento só será em dezembro de 1951, mas já trata Lena por “minha esposa e camarada”. Explica que, entretanto, adoecera: “Não sei se da canseira, se do estado em que fiquei depois de escrevê-la, estive a noite toda e o dia seguinte com febre. Eu creio que nunca escrevi uma carta que me tivesse esgotado tanto. [...] África? Sim, eu tenho de ir para África, mas tu estarás comigo. Eu não vou deixar que tu fiques. Eu farei tudo, tudo para que me acompanhes sempre. Sempre.” “Prefiro ser individualmente infeliz a ser ingrato para aqueles que de muitos poucos podem esperar auxílio, dedicação, luz.” No dia imediato, numa autêntica obsessão, retorna ao assunto para dar conta de como tem vivido “a batalha atroz entre o sentir e o pensar [...] sentindo em mim que a minha consciência coletiva venceria a individual”. Apela desesperadamente à namorada para que o acompanhe neste projeto africano para a sua vida e cita o soneto que lhe cantara: “Eu quero-te ao meu lado na luta desmedida/ para compor o soneto do nosso Amor”.

“A mais bela carta de amor que já te escrevi”

A filha Iva Cabral conserva muito mais cartas do pai para a mãe — e vice-versa. Os pais, porém, separaram-se em 1966. Cabral passou a viver com uma jovem guineense, Ana Maria Voss de Sá, enquanto Maria Helena se consorciou com Henrique Cerqueira, um português pertencente ao círculo do general Humberto Delgado. Da seleção de 53 cartas, feitas por Iva Cabral — a que o pai se refere amiúde como Mariva —, a última é de 1960. Nessa altura já Cabral ajudara a formar o MPLA, em Angola, bem como o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), de que é o indiscutível líder. A opção está tomada: irá instalar-se entre Dakar e Conacri, para melhor poder lutar pela independência das suas duas terras: a de sangue (Cabo Verde) e a de solo (Guiné).

Amílcar Cabral deixa definitivamente Lisboa em janeiro de 1960. A mulher e a filha deverão juntar-se-lhe em Paris, a que se seguirá África. A 30 de abril escreve a última carta deste livro, e que chega a ser comovente, na medida em que representa uma rutura e o fim de um ciclo. “Tenho na algibeira a passagem para a viagem definitiva. Tenho também a ordem das passagens para ti e para Mariva. [...] Chegou, portanto, o momento de tomarmos algumas decisões fundamentais para o nosso futuro, para a vida. [...] O nosso caminho é sempre para a frente, e não podemos pensar em voltar para trás.” Longa como de costume, dá instruções precisas de como deixar tudo organizado, resolvido e arrumado. “Por hoje paro aqui. Cheio de saudade. Talvez de ansiedade também. Mas cheio de esperanças no futuro, na vida que vamos construir. E a certeza, a consciência, a alegria de que esta carta é talvez a mais bela carta de amor que já te escrevi.”

À falta de uma alternativa política, o PAIGC inicia a luta armada na Guiné a 23 de janeiro de 1963. Amílcar Cabral, porém, não chegará a ver a independência. É assassinado por um dos seus guarda-costas em Conacri, capital da República da Guiné, na noite de 20 de janeiro de 1973. Em circunstâncias que ainda hoje permanecem algo nebulosas. Maria Helena só regressou a Portugal depois do 25 de Abril, tendo-se fixado em Braga, na Universidade do Minho. Morreu em 2005.

O Soneto do nosso Amor

Para a Lena


Quero a Poesia inebriante da primavera em flor
e a música selvagem dos ventos do Noroeste.
Quero a força invencível de um maremoto agreste
para compor o soneto do nosso Amor.

Quero o sofrimento imenso das crianças sem veste
lá na rua dos invernos sem Pão e sem Calor.
Para compor o soneto do nosso Amor
combaterei a injustiça das esmolas que tu deste.

Na voz dos oprimidos chama por nós a Vida
e eu quero-te ao meu lado na luta desmedida
para compor o soneto do nosso Amor.

E no fim só no fim eu cantarei teus beijos
e à luz do teu olhar libertarei meus desejos
nas horas celestiais de uma Vida sem Dor.

Amílcar Cabral (Lx, 1948)