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O que é que a Tesla tem?

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A semana passada, a empresa daquele que é, provavelmente, o mais reconhecido ícone da Inovação, anunciou um novo automóvel. E? Em poucos dias, a Tesla teve mais de 250 mil encomendas e Elon Musk pode sorrir com confiança sobre o futuro da sua marca automóvel que ainda não completou 15 anos de mercado. Só mais uma achega: cada pretendente ao Model 3 teve de pagar 1 000 dólares pela reserva do carro que só vai ser entregue algures no próximo ano. Mas porque é que este automóvel é assim tão importante? O Model 3 representa, para a Tesla, a massificação do carro elétrico. Deixe-me explicar melhor.

A Tesla é a Apple dos automóveis – pelo menos enquanto a empresa do iPhone não lança um carro. É assim que a empresa é percecionada pelos utilizadores e pelo mercado. Tal como a Apple fez para os smartphones, também Elon Musk teve uma visão para todo o ecossistema dos carros elétricos. Ou seja, não se limitou a atuar num dos vértices. Por isso, a empresa lançou automóveis ao mesmo tempo que colocava, nas estradas, uma rede de abastecimento rápido. Dúvidas sobre as semelhanças com a Apple? Veja a apresentação oficial do Model 3, decorrida na passada quinta-feira, esteja atento às reações do público e ao estilo de Elon Musk durante o evento. Pode ver o vídeo na íntegra AQUI.

A empresa norte-americana não ambicionou fazer uma «pilha com rodas». Não. Os Tesla são superdesportivos carregados de emoção, design e, claro, tecnologia. São carros caros, é verdade, mas que têm o condão de fazer hesitar os que têm carteiras recheadas o suficiente para comprar um Ferrari.

Depois de andar alguns anos a cultivar uma imagem verde com acelerações de 2,8 segundos dos 0 aos 100 km/h, a Tesla dá o salto para a massificação com o Model 3. Um carro com um preço que começa nos 35 000 dólares – por cá deve passar pouco dos 40 mil euros. Sim, é o primeiro Tesla acessível a um público mais vasto que ambiciona um carro elétrico, mas não um carro qualquer. Este Model 3 não é como os elétricos que nos começamos a habituar a ver nas cidades. Este é um automóvel para todos os que só admitem trocar o motor de combustão por um elétrico capaz. Ou seja, com desempenho. E, nessa vertente, este Tesla cumpre. Afinal, tem o aspeto luxuoso dos “irmãos mais velhos”, consegue chegar aos 100 km/h em apenas 6 segundos e tem uma autonomia anunciada de 350 km. Mas faz mais. Quem comprar um Model 3 vai ter acesso ao Autopilot, o sistema que congrega uma série de sensores e software. É esta combinação que permite ao carro, basicamente, conduzir-se sozinho. Já o experimentámos na “Exame Informática” e pode ver o vídeo AQUI.

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Este é o momento certo para a Tesla abrir o espetro da sua oferta. A empresa investiu nestes últimos 12 anos muito dinheiro em Investigação e Desenvolvimento e está na altura de conseguir alcançar as muito ambicionadas vendas de 500 mil carros/ano.

O Model 3 é a porta para esse desígnio. As pré-encomendas passam já os 250 mil automóveis superando as expetativas de um surpreendido Elon Musk que tem confessado no Twitter o seu espanto pela elevada adesão a este automóvel – Pode acompanhar o patrão da Tesla AQUI.

Aliás, o mais extraordinário no processo de encomenda do Model 3 foi o facto dos compradores se terem dirigido aos stands da Tesla para efetivar a reserva do automóvel. Poderiam tê-lo feito online, em poucos segundos, mas fizeram questão de ir ao local e falar com alguém. Por isso, foi caricato ver filas para reservar um automóvel. Algo que nos remete, de imediato, para o que acontece quando é lançado um novo iPhone e os fãs acampam à porta das Apple Stores.

E é isto que distingue a Tesla da concorrência: a relação emocional com a marca. Elon Musk sabe-o e já anunciou que estes early adopters vão receber alguns presentes pelas pré-reservas efetuadas. Mas analisemos: que outro fabricante automóvel conseguiu faturar mais de 10 mil milhões dólares em 36 horas com encomendas de um carro que só é entregue no próximo ano? Que outro fabricante conseguiu fazer um carro elétrico com aspeto luxuoso, repleto de tecnologia, com uma autonomia de 350 km e com um preço de 35 mil dólares?

Se conseguir construir em cima desta imagem de culto, a Tesla vai ser um caso sério no fabrico mundial de automóveis. Tal como a Apple, a empresa é uma outsider no setor e essa aparente fraqueza é, na verdade, uma vantagem em relação aos fabricantes instalados.

Claro que os veículos elétricos ainda têm um longo caminho a percorrer para se tornarem a regra na estrada. Mas, neste momento, a estratégia da Tesla faz todo o sentido: se é para trocar o motor de combustão, mais vale fazê-lo por um carro com bom design, tecnologia e desempenho.

Já tive a oportunidade de conduzir um topo de gama da Tesla e a experiência é boa. No meu caso, fiquei muito condicionado porque tinha pela frente um desafio de autonomia o que acabou por me obrigar a fazer médias de 80 km/h num superdesportivo. Mas há algo que é impossível não admitir: quem conduz um carro elétrico percebe, rapidamente, que o futuro do automóvel passa por aqui. E, ao que tudo indica, a Tesla vai desempenhar um papel importante no desenvolvimento dos veículos, das redes de carregamento e das próprias baterias. Aliás, é importante esclarecer que, além dos veículos, a empresa de Elon Musk faz, essencialmente, baterias. Para os automóveis, mas também para casas e organizações. Aliás, construir baterias será, mesmo, a principal atividade da empresa norte-americana, num mundo onde queremos que as energias renováveis mantenham enterrados os combustíveis fósseis. É esse o caminho que estamos a fazer. Aliás, que temos de fazer se queremos manter o planeta habitável para as futuras gerações.