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“Desconheço países com quotas de genéricos tão altas como as nossas”

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O porta-voz dos laboratórios revela que vão surgir medicamentos que darão anos de vida a quem tem cancro

luís barra

João Almeida Lopes, Presidente da Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma)

Formado em Finanças, o rosto da indústria farmacêutica em Portugal garante que na Saúde o orçamento só deve ser central quando não chega para dar cuidados a quem precisa. João Almeida Lopes está confiante de que o novo governante Adalberto Campos Fernandes vai acabar com os “cortes cegos” que durante quase dois anos vetaram aos portugueses o acesso a tudo o que era inovador.

Disse recentemente que este ministro da Saúde traz uma nova perspetiva e expectativas.
Sim. Na entrevista que deu ao Expresso o próprio ministro refere que a Saúde deve ser vista mais como um investimento do que como uma despesa e isto é todo um olhar diferente. É pensar que o grande objetivo é dar Saúde à sociedade. O orçamento só nos deve preocupar se não estiver adequado à realidade da Saúde que a sociedade exige e os cidadãos querem.

O ministro não está preocupado com o orçamento?
Claro que está, mas pela primeira vez temos um ministro que assume que a Saúde é um investimento. E como muito bem referiu o Presidente da República, a importância da Saúde é tal que, de facto, faz sentido falar num pacto.

Há uma sintonia de visões apesar da divergência política entre o Governo e a Presidência da República.
Não tenho dúvida nenhuma. Para qualquer de nós, a saúde é das coisas mais importantes na vida e não faz sentido que seja gerida unicamente de uma maneira economicista e em termos do orçamento.

A Saúde é valiosa mas isso não se reflete nos orçamentos.
Se há área que deveria ter um financiamento adequado à sua dimensão e necessidades é a Saúde.

Daí o ministro afirmar que há subfinanciamento crónico.
A Apifarma também o diz há anos.

O sistema de Saúde vai conseguir pagar cada vez mais?
A sociedade vai ter de pensar. São opções políticas, nas quais investimos mais os recursos. Todos ficamos extasiados com o desenvolvimento das técnicas e ao percebermos que as pessoas lá em casa podem viver muito mais e com uma qualidade incomparavelmente melhor e é evidente que isso vai necessitar de outro tipo de desafios, de escolhas, de organização... vai ter impactos transversais na sociedade.

O Governo quer gastar este ano €2 mil milhões em medicamentos e as farmacêuticas prometem um desconto de €200 milhões. A população vai continuar a ter as terapêuticas se o plafond for ultrapassado?
Sim, só teremos de adaptar os nossos orçamentos. Os acordos deste tipo são soluções de compromisso e um esforço conjunto para minorar o impacto do subfinanciamento, que calculamos que ronde €300 a €350 milhões. E o medicamento só representa 25%, se representar. Tratamos hoje muito mais pessoas e não faz sentido que sistematicamente se queira manter os números.

O desconto de €200 milhões é maior do que os anteriores?
Teoricamente é o maior de sempre, mas em termos práticos não vai ser muito diferente do que foi feito no ano passado. Como, obviamente, não vão faltar medicamentos a nenhum português, no final têm de ser feitos acertos e acabamos por ficar relativamente próximos. O problema é outro: por força da assistência financeira e a continuação da rigidez dos orçamentos a que Portugal tem estado obrigado, os orçamentos da Saúde para investimentos em medicamentos têm sido cada vez mais insuficientes. E tornam-se ainda mais quando aparece inovação extremamente disruptiva e que não pode deixar de ser utilizada.

Está a dizer que haverá alguns medicamentos e tecnologias que não vão ser dados?
A inovação vai chegando. Às vezes demora mais de um ano. A avaliação em Portugal não é das mais céleres, mas há garantia do ministro de que não existirão ‘vetos de gaveta’. As avaliações têm de ser feitas e se forem positivas, dis- ponibilizadas. Temos sugerido que os orçamentos sejam para mais de um ano, com uma Lei de Programação da Saúde.

Houve ‘vetos de gaveta’ no governo anterior?
Completamente. Durante um ano e meio a dois anos, desde o período de assistência financeira até meados de 2013, não existiu praticamente aprovação de nenhuma inovação. Tirando casos esporádicos, não houve qualquer avanço nos tratamentos.

Prescrever mais genéricos para gerar poupanças para pagar a inovação faz sentido?
Não temos nada contra, mas as quotas de genéricos em Portugal são elevadas. Aliás, desconheço que haja países com quotas de mercado de genéricos tão altas como as nossas: Espanha não tem, Itália, França...

Tem a Alemanha.
Mas o sistema de saúde na Alemanha é completamente diferente do português e temos de comparar realidades que são comparáveis. Não é realista que a quota de genéricos possa progredir sem a entrada de novos medicamentos.

Concorda com o atual sistema de preços por referência com outros países?
Tem de existir sempre, mas alguns países de comparação não fazem sentido, como a Eslovénia ou a Eslováquia. Não queiram ver o que é o Serviço Nacional de Saúde desses países... Faz sentido a Espanha, a França... O efeito perverso é que os doentes vão às farmácias e não têm os medicamentos, porque são tão baratos que as cadeias de logística preferem reexportar.

Pagar pelos ganhos para o doente e não pelo preço da caixa é um modelo para ficar?
É uma tendência atual e faz sentido, até porque na maior parte dos casos estamos a falar de tecnologias tão inovadoras [e caras] que temos de tentar encontrar soluções.

Em que áreas são esperadas mais inovações?
As hepatites vão continuar na ‘crista da onda’ e a oncologia vai ter saltos enormíssimos e desenvolvimentos espantosos com grande impacto na vida das pessoas.

E os portugueses vão ter acesso, como têm um espanhol ou um norte-americano?
Está a pedir-me um comentário muito político [risos]. Acabaremos por ter, mas será ao fim de um ano ou mais. E é preciso que seja mais cedo. Estamos perante uma onda gigante e estonteante de inovação, que começou na hepatite e vai passar para a oncologia com o mesmo tipo de impacto. Isto é, capaz de proporcionar mais dois, três anos de vida aos doentes e enquanto sociedade temos de pensar como estamos e onde queremos estar.