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Ócios do ofício

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paulo buchinho

O local de trabalho tornou-se a melhor arena para o romance. Passamos cada vez mais horas no emprego e os colegas estão à mão para o flirt. Há empresas que o proíbem

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Texto

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

Paulo Buchinho

Ilustração

O local de trabalho é um dos lugares por excelência para as pessoas se conhecerem, trocarem ideias e, por vezes, para algo mais. Passamos a maior parte do dia com os colegas — muito mais do que com a família — e os novos tempos de maior competitividade obrigam a que cada vez mais profissionais façam horas extraordinárias e se entreguem de cabeça e coração ao emprego. A ocasião faz a paixão. Daí até à atração, ao beijo roubado, ao encontro sexual às escondidas no hotel das redondezas, ou mesmo até ao amor pode ser um quase nada.

O romance e o desejo no local de trabalho são tão inevitáveis como as cheias na Índia ou os terramotos no Chile. Acontece em todas as empresas, em todo o mundo, a toda a hora. Ócios do ofício. Os colegas estão mesmo ali à mão. É a colega com quem falamos cada vez mais vezes no corredor, que nos dá bola, oportunidade para bons remates, a conversa apetece, a química é evidente. Ou é o caso do colega charmoso, inteligente, com uma certa lábia que convida a parceira para almoçar fora, que percebe como ninguém os seus problemas e encontra nela muita coisa em comum. E quando o patrão ou a patroa que admiramos e até achamos atraente nos convida para um copo?

Assédios sexuais à parte ou tentativas planeadas de escalar no emprego por via da cama colocadas igualmente de fora (esses casos também abundam, como se sabe), o poder ou o sucesso também podem ser poderosos afrodisíacos. Assim como o risco e o proibido. São faíscas invisíveis que andam à solta e que podem resultar em chama. E sabe tão bem trabalhar com amor, paixão, excitação... mas convém atuar com códigos, ser discreto, não dar nas vistas, para evitar comentários, críticas, invejas e, por vezes, mudanças de cargo. Mesmo que toda a gente à volta desconfie ou saiba desse caso, finja que não. Faz parte do jogo. É o teatro onde todos participamos. Uma realidade que se tornou mais evidente desde que a mulher entrou em força no mercado de trabalho a partir dos anos 60 — e, mais ainda no período que se seguiu à revolução — quando elas começam a ocupar os mesmos cargos e profissões dos homens.

No entanto, uma série de problemas pode assombrar os romances que nascem num contexto laboral e as empresas estão atentas a isso. A tese de mestrado “Relações Amorosas no Local de Trabalho: Eu e os Outros”, de João Barros, do ISCTE, aponta para alguns riscos. Um dos problemas são as ameaças à reputação profissional. “Sobretudo se a relação amorosa não terminar de forma pacífica. Há que tentar perceber as reações que tanto a organização como os restantes colaboradores terão no momento em que a relação se tornar pública.” Outro risco surge quando há descontentamento dos colegas. Na grande maioria dos casos o casal será apoiado pelos restantes empregados desde que a relação seja discreta, “que não entre em conflito com a cultura empresarial e que não haja suspeitas de vantagens profissionais consideradas injustas.”

Uma eventual perda de produtividade é também um problema a ter em conta. Como também se houver conflito de interesses em certos cargos, podendo levar um dos trabalhadores a mudar de emprego ou de posto. Mas não é sobre isso que escreveremos. O que se segue é romance com o melhor dos enredos.

UM AMOR PROIBIDO

Primeiro foi a voz. Uma voz espessa, gutural, de rádio, que era um prazer ouvir. Talvez o sorriso branco e rasgado também, e depois a graciosidade, a beleza. Evidentemente que a beleza daquela morena segura e competente, de cabelos longos e olhos castanhos expressivos, não passara despercebida a Jorge Silva. Mas, acima de tudo, o que Jorge sabia ter encontrado em Sari era confiança, respeito e cumplicidade para o ajudar nas tarefas do escritório. Sete anos passaram-se assim. Sem mais nada a relatar. As águas estavam separadas. Os sentimentos e os papéis também. Sem ambiguidades. A ligação dos dois era estritamente profissional e ambos tinham relações amorosas fora dali. Jorge era o fundador e diretor do ateliê Silva Designers (Responsável pelo design da Agenda de Lisboa e das sardinhas das Festas da Cidade) e Maria do Rosário Veiga — tratada por todos como Sari — a sua assistente de direção. As vidas de cada um separavam-se à saída do ateliê.

Mas há cerca de três anos o rumo dos acontecimentos começou a mudar, de mansinho. A intensidade de trabalho no ateliê aumentara consideravelmente. Jorge e Sari começam a trabalhar juntos mais horas. Havia que dar vazão aos projetos. Por coincidência, ambos estavam a viver o definhar da relação anterior e, aos poucos, começa a haver espaço para uma maior partilha, alguns desabafos, e é quando se envolvem. “Eu estava carente e como não tenho um emprego, mas um modo de vida, todos os meus interesses giram à volta disto, do ateliê e do mundo do design e da ilustração. A minha vida está aqui. Por isso digo que sofro da síndroma do Bill Clinton [referindo-se ao caso que o ex-Presidente dos EUA manteve com Monica Lewinsky]. Sou um caçador preguiçoso, vejo a oportunidade que está à minha volta”, reflete com humor Jorge, 58 anos, sobre a paixão que o tomou de assalto pela funcionária, hoje companheira.

Jorge Silva e Maria do Rosário Veiga (Sari) apaixonaram-se no ateliê onde trabalham. Ele é o diretor da Silva Designers e ela a sua assistente. Vivem uma relação há três anos e têm uma filha de 6 meses

Jorge Silva e Maria do Rosário Veiga (Sari) apaixonaram-se no ateliê onde trabalham. Ele é o diretor da Silva Designers e ela a sua assistente. Vivem uma relação há três anos e têm uma filha de 6 meses

nuno botelho

Palavras agora para Sari, de 42 anos, a outra metade desta mesma paixão. “Esta é uma história íntima, nossa, mas há reflexões a tirar dela e por isso partilho-a. Sempre tive muito respeito e admiração pelo trabalho do Jorge. Os serões constantes de trabalho aproximaram-nos, claro. O seu sentido de humor é uma delícia, acho-o um homem bonito, claro que um homem bem-sucedido tem appeal e um dia houve em que sonhei com ele. Acordei sobressaltada e pensei, isto é surreal, não posso acreditar! Percebi depois mais tarde que havia do lado do Jorge uma vontade, uma intenção, quando me enviou para o telemóvel uma fotografia do carro dele com uns chinelos junto a uma barragem. Percebi nesse instante que havia algo a desenvolver-se entre nós”, recorda Sari. A melhor amiga deu-lhe o conselho: “Não te metas com o teu chefe!” Mas Sari não conseguiu travar o que sentia. “Estava a viver uma relação bonita, apaixonada, e era muito complicado parar. Andei a patinar uns tempos, indecisa, todos sabemos o carimbo que é colocado quando uma empregada se envolve com o patrão da empresa, não é?”

Para se protegerem do falatório, o romance entre os dois foi vivido durante uns tempos às escondidas da equipa, na sombra. Havia que preservar a dinâmica entre os colegas e não criar desconfortos. “Éramos duas pedras basilares da empresa e não queríamos que as pessoas perdessem a confiança em cada um de nós por termos conversas de travesseiro ou por acharem que íamos passar a ter um comportamento-comboio, um esquema montado a dois pelo facto de estarmos juntos”, recorda Jorge. Um ano depois, após perceberem que aquele amor era para durar, decidem contar à equipa. Foi Sari quem tomou a iniciativa. “Combinei um café, à vez, com cada um dos meus colegas, explicando que ali dentro nada ia mudar, não existiriam tratamentos diferenciados, os papéis de cada um manter-se-iam inalterados, e as reações foram todas positivas.”

Jorge conta que nem tudo foram maravilhas quando se assumiram como namorados. E que foram alvo do olhar reprovador de algumas pessoas conhecidas. “Por estarmos a viver a situação cliché da relação ‘patrão/empregada’ e pelo facto da Sari ser uma mulher muito mais nova do que eu [tem menos 16 anos] nalgumas cabeças gerou-se a ideia de oportunismo e do tipo serôdio, o homem que está a envelhecer e que quer rejuvenescer à custa de uma mulher jovem e bonita. Todos temos uma visão anedótica sobre este tipo de uniões, não é? Claro que tivemos de saber gerir isso.”

Como o fizeram? Geriram com o silêncio, não ligando, vivendo o amor que os ligava sem dar importância ao que os outros podiam estar a pensar. E, entretanto, surgiu a pequena Leonor, uma bebé de bochechas perfeitas e grandes olhos castanhos, a filha de ambos que conhecemos a brincar no chão do escritório com bonecos e chocalhos. Não é o único filho que têm. Jorge é pai de Clara, com 12 anos, filha da sua anterior relação, e Sari é mãe de Vinicius, com 13 anos, também de outra relação. Os meus, os teus e os nossos. Tudo certo, agora. “Na verdade, não acho que haja problema em duas pessoas que trabalham juntas começarem uma relação amorosa. Têm é de saber estar na empresa e ocupar os respetivos cargos. Não mudei a minha atitude profissional nem fui favorecida pelo facto de ter uma relação com o dono da empresa. Continuo a ganhar o mesmo e não quero ser aumentada. Apesar disso não imaginam quanto mexe com o meu ego ouvir certas brincadeiras inocentes, como ‘Ah, agora pede mais uns dias de férias. Afinal de contas estás com o patrão!’ As pessoas só sabem entender o mundo através dos clichés e das caixinhas. Não me revejo nisso. Somos fora da caixa, continuamos a viver em casas separadas, preservamos um certo espaço nosso, e não somos casados nem temos planos para isso. Eu e o Jorge estamos juntos, não precisamos do papel e da festa”.

Esta é uma história de amor no trabalho com horizonte feliz, mas nem todos os romances desta natureza são bem vistos pelas entidades patronais. Algumas vetam mesmo essas ligações. Em Portugal há multinacionais que proíbem os funcionários de ter uma relação ou obrigam-nos a informar as chefias para que os mudem de posto. É o caso da McDonald’s. “Nessas situações, acordamos com os mesmos que trabalhem em restaurantes distintos, de modo a evitar que as relações pessoais possam influenciar o relacionamento profissional ou vice-versa”, afirma Sofia Mendonça, diretora de Recursos Humanos da McDonald’s. Há dois anos, o que dissera ao Expresso fora mais contundente. “Os funcionários que tenham um relacionamento de subordinação direta ou indireta entre si estão proibidos de manter relações amorosas ou sexuais. Quem tenha alguma relação amorosa ou planeie ter uma relação que possa violar as políticas da empresa tem de avisar imediatamente o seu representante dos recursos humanos ou diretor.”

Na EDP a norma também é separar trabalhadores que tenham uma relação. Chamam-lhe ‘conflito de interesses’ e está previsto no Código de Ética. Se ambos trabalharem juntos ou tiverem de interagir profissionalmente deverão comunicar às hierarquias para que um deles seja mudado para outras funções. Uma prática comum em várias empresas, que vai contra a lei que impede as entidades empregadoras de, sequer, questionarem os trabalhadores sobre aspetos da vida privada, de acordo com a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT). “O direito à reserva de intimidade da vida privada abrange quer o acesso quer a divulgação de aspetos atinentes à esfera íntima e pessoal, nomeadamente relacionados com a vida familiar, afetiva e sexual,” salientou a antiga Inspeção-Geral do Trabalho ao Expresso. Mas esta não é uma conduta rara entre as empresas.

Carlos Sezões, partner da Stanton Chase, empresa multinacional de executive search, conhece bem o mercado profissional português e sabe que estas situações não são do agrado de muitos empregadores. “Do ponto de vista da empresa é compreensível a preocupação e, por vezes, o melindre da questão. A organização empregadora procura ter profissionais com elevados níveis de compromisso e focados nos processos de trabalho e nos resultados, e relações de maior intimidade podem colocar em causa esses objetivos. Existem muitas empresas em Portugal que o desaconselham — de forma genérica, através das suas políticas de recursos humanos.”

As razões para tal regem-se pelo princípio de manterem os locais de trabalho imunes a conflitos, a ‘relações contaminadas’, a falta de confiança ou perdas de atenção e rigor. E dá exemplos do que pode, por vezes, correr mal. “A relação entre pessoas de diferentes hierarquias, que pode perturbar processos de trabalho e de decisão nas empresas e a gestão da eventualidade (frequente) do final das relações, com a difícil coabitação futura no mesmo local de trabalho. Compreendo as preocupações, mas não concordo com medidas regulamentares coercivas extremas, baseadas nas proibições e nas sanções. Sou claramente apologista da autorregulação e do bom senso.” Maria da Glória Ribeiro, managing partner da Amrop, com mais de 20 anos na área de caça-talentos executivos, refere o caso recente de uma diretora de uma empresa que se envolveu com um gestor. “Combinaram entre si que havia conflito de interesses e que ele sairia para outra empresa. Mas a relação mantém-se.”

Amor no ginásio

Talvez o primeiro beijo que Bruno Andrade roubou a Rosário Abrantes no ginásio onde trabalhavam não tenha sido de bom senso. Mas foi de bom grado. E os dois garantem que nenhum sócio os apanhou com as bocas coladas. Esse beijo foi o primeiro de muitos. Bruno andou muito tempo atrás da colega de olhos azuis e cabelos loiros. Havia o facto de serem colegas e, acima de tudo, a diferença de idades que se apresentava como uma barreira para ela. Rosário tem 36 anos e Bruno 28. “Achava que as relações com colegas não tinham futuro e que eu não devia relacionar-me com alguém tão mais novo”, conta Rosário. Mas os sentimentos falaram mais alto e aceitou finalmente o convite para um café. E daí veio o resto. O que é certo é que entre instrutores de ginásio as relações amorosas e os ‘lances ao cesto’ são mato. “Conhecemos muitos colegas que são também um casal, ou que têm casos, é bastante frequente. Também os tive.” confessa Bruno com um sorriso malandro. O mesmo acontece entre médicos e enfermeiros, entre jornalistas, atores, pessoal da aviação, bancários e tantas outras profissões em que os funcionários passam longas horas a conviver. E a atração, o sexo e o amor acontecem. O médico psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz é de opinião de que os locais de trabalho são hoje um terreno fértil também para a infidelidade...

“O contexto de as pessoas passarem muitas horas juntas a trabalhar favorece a que partilhem os seus problemas, a sua vida, desenvolvendo um contexto de intimidade que no início até pode não ter uma dimensão erótica expressa. Claro que todos conhecemos no emprego aquele que dispara para tudo o que mexe, mas as ligações eróticas podem ocorrer no trabalho quando menos se espera. Mesmo quando há relações pelo meio. E, muitas vezes, não são apenas relações triangulares que acontecem, mas as quadrangulares. Ou seja, ambas as pessoas envolvidas sexualmente ou emocionalmente no local de trabalho têm uma relação amorosa fora dali.” É quando a colega ou o colega parecem bem mais apelativos e fascinantes do que o cônjuge com quem se mantém uma relação de há muitos anos, rotineira, cansada, sem novidade, com quem lidamos com problemas, obrigações e as mesmas discussões de sempre. É o ‘baixa o tampo da sanita’ ou ‘mete a loiça na máquina’ e ‘apanha a roupa do chão’ em modo repeat até à náusea. “A colega ou o colega com quem lidamos em contexto laboral está fora disso tudo. E em termos de aparência está no seu melhor, arranjou-se para o trabalho. Uma coisa é a pessoa que acorda ao nosso lado, descomposta, ao natural, outra é a colega que vemos no trabalho sempre bem vestida e maquilhada. É uma realidade paralela que pode ser amplamente erotizada. Por isso digo sempre que a solidez de uma relação está mais no acordar do que no adormecer ao lado de alguém. Nós não acordamos ao lado de qualquer pessoa.”

Dança. Filipa de Castro e Carlos Pinillos são dois bailarinos que começaram a dançar melhor depois de se tornarem um par

Dança. Filipa de Castro e Carlos Pinillos são dois bailarinos que começaram a dançar melhor depois de se tornarem um par

nuno botelho

O médico psiquiatra Allen Gomes acrescenta outra nuance para a discussão que classifica de ‘nova infidelidade’. “Quando há atração entre colegas e que mantêm essa ligação como dois círculos em tangente, alguns não chegam a entrar num relacionamento porque sabem que se se envolverem sexualmente começam os encontros nos hotéis, o que pode tirar alguma beleza à coisa e comprometer as relações que têm fora dali. Se eu perguntar a essas pessoas se estão a ser infiéis, respondem prontamente que não. Mas se perguntar se o marido ou a mulher gostariam de saber dessa ligação aproximada que mantêm com aquele ou aquela colega dizem ‘nem pensar’. É uma relação platónica entre colegas, sem culpa, sem sexo, mas que não é assexuada e envolve grande proximidade e intimidade.” Mas essa tentação em lume brando é resistível a médio prazo?

“Não. A esmagadora maioria avança. E há uma certa pressão para avançar. As pessoas não querem perder nada. Querem manter as suas relações afetivas estabelecidas, difíceis de cortar, que envolvem grande investimento de parte a parte e, ao mesmo tempo, querem ter outro tipo de relação. E estão ali os colegas. São os chamados ‘colegas com benefício’ ou os ‘colegas coloridos’, para relações ocasionais que por vezes se desenvolvem em relações duradouras”, afirma Allen Gomes. Na mesma linha de raciocínio Patrícia Pascoal, coordenadora da consulta de sexologia na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, alerta para o facto de o flirt no trabalho ser um comportamento que inquieta as pessoas e lhes coloca dilemas morais. “Flirtar com colegas de trabalho é uma forma de traição ao cônjuge? Curiosamente, é também um comportamento que mantém níveis de bem-estar e satisfação, para muitos é a pimenta e o sal do local de trabalho.” Para Patrícia, esse carácter de transgressão pode ser amplificado quando a categoria profissional e o papel das pessoas na hierarquia é desigual. “Neste contexto podemos falar de efeito sedutor da transgressão. E, de facto, o poder é o melhor afrodisíaco.”

O amor dá muito trabalho e o trabalho dá muito amor. Foi o caso de Teresa Lopes, que durante dois anos esteve envolvida com o patrão. Na intimidade, tratavam-se por tu. No trabalho, uma empresa de outdoors, ele era o ‘senhor doutor’ e chefe, para comunicar usavam o registo formal do você. A história começara numa saída de grupo, entre colegas, para assistirem a um concerto do Pedro Abrunhosa e prosseguiu longe da vista. Carlos Tomé, 56 anos, então seu patrão, mantinha-se casado com a ex-mulher, apesar de já não fazerem vida juntos, mas o bom senso impunha a discrição no escritório. Quando assumiram a relação, muitos reagiram bem, mas houve alguns ciúmes e incómodos por parte de alguns colegas. Teresa, 49 anos, gestora de conta, recorda agora um episódio particularmente infeliz que decorreu à vista de todos. “Uma colega acusou-me ‘ganhas mais do que eu porque dormes com o patrão!’. Fiquei muito chateada com aquela atitude estúpida e fui buscar a minha folha de ordenado para lhe provar que era mentira. E acabou a pedir-me desculpa.” Entretanto, a empresa foi vendida, Teresa manteve o posto de trabalho, mas o companheiro não, deixara de ser seu superior hierárquico. “Curiosamente, só aí fui promovida. E sem dormir com ninguém.” Dessa relação, que dura há 18 anos, nasceram dois filhos, o Diogo, de 13 anos, e a Catarina, de 8. “Somos felizes. Ainda vejo o meu marido como um mulherengo, sempre foi e ainda é, mas acho que ele tem medo de mim. Não se atreve...”

Terminamos com poesia e com uma história de filme, porque o amor no trabalho também pode ser isso. A primeira vez que Carlos Pinillos viu Filipa de Castro foi em palco. Ela estava a dançar em Madrid num espetáculo da Companhia Nacional de Bailado (CNB) e ele, também bailarino, estava na assistência. E fixou aquela bailarina de cabelo aos caracóis. Tentou falar-lhe no final, à saída, mas não a apanhou. Talvez por isso e porque queria mudar de vida deixou a companhia de dança onde trabalhava e foi para Lisboa fazer uma audição na CNB. Onde a tal bailarina dançava. Carlos foi admitido na companhia, mas soube logo que a bailarina dos caracóis partira para a Flandres, no norte da Bélgica, para integrar o Ballet Real, onde esteve dois anos. Nesse sucedâneo de desencontros houve um jantar organizado por um amigo comum em Lisboa. Filipa estava por cá e foi. “Encontrámo-nos na cozinha. Eu estava a fazer paella e fiquei atrapalhado...”, conta Carlos. Voltam a encontrar-se mais tarde noutro jantar, mas Filipa estava de regresso à Flandres no dia seguinte. Carlos inventou que tinha uma encomenda para entregar a uma amiga que vivia na Flandres (a amiga existia mesmo) e apareceu, no dia seguinte, em Santa Apolónia. Aí aconteceu o primeiro beijo. Meses depois, Filipa regressa à CNB e é aí que finalmente a relação começa, quando ambos já eram colegas de palco. O amor destes dois dura há 13 anos, de onde resultaram dois filhos, Lucas, de 8 anos, e Marcos, de 5.

Filipa e Carlos, de 38 anos, dançaram inúmeras vezes em par, e hoje a cumplicidade entre os dois sente-se em cada pequeno gesto e movimento. Não lhes foi fácil chegar a este estado de graça. “No início discutíamos muito, não sabíamos separar o colega do namorado, do parceiro de dança. Havia uma linha de respeito que era facilmente ultrapassada, perdíamos a objetividade por sermos um casal. Mas, anos depois, quando conseguimos separar as águas, atingimos uma dimensão sublime na nossa relação e na dança. Porque quando dançamos juntos a nossa entrega, verdade e cumplicidade são totais. E assim é, hoje, a nossa relação. O nosso íntimo juntou-se um pouco mais. Claro que se ao dançarmos parece um sonho, também queremos que na vida real seja assim. E temos conseguido. E é tão bom!”, conta Filipa. Na dança há casos de favorecimento por via de relações amorosas? “Claro que há! Sei de casos de bailarinas que se casaram com o diretor para serem ‘principais’ ou que tiveram affairs para assegurarem um papel. Conheço também rapazes que fizeram o mesmo.” Não é o caso deles, porque nesta dança a dois é o amor que os une.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 2 abril 2016