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O povo que admite dar o poder aos piratas

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Os islandeses perderam tudo em 2008, os islandeses estão cansados em 2016. Os Panama Papers levaram-lhes o primeiro-ministro - não resistiu à maior fuga de informação da História - e as eleições estão em vias de lhes trazer piratas. Mas não é um saque - é livre arbítrio: as sondagens dão o Partido Pirata confortavelmente à frente. Este é um caso único no mundo

Joana Beleza

Joana Beleza

Texto e vídeo

Quando um vulcão entra em erupção - como aconteceu há precisamente 6 anos no sul da Islândia - não vale a pena tentar adivinhar quando tempo ficará em atividade. Dizem os especialistas que as erupções são muito variávies, tanto podem durar algumas horas como vários anos. E por estes dias, o mesmo se aplica aos protestos nas ruas de Reiquiavique.

“O atual governo tem mandato até abril do próximo ano, mas não me parece que consiga sobreviver até lá”, afirma ao Expresso Gunnar Hrafn Jónsson, jornalista do canal de televisão e rádio RÚV. “Os islandeses estão cansados de escândalos da classe política e isto vai acabar, seja lá como for ou quando for, com novas eleições”, acrescenta. O atual governo islandês já tinha a sua dose de impopularidade e esta foi a gota de água.

Recuemos ao início da semana: o vulcão entra em erupção no passado domingo. A transmissão de uma reportagem televisiva sobre o primeiro-ministro islandês e a sua ligação aos Panama Papers, um arquivo brutal de documentos sobre a forma como políticos, empresários, futebolistas e celebridades de todo o mundo usaram paraísos fiscais para fugir ao fisco, apanhou os islandeses de surpresa e menos de 24 horas depois organizava-se frente ao parlamento a maior manifestação de sempre contra o governo. “Foi um momento histórico, nunca pensámos que aparecesse tanta gente, embora estivéssemos todos - incluíndo os membros do parlamento - em choque”, revelou ao Expresso Valgedur Bjork Pálsdóttir, secretária do partido islandês Futuro Brilhante.

Reuters

Como em 2008, aquando da gigantesca crise financeira do país, os islandeses saíram para as ruas na segunda-feira com tachos, panelas, colheres de pau, ovos e iogurtes. O dia era de sol e a indignação era muita: "daquela vez era sobre todos nós perdermos coisas pessoais - perdermos o nosso dinheiro, os nossos carros, as nossas casas - mas desta vez era sobre um único tipo que, para os islandeses neste momento, simboliza tudo aquilo que devia ter mudado depois de 2008 e não mudou", esclarece Gunnar.

O primeiro-ministro Sigmundur Gunnlaugsson não aguentou a pressão. Cerca de vinte e duas mil pessoas exigiram frente ao parlamento que se demitisse e ao fim de muitas horas de informações contraditórias Sigmundur foi substituído pelo ministro da Agricultura no cargo de chefe de governo.

"Ele é uma figura polémica. Em 2013 era muito popular porque era o líder da oposição, o único que protestava ruidosamente contra o facto do anterior governo não fazer o suficiente para tirar o país da crise, mas desde que venceu as eleições tem vindo a descer a pique nas sondagens. Neste momento está a tornar-se uma figura odiada por todos e não parece querer fazer muito para travar isso", diz Gunnar, o jornalista. E Andri Haraldsson, um jovem que filmou os protestos na capital, sublinha: "Os Panama Papers foram apenas a gota de água que a população precisava para mandar embora este governo".

Para Isak Winther, diretor criativo da maior empresa de publicidade da Islândia, o comportamento do agora ex-primeiro-ministro "é muito confuso e triste. Ele e o partido dele foram eleitos por nós e era suposto saberem usar os nossos impostos da melhor forma. E os deles também..."

Reuters

O país está em stand-by. De um lado o governo a tentar lavar as mãos e do outro a descrença total dos islandeses nos atuais representantes políticos.

A coligação que governa a Islândia desde 2013 tem 38 dos 63 assentos parlamentares, o que lhe permite chumbar a moção de censura que a oposição lançou esta sexta-feira. Mas não irá conseguir conter o protesto dos islandeses. Desde segunda-feira a praça do parlamento islandês tem sido abalada não só por panelas e colheres de pau, mas também apitos e... bananas - a Islândia não quer ser uma república das bananas.

Islândia. A tomada de poder dos piratas

Islândia. A tomada de poder dos piratas

Perante o possível cenário de eleições antecipadas, foi revelada durante a semana uma sondagem em que o Partido Pirata vence as eleições por larga margem de distância. Esta frente política tem a sua base num movimento internacional de ativistas e surgiu na Islândia em 2012, tendo conseguido eleger três deputados em 2013 - foi o primeiro país do mundo a dar força política a este partido. Em traços gerais, os seus membros defendem uma democracia direta, software livre, transparência política e internet acessível a todos.

A líder do partido na Islândia chama-se Birgitta Jonsdottir, é poeta e ativa defensora do Wikileaks. Dizem em artigos sobre ela que a sua palavra preferida é "revolução" e, como se sabe, revolução rima com vulcão e erupção. É fácil saber como começam, mas mais difícil é perceber quando terminam.

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