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Jantar como um príncipe

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Tem vitrais e frescos do século XVIII, uma escadaria principesca, bar e sete opções para jantar. Chega? O Palácio Chiado, antiga morada do Barão Quintela, abriu as portas no centro da capital. O espaço, luxuoso e imponente, vale a visita – e a oferta gastronómica diferenciada acompanha. Não saia de lá sem beber um “Farrobodó”, cocktail dedicado ao 1º Conde de Farrobo, cujas festas memoráveis deram origem à expressão

É a escadaria, à esquerda de quem entra, que nos rouba de imediato a atenção. No topo, um vitral do século XVIII, com o brasão da família Quintela, uma das proprietárias do Palácio, deixa passar a luz, envolvida por frescos de época. Nas paredes circundantes, os frescos e tetos trabalhados, recuperados segundo os padrões da época, transportam-nos para outro tempo, de luxo, fausto e exuberância. Ao cimo da escadaria de mármore, no acesso ao segundo andar, um imponente Leão alado, em talha dourada, pende do teto a 10 metros de altura, num delicado exercício de equilibrismo e engenharia. É o Leão de S. Marcos, o Leão de Veneza – mas não estamos em Veneza, num "palazzo" forrado a frescos de Tintoretto e tetos trabalhados, mas sim em Lisboa, no Palácio Chiado, que esta semana abriu ao público.

A imponente escadaria do Palácio Chiado com o vitral oitocentista e frescos de época

A imponente escadaria do Palácio Chiado com o vitral oitocentista e frescos de época

Luis Ferraz

Passar as imponentes portas do nº 70 da R. do Alecrim é fazer uma viagem no tempo, entre a arquitetura do século XVIII e as criações gastronómicas do século XXI. Nos 1200 m2 que ocupava o IADE há algumas décadas nasceram agora dois pisos que encerram um conceito diferente de estar e desfrutar de uma refeição. Em baixo, para quem tem mais pressa ou quer petiscar; em cima, para quem se quer demorar e fazer do ato de comer algo mais requintado...

Os dois andares do novo Palácio Chiado, 1200 m2 com sete opções diferentes de restauração

Os dois andares do novo Palácio Chiado, 1200 m2 com sete opções diferentes de restauração

Luis Ferraz

Cá em baixo, a primeira sala de estar é também o bar, onde pode beber um copo ao fim do dia ou antes de ir saír à noite. Há cocktails que vale a pena provar e que revisitam um pouco da História do Palácio: o indispensável "Farrobodó", em honra do proprietário Conde de Farrobo (já lá iremos); o "Monteiro dos Milhões", outro proprietário excêntrico do Palácio; o "Marquês de Pombal", dedicado à memória do 9º marquês de Pombal, que ali nasceu e foi batizado em 1930 - mantendo-se a propriedade na família ainda hoje; ou o "À Grande e à Francesa", a lembrar o general Junot, que durante nove meses se instalou no Palácio e promoveu um estilo de vida luxuoso, apesar da miséria que reinava à sua porta.

No bar, cá em baixo, peça um cocktail "Farrobodó", "Monteiro dos Milhões" ou "À Grande e À Francesa". Todos contam parte da história do Palácio

No bar, cá em baixo, peça um cocktail "Farrobodó", "Monteiro dos Milhões" ou "À Grande e À Francesa". Todos contam parte da história do Palácio

Luis Ferraz

Esta sala inicial é também aquela onde se pode sentar depois de se dirigir à antiga cozinha do palácio e compor a sua refeição entre as quatro opções à escolha: o Meat Bar by Atalho Real (carnes de boa qualidade), o Burguers &Feikes by U-Try (hambúrgueres), o Local Chiado by Your Healthy Kitchen (comida saudável) e o Páteo no Palácio by Páteo do Petisco (petiscos). O espaço, pequeno, promete encher depressa em dias de maior movimento.

Lá em cima, num ambiente que se pretende muito mais calmo e sofisticado, tem três restaurantes à escolha: a Espumanteria do Mar (by Espumanteria do Cais), o Delisbon e o Sushic. Todos estes espaços conceberam uma carta específica para este espaço, pensado para ser vivido com um todo - por exemplo, pode comer umas ostras e beber um copo de espumante como entrada, na Espumanteria do Mar, cujo conceito é o mar português, passar para uma tábua de queijos e presuntos no Delisbon, na bela Sala das Sabinas, ao lado, e acabar a jantar sentado à mesa, no Sushic. Os dois primeiros espaços têm barras para comer ao balcão e a Espumantaria uns agradáveis recantos com sofás de veludo que fazem lembrar namoradeiras e aproveitam os nichos naturais do palácio.

A magnífica sala das Sabinas, no piso de cima, alberga o Delisbon e aposta na charcutaria, nos queijos e no presunto 5 Jotas

A magnífica sala das Sabinas, no piso de cima, alberga o Delisbon e aposta na charcutaria, nos queijos e no presunto 5 Jotas

Luis Ferraz

"Tentámos recriar um pouco da excentricidade luxuosa das festas que aqui existiram no palácio no século XVIII", conta Nuno Correia Pereira, um dos responsáveis do espaço Espumanteria do Mar. Nuno refere-se às faustosas festas e bailes promovidas pelo Conde de Farrobo, no início de 1800, e que foram de tal forma memoráveis que deram origem à expressão, que ainda hoje perdura, de "farrobodó". Os duques de Abrantes e o general Junot e a sua mulher, Laura Permon, que ali se instalaram aquando da primeira Invasão Francesa, também promoveram excêntricas festas. O Palácio Quintela era especialmente conhecido por albergar uma aparatosa festa no dia de Reis, em janeiro.

A história do Palácio

Mandado construir por Luís Rebelo Quintela sobre as casas arruinadas pelo Terramoto de 1755 que pertenceram aos condes do Vimioso e aos marqueses de Valença, o Palácio Quintela foi posteriormente ampliado até ocupar todo um quarteirão na Rua do Alecrim (nºs 57 a 72). Ao 1.º barão de Quintela sucedeu o seu filho, 1.º conde de Farrobo, que vivia uma vida excêntrica e acabou por falir. O Palácio foi depois adquirido por Mendes Monteiro e em seguida herdado por António Carvalho Monteiro, o construtor da Quinta da Regaleira, em Sintra, e conhecido pela sua fortuna como "o Monteiro dos milhões". Este Carvalho Monteiro teve uma filha, Maria da Nazaré Monteiro de Almeida, que casou em 1927 com o 8º marquês de Pombal, cujos descendentes ainda mantêm a propriedade na família.

Parte do edifício (cerca de 1200 m2) albergou o IADE, Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing, de 1970 a 1988, mantendo-se depois ali como pólo expositivo. Há dois anos que o Palácio estava fechado ao público. Os sócios Duarte Cardoso Pinto e os irmãos Gustavo e António Paulo Duarte acharam que seria uma boa oportunidade de negócio. Arrendaram aquela área por 20 anos, num investimento 100% privado, numa perspetiva de devolver o espaço aos lisboetas - e claro, de fazer negócio num dos bairros mais centrais e turísticos da cidade, o Chiado.

As obras demoraram seis intensos meses, sob a batuta do arquiteto Frederico Valsassina e com uma equipa de restauro de 35 pessoas, coordenada por Elvira Barbosa. A ordem foi para restaurar tudo segundo os padrões e cores originais, devolvendo ao edifício toda a riqueza e fausto que fazem dele Património Nacional. Seguiram-se cinco meses de obras de adaptação, para transformar um prédio de habitação num espaço de restauração... sem poder pregar um prego.

Foi essa mesma riqueza que constituiu também o principal desafio do projeto. Como instalar o equipamento necessário (exaustores, cablagens...) a uma cozinha de um restaurante? A solução foi elevar o chão e fazer passar tudo por baixo. E adquirir equipamento topo de gama, para garantir o nível de qualidade pretendido.

A terceira sala do piso de cima, onde está instalado o Sushic, é a mais espaçosa, com mesas que permitem refeições sentadas

A terceira sala do piso de cima, onde está instalado o Sushic, é a mais espaçosa, com mesas que permitem refeições sentadas

Luis Ferraz

O jardim das delícias

Há iguarias um pouco por todo o lado, a acompanhar as divindades que se espraiam pelas paredes e pelo teto. Na Espumanteria do Mar, onde o chef é Vitor Hugo (o chef-executivo do 100 Maneiras), há ostras (nacionais), cocktails de espumante com variáveis quase infinitas (recomenda-se o de maracujá e erva príncipe), um "minestrone" de garoupa, clorofila e camarão de Espinho; "tártaro de lagostim com pera abacate e rebentos de amaranto" ou "carpaccio de vieiras com azeite trufado". No Sushic, as propostas são igualmente tentadoras. O restaurante japonês que foi classificado como "o 2º melhor sushi do mundo fora do Japão" decidiu expandir a sua área e abraçar o universo asiático. O resultado não podia ser melhor: há um sopa 'tom yum' com lavagante, prato tradicional tailandês, que é de chorar; os "gunkan white" são de sabor assinalável; há um original tempura negro de choco com aroma mediterrânico, a fazer lembrar choco frito; tártaro asiático com ovo de codorniz; e tempura de carapau com mousse de caldeirada, entre outras delícias. O espaço vai contar também com um 'sake bar'. E mais não revelamos, para que possa descobrir por si os encantos deste novo espaço e as originais ofertas que ele tem para o seu palato. Entre frescos e mitos, esta viagem no tempo vale sem dúvida a visita.

Horário: domingo a quarta das 12h às 24h e quintas a sábados das 12h às 2h