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A geração atraiçoada

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Fosso geracional. Dados inéditos mostram que o rendimento dos jovens está a cair há 20 anos em relação aos mais velhos. A desigualdade nunca foi tão grande. E pode piorar: a pobreza ameaça a velhice da geração milénio

A julgar pela evolução dos rendimentos em Portugal nas últimas duas décadas, a vida dos mais jovens tem sido sempre a perder. Em 20 anos, não pararam de se afastar da média do país. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) até agora nunca divulgados e apurados em exclusivo para o Expresso, o fosso em relação às gerações mais velhas em idade ativa tem vindo a agravar-se, criando uma situação de desigualdade sem precedentes.

“A evolução do rendimento dos jovens nunca esteve tão afastada do crescimento médio dos rendimentos do país”, sublinha o economista Carlos Farinha Rodrigues, professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), comentando os dados obtidos através de um cruzamento inédito entre os rendimentos e os escalões etários, partindo do Inquérito às Despesas das Famílias.

Entre 1989 e 2009 (últimos dados disponíveis), os rendimentos dos portugueses (que incluem salários, pensões e apoios sociais, como o abono de família, por exemplo) subiram 80%. Mas a melhoria não chegou aos bolsos de todos por igual: enquanto os mais velhos viram o dinheiro aumentar bem acima da média do país — mais 13 pontos percentuais para as pessoas entre os 45 e os 64 anos e mais 27 para os que têm acima de 65 anos —, os mais novos ficaram muito abaixo.

Os jovens com menos de 30 anos viram o rendimento crescer 62%, ou seja, menos 18 pontos percentuais do que a média. E os que têm entre 30 e 44 anos não ficaram muito melhor: o aumento foi de 65%, 15 pontos abaixo da média.

A crise só veio agravar as desigualdades. Olhando apenas para a evolução dos salários entre 2009 e 2013, a partir dos Quadros de Pessoal do Ministério do Trabalho, conclui-se que todos os portugueses em idade ativa viram diminuir o ganho médio mensal, que caiu 3% naquele período. Mas a perda também não afetou todos por igual. Os mais penalizados foram novamente os mais jovens: os que têm entre 25 e 29 anos, que perderam 6%, e sobretudo os que têm entre 30 e 34, que ficaram com menos 9%. No caso dos mais velhos, o decréscimo foi inferior à média.

“Os dados revelam claramente uma perda relativa do rendimento das famílias e dos indivíduos mais jovens no conjunto da sociedade. Demonstram a dificuldade crescente de inserção dos jovens no mercado de trabalho e mostram que essa inserção, quando acontece, é feita em condições de crescente precariedade e de redução salarial”, conclui Farinha Rodrigues.

Portugal é um dos países europeus onde os jovens mais ficaram a perder nos últimos anos. Comparando os dados nacionais com o levantamento publicado em março no “The Guardian”, só em Itália a quebra sentida por esta geração foi maior (ver gráficos). Mas o panorama para os mais novos não tem sido animador em praticamente lado nenhum. O jornal britânico afirma mesmo que “à exceção de períodos de guerra ou marcados por desastres naturais, esta é, provavelmente, a primeira vez na história das sociedades industrializadas em que o rendimento dos jovens desce de forma tão significativa em comparação com o resto da sociedade”.

É uma geração que a economia atraiçoou. O desemprego, a precariedade, os baixos salários e a instabilidade profissional condicionam o presente e hipotecam o futuro da maior parte dos jovens nascidos nas décadas de 80 e 90. “A incerteza tornou-se uma constante da vida quotidiana desta geração, afetando a sua capacidade de fazer escolhas relativas a aspirações consideradas básicas há 20 anos, mas que agora são muito mais problemáticas, como sair de casa dos pais, iniciar uma vida conjugal autónoma ou poder ter filhos”, explica o sociólogo Renato Carmo, investigador do Observatório das Desigualdades.

Adiar estes projetos para idades cada vez mais tardias tornou-se inevitável. E muitas vezes a realidade obriga a ter de voltar atrás, mesmo depois da decisão de avançar ter sido finalmente tomada. “Essa é, aliás, uma marca da atual geração: a reversibilidade a que estão sujeitos os estatutos sociais que vão assumindo ao longo da vida. Sai-se de casa dos pais correndo o risco de lá voltar, experimentam-se relações e conjugalidades, deixa-se de ser estudante com consciência da necessidade de mais tarde voltar à escola, é-se trabalhador e no dia seguinte está-se desempregado, estágios, formações e afins acumulam-se num percurso de vida cada vez mais labiríntico”, resume o vice-coordenador do Observatório Permanente da Juventude, Vítor Ferreira (ver entrevista abaixo).

Elevador social avariado?

Para Fernando Ribeiro Mendes, professor do ISEG e ex-secretário de Estado da Segurança Social do Governo de António Guterres, o que mais diferencia um jovem de 30 anos hoje de um jovem que tinha a mesma idade há duas décadas “é a expectativa perdida de que a sua vida em Portugal possa ser melhor daquela que tem sido ou foi a dos seus pais”. Daí que “a propensão à emigração e a descrença no futuro do país tendam a aumentar”, diz.

Nos últimos anos, enraizou-se a ideia de que o “elevador social” que tradicionalmente sempre teve um sentido ascendente para as novas gerações tinha parado ou mesmo começado a descer. Analisando apenas os salários, isso não é forçosamente verdade. Apesar da quebra provocada pela crise nos anos mais recentes, os ordenados dos jovens entre os 25 e os 29 anos subiram de €723 para €878 entre 1991 e 2013, o que corresponde a um aumento de 21% — o mesmo de que beneficiaram os que têm entre 30 e 34 anos (ver gráfico). A questão é que nem tudo se resume aos vencimentos. O país mudou radicalmente.

A história de Cristina e Miguel Machado, mãe e filho, ambos engenheiros civis, de 57 e 31 anos, é ilustrativa disso. A atual presidente do Conselho Nacional do Colégio de Engenharia Civil acabou o curso em 1981 e começou a ganhar à volta de dez contos, o que equivale hoje a cerca de 450 euros. Já o filho terminou a licenciatura, também no Instituto Superior Técnico, em 2009, e recebeu 750 euros como primeiro ordenado. “Na minha altura, o início da vida também não era fácil, mas nós tínhamos uma grande vantagem: não consumíamos o que se consome hoje.

Durante algum tempo não tivemos sofá em casa, e os eletrodomésticos eram apenas o frigorífico e o fogão. Vivia-se com menos. Hoje o que é considerado básico é muito mais.” Também por isso, e porque o emprego deixou de ser para a vida e o desemprego aumentou (hoje é mais do dobro do registado no final dos anos 80), as gerações mais novas precisam agora de mais apoio. “Hoje ajudo mais os meus filhos do que aquilo que fui ajudada”, conta Cristina Machado.

Para o sociólogo Renato Carmo, “as relações de solidariedade podem aprofundar-se no contexto familiar, já que são os pais e avós que acabam por ajudar financeiramente os jovens”. No mercado de trabalho, porém, a crescente desigualdade entre as gerações pode criar conflitos: “As diferentes situações contratuais e salariais podem gerar fortes sentimentos de injustiça no caso dos mais jovens, que perante as mesmas ocupações e funções não só recebem menos como se encontram menos protegidos.”

Além de comprometer o presente, a economia também pode trair o futuro dos jovens de hoje. A perda relativa de rendimentos registada nas últimas décadas dificilmente será recuperada. Fernando Ribeiro Mendes, autor da obra “Conspiração Grisalha”, vaticina: “Baixos salários e precariedade dos empregos marcarão cada vez maior parte do ciclo de vida ativa de cada jovem, baixando futuramente a média dos rendimentos pensionáveis, isto é, que contam para a formação da pensão. A pobreza ameaça, assim, a velhice desta geração.”

Sara Catela Monteiro, 27 anos, Psicóloga,sem conseguir trabalho na área em Portugal, 
emigrou esta semana para o Reino Unido
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Pedro Gomes, 29 anos, Doutorando em História Contemporânea, Bolseiro FCT, €980 líquidos
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Patrícia Fernandes, 28 anos, Ciências da Comunicação, Contrato sem termo, €1150 líquidos
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Rafael Martinho, 29 anos, Professor de educação física e treinador, Recibos verdes, €1000 líquidos
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Leonor Coutinho, 25 anos, Gestora, Estágio IEFP, €564 líquidos
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Luís Fonseca, 29 anos, Enfermeiro, Contrato sem termo, €1119 líquidos
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TRÊS PERGUNTAS A Vítor Ferreira

Sociólogo e vice-coordenador do Observatório Permanente da Juventude

A geração mais jovem foi a que mais perdeu do ponto de vista económico e as perspetivas de futuro não são melhores. Que implicações é que isso tem?
É muito mais difícil e arriscada a tomada de decisão dos jovens adultos de hoje relativamente a projetos como sair de casa dos pais, comprar casa ou constituir família. Não por acaso, são projetos que vão sendo adiados e cuja realização vai acontecendo na medida das condições materiais de cada jovem, sempre com o espectro de poderem ser revertidas a qualquer momento. Essa é, aliás, uma marca da atual geração: a reversibilidade a que estão sujeitos os estatutos sociais que vão assumindo ao longo da vida. Sai-se de casa dos pais correndo o risco de lá voltar, experimentam-se relações e conjugalidades, deixa-se de ser estudante com consciência da necessidade de mais tarde voltar à escola, é-se trabalhador e no dia seguinte está-se desempregado, estágios, formações e afins acumulam-se num percurso de vida cada vez mais labiríntico, em itinerários sociais sem grandes marcos de orientação. Por outro lado, face a essa ‘desfuturização’ da sua vida, os jovens desta geração acabam por ser mais ‘presentistas’ do que os de gerações anteriores, ou seja, acabam por valorizar muito mais as experiências que lhes são proporcionadas no presente e as respetivas gratificações, do que valorizar projetos de futuro, muito mais difíceis de delinear e concretizar e com gratificações incertas.

Em que é que mais difere a vida de um jovem de 30 anos hoje da vida de um jovem com a mesma idade há 20 anos?
Em geral, os jovens há 20 anos tinham expectativas muito mais elevadas e definidas face ao seu futuro, de mobilidade social, de crença no valor do diploma escolar, nomeadamente do diploma de ensino superior, de acesso e progresso no mercado de trabalho, inclusive de remuneração. Ao mesmo tempo, até por via da presença maciça das novas tecnologias da informação e comunicação entre a mais jovem geração, mas também da relativa democratização do acesso ‘à viagem’ (voos low-cost, diferentes formas de alojamento a baixos custos, programas de intercâmbio estudantil), é uma geração que tende a ter “mais mundo” nos seus horizontes, e a ter acesso a mais e diversificadas experiências na sua biografia, bastante mais segmentada, despadronizada e desritualizada do que no passado.

O fosso de rendimentos entre os mais jovens e os mais velhos está a aprofundar-se em Portugal, como no resto da Europa. Isso sente-se de alguma forma no relacionamento entre as gerações?
Ainda há poucos estudos que nos permitam fazer essa avaliação em Portugal. Eu diria que no relacionamento intergeracional dentro da família estas condições terão aproximado as gerações, nomeadamente porque tendem a manter-se mais tempo juntas no curso de vida, inclusive na mesma habitação. As relações entre avós, pais e filhos acabam por ser mais verticalizadas do que no passado, e a capacidade de influência das gerações atuais sobre os comportamentos e opiniões das gerações que se lhes precedem é muito maior. Ou seja, a troca intergeracional em termos de valores e práticas é muito mais intensa do que entre as gerações passadas. Por outro lado, também se constroem redes de solidariedade intergeracional dentro da família que atenuam situações e momentos mais frágeis e difíceis, como situações de desemprego por exemplo. Já no campo laboral, acho que a desigualdade que se faz sentir entre diferentes gerações poderá gerar mal-estar e sentimentos de injustiça relativa, quando muitas vezes numa mesma organização ou empresa os mais jovens assumem as mesmas tarefas ou até tarefas mais relevantes e exigentes (muitas vezes relacionadas com novas competências, digitais e outras) que os trabalhadores mais velhos, mas com remunerações e formas contratuais bastante mais desfavorávei

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 2 abril 2016