Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“O homem é um animal de hábitos”

  • 333

MANDEL NGAN / AFP / Getty Images

A propósito do Dia Mundial da Saúde que se comemora esta quinta-feira, o Expresso publica um texto do presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos

Jaime T. Mendes

In illo tempore, quando comecei a trabalhar no Hospital de Santa Maria, em certas alas de enfermarias (que ainda hoje tenho pudor de citar o piso) não existiam lavatórios nas salas, porque alguém tinha achado mais importante substituí-los por banheiras para os bebés. Longa foi a luta para conseguirmos que fossem trocadas por lavatórios. A consequência lógica é que se foi perdendo o hábito de lavar as mãos entre a observação de dois doentes. Como Charles Dickens, “o homem é um animal de hábitos”. E, com urgências apinhadas de macas, fica ainda mais difícil imaginar como é que se consegue fazer isto.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) calculou em mais de 60% os profissionais de saúde que não lavam as mãos depois de examinar um paciente, passando assim alegremente os micróbios de um para outro doente na sua faina quotidiana de observação e cuidados prestados numa enfermaria.

A Medicina e os seus conciliábulos têm destas coisas, um gesto de higiene tão simples e que estava enraizado na nossa gente tem, desde há 10 anos, uma campanha anual mundial no dia 5 de Maio: "Salve Vidas, Lave As Mãos".

Hábito, esse, que estava arreigado na população: todos os da minha idade – e mesmo mais jovens – que fizeram visitas domiciliares lembram-se que, após observarmos um doente, a dona da casa encaminhava-nos para a casa de banho onde lavávamos as mãos e com certa vaidade oferecia uma toalha de uma brancura alva para as limpar.

Podemos também dizer com propriedade que o hábito não faz o monge e não é por usarmos bata branca que somos imunes ao transporte de bactérias. Visitei muitos hospitais, como dirigente da Ordem dos Médicos, e aqueles em que os médicos a despem para irem comer aos refeitórios são uma ilhota num enorme universo dos hospitais portugueses.

E a limpeza dos hospitais, como é que está atualmente? Com restrições de contrato de pessoal. No filme "The Spirit of' 45", pela palavra de uma antiga enfermeira chefe, acusa-se as restrições no pessoal de limpeza com o aumento das infeções hospitalares.

A sentença está dada: 4500 mortos/ano por infeções hospitalares em Portugal, o dobro da média europeia.

Para isso, concorre o uso e abuso de antibióticos, como foi dito durante a apresentação do relatório Portugal – Prevenção e Controlo de Infecções e Resistência aos Antimicrobianos 2015.

O secretário de Estado da Saúde, Manuel Delgado, prometeu incentivos financeiros aos hospitais que apresentem melhores resultados. Efeitos dos tempos do "Homo Economicus". Talvez resulte…

A educação médica, pré e pós graduada, tem de passar obrigatoriamente para o uso de antibióticos só com prova ou pelo menos forte suspeição de uma infeção bacteriana. Não se pode ser tentado a utilizar o último antibiótico da moda, a maioria das vezes influenciado pela indústria farmacêutica. E é de notar que há quase três décadas que não se descobre uma nova fórmula.

Muitas vezes é esquecido que, nesta luta de combate aos microrganismos resistentes aos antibióticos, têm também de estar envolvidos os médicos veterinários e a indústria alimentar.

Não esqueçam: lavem as mãos pela vossa saúde!