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Cada hora de voo de um Kamov custou 35 mil euros

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António Pedro Ferreira

O negócio dos helicópteros de combate aos incêndios já vai numa fatura de pelo menos 348 milhões de euros, 17 vezes mais do que se investe anualmente na prevenção dos incêndios. Apesar do investimento, só três estão a voar. Para onde foi o dinheiro? Saiba mais na “Visão” desta semana

Sílvia Caneco, jornalista da revista Visão

Os seis helicópteros Kamov comprados pelo Estado português em 2006, por cerca de 50,9 milhões de euros, apenas três estão a voar. E para isso foi preciso gastar em 2015 2,7 milhões de euros em reparações. Outros dois precisam de arranjos de 8 milhões de euros e um sexto está acidentado desde 2012, sem que desde então se tenham apurado as causas que levaram a uma alegada falha dos motores. E nem sequer é a primeira vez que os meios aéreos de combate aos fogos – que também fazem transporte de doentes em emergência médica – estão inoperacionais. Há falta de dinheiro para sustentar os Kamov? Não é esse o caso.

A “Visão” fez as contas e concluiu que entre aquisição, gestão, manutenção e reparação dos helicópteros Kamov foram gastos, no espaço de dez anos, pelo menos 348,8 milhões de euros, o equivalente ao que as associações de bombeiros recebem do Estado em 13 anos e cerca de 17 vezes mais do que se gasta anualmente na prevenção dos incêndios florestais. Tendo em conta que os Kamov voaram cerca de 10 mil horas desde que estão ao serviço do Estado português, cada hora voada custou aos contribuintes 34,8 mil euros.

Os cálculos da “Visão” englobam os custos de aquisição das aeronaves, gastos com a manutenção durante oito anos, com peças compradas extra-contrato de manutenção, com o orçamento destinado à Empresa de Meios Aéreos (EMA) entretanto extinta, e com as reparações necessárias para voltar a pôr a voar helicópteros que terão chegado, a 2015, com “falhas graves” de manutenção. E a enorme factura ainda não está fechada: os gastos do Estado com a manutenção em 2014 e 2015, por exemplo, ainda não foram calculados; os custos de aluguer de aeronaves de substituição nos momentos em que os Kamov não estiveram disponíveis são também difíceis de calcular.

As contas são apenas uma parte de uma longa história de um negócio ruinoso que está a ser investigado pelo Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa. Dos emails de Miguel Macedo, suspeito de ter beneficiado a nova empresa que faz a manutenção dos helicópteros (Everjets), às suspeitas de uso de peças inadequadas pela antiga empresa responsável pela manutenção (a Heliportugal). A “Visão” revela ainda indícios de que, durante cerca de um ano, os helicópteros Kamov andaram a combater incêndios e a transportar doentes sem cumprir todas as normas de segurança. Emails da Kamov e documentos da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) a que a “Visão” teve acesso indiciam que o fabricante russo deu ordens para substituição de peças com anomalias que não foram cumpridas. A história detalha está na edição da “Visão”, esta quinta-feira nas bancas.

Saiba mais na VISÃO desta semana