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“Pedi desculpa ao homem que me violou por lhe ter chamado violador”

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O que é que acontece quando uma rapariga jovem, bonita e alcoolizada tem relações sexuais com vários rapazes numa festa? No caso de Jessica, o resultado foram anos de auto-recriminação, visitas a psicólogos e insultos de colegas que lhe chamavam oferecida. Jessica sobreviveu silenciosamente a uma violação - e culpou-se por isso durante 17 anos

d.r.

Se lhe perguntarmos qual é a definição de violação, tem dificuldades em responder? Parece um conceito óbvio, mas há demasiados casos em que coisas que são vistas como atenuantes para os agressores se tornam sombras de culpa para as vítimas. Elas fazem com que o trauma seja maior, com que a vítima ache que se calhar devia ter bebido menos, ou que devia ter-se mostrado mais hostil aos avanços do agressor, ou que a sua reputação e até a roupa que vestia fizeram com que merecesse ser violada.

Em muitos casos, é esse o factor que leva a vítima a calar-se e suportar a dor sozinha. Jessica Knoll, de 32 anos, fê-lo durante os últimos 17 - não só guardou para si o que lhe aconteceu como se culpou por isso, convencendo-se de que se tivesse “o guarda-roupa certo, um trabalho glamouroso e um anel no dedo antes dos 28 anos” recuperaria o controlo da sua reputação e da sua própria voz.

Apesar de ter sido violada por um grupo de rapazes quando tinha apenas 15 anos, Jessica só se apercebeu do que lhe tinha acontecido e da razão pela qual se sentia tão zangada aos 22, quando a sua psicóloga lho explicou. A sua forma de lidar com isso foi escrever um livro que é agora um best-seller, “Luckiest Girl Alive”, e que é uma biografia não assumida – ou era até esta terça-feira, quando Jessica publicou um ensaio na newsletter feminista Lenny Letter em que explica que se o seu romance parece real é porque qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

GRANDE ECRÃ. “Luckiest Girl Alive” já vendeu 450 mil cópias. A atriz Reese Whiterspoon vai interpretar Ani, a protagonista, na adaptação para o cinema

GRANDE ECRÃ. “Luckiest Girl Alive” já vendeu 450 mil cópias. A atriz Reese Whiterspoon vai interpretar Ani, a protagonista, na adaptação para o cinema

Alex Wong/Getty Images

No livro, a protagonista Ani tem 28 anos, tantos como os que Jessica tinha quando o escreveu. Escreve para uma revista feminina, a “The Women's Magazine”, para dar conselhos sobre sexo; na realidade, Jessica foi editora da “Cosmopolitan” durante cinco anos. E tal como na vida real, Ani vive uma vida de aparente sucesso até ser obrigada a confrontar-se com a violação de que foi vítima num regresso à sua antiga escola, onde filma um documentário - no caso de Jessica, a realidade chegou com a publicação do livro e as insistentes perguntas dos fãs: “Como é que escreve de uma forma tão realista? Entrevistou vítimas de violação?”.

A pista estava escondida na dedicatória do livro desde o princípio: “A todas as Ani do mundo: eu sei”. Ninguém percebeu até esta semana a profundidade daquela afirmação. Jessica sabe, porque passou por isso e agora decidiu contar. Para quê? Segundo a própria, “para que as pessoas que passam pelo mesmo sintam que não têm de ter vergonha”.

Mas a questão mais importante continua por responder: porque é que uma vítima deve ter vergonha de contar a sua história? A resposta pode estar numa cultura que culpa as vítimas e arranja desculpas para os agressores. “Ninguém me tratava como uma vítima, mas como culpada, como se merecesse aquilo que me aconteceu. Convenci-me de que nada de mal me tinha acontecido - eu é que tinha feito algo de mal”, explica Jessica ao “New York Times”.

Na época em que tudo aconteceu, Jessica era uma menina de 15 anos que andava num colégio privado, praticava desporto e dança e tinha muitos amigos – mas nenhum chamou ao abuso de que foi vítima violação. “Tive medo de que as pessoas não chamassem violação àquilo por que passei porque durante muito tempo ninguém o fez. (…) Eu chamei-lhe violação uma vez, numa dicussão com um dos rapazes que o fizeram quando estava bêbeda. Dias depois, com medo de que tudo voltasse, liguei-lhe e pedi-lhe desculpa. Pedi desculpa ao homem que me violou por lhe ter chamado violador.”

O rapaz era o rapaz de quem a Jessica de 15 anos gostava, o mesmo que se encontrava na festa a que foi naquela noite. Beberam, conversaram, seduziram-se. Ela bebeu até ficar inconsciente. A descrição do que se passou a seguir, publicada sem censuras na Lenny Letter desta terça-feira, é crua e obriga-nos a desviar o olhar em certos momentos. “Acordei no chão de um quarto, com a cabeça de outro rapaz entre as minhas pernas. (…) Sei que foi a dor que me acordou. Estava a gemer antes de conseguir abrir os olhos. O rapaz estava lá, a fazer movimentos em direção a mim, para trás e para a frente. Caí de joelhos na casa de banho, a sanita cheia de sangue. Era muito nova para perceber, pensei que me tinha cortado.”

Quando acordou na manhã seguinte, sem reconhecer a divisão em que se encontrava, também não reconheceu um terceiro rapaz ao lado de quem estava deitada. “Ele disse piadas sobre o quão ressacado estava, quão louca tinha sido a festa, que a minha roupa interior estava lá em baixo e por isso não a ia encontrar. Disse que eu me tinha cortado na mão com uma garrafa partida e deixado um rasto de sangue na parede enquanto deambulava em frente a toda a gente, nua da cintura para baixo.”

No dia a seguir, Jessica recorreu a uma clínica para pedir a pílula do dia seguinte, e foi então que pela primeira vez sentiu vergonha do que lhe tinha acontecido, “com o coração em brasa”. “Tinha 15 anos e precisava de orientação e proteção, que me devolvessem a voz. Contei tudo a uma médica, uma mulher, e quando perguntei se era violação ela disse que não tinha qualificações para responder a isso.”

Seguiram-se meses e anos de inferno para Jessica. Os colegas chamavam-lhe oferecida e uma professora chegou a fazer o mesmo em plena aula. “Qual era a utilidade de me fazer ouvir se em resposta só tinha o meu eco solitário?” Concentrou-se na sua reinvenção: a ideia de acabar o curso de Inglês, ter uma vida estável, uma carreira de sucesso parecia-lhe a forma de escapar aos seus demónios.

HISTÓRIA VERÍDICA. O livro que conta a história da sua violação foi publicado em maio de 2015, mas só agora Jessica ganhou coragem para contar a triste realidade que a inspirou

HISTÓRIA VERÍDICA. O livro que conta a história da sua violação foi publicado em maio de 2015, mas só agora Jessica ganhou coragem para contar a triste realidade que a inspirou

DR

“A primeira pessoa que me disse que tinha sido violada foi a minha psicóloga, aos 22 anos. A segunda foi a minha agente, só que ela estava a falar da protagonista do meu livro.” O livro que lhe deu a libertação e que touxe a coragem para contactar as editoras da Lenny Letter, a realizadora e escritora Lena Dunham e a produtora Jenni Konner, e escrever o ensaio que lhe está a trazer a tão ansiada voz.

“É muito poderoso poder dizer que isto é o que me aconteceu, recuperar o controlo da minha própria história”, explica Jessica. Contactou as pessoas certas: foi no ano passado que Lena, feminista convicta, lançou o seu livro “Não sou esse tipo de miúda”, no qual relata uma situação parecida que aconteceu no campus da sua universidade e que demorou a ser reconhecida como violação por envolver uma rapariga e muito álcool.

“Já publiquei muitos trabalhos que me tocaram, mas nada me emocionou tanto como o ensaio de Jessica”, detalha Lena no editorial da newsletter desta semana. “Conforto-me imenso a imaginar um universo paralelo em que a Lena de 20 anos lê este ensaio, percebe que foi vítima de violação e escapa a anos de auto-recriminação”, prossegue. “Contando a sua história, Jessica abre caminho para tantas outras que continuam por contar. Ela emancipou um exército de experiências e devolveu a estas sobreviventes as suas vozes.”