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Os inacreditáveis desafios de magreza extrema que estão a varrer as redes sociais

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MAGREZA EXTREMA. A indústria da moda continua a promover maioritariamente a imagem da mulher muito magra

CHINA PHOTOS/ GETTY IMAGES

São tempos estranhos para os estereótipos de beleza feminina: as modelos plus-size estão na moda, o exercício físico também, mas a magreza extrema continua a ser um objetivo para muitas mulheres. Afinal, porque é que as redes sociais estão cheias de imagens pouco saudáveis e fotografias que mostram cinturas demasiado finas?

Mariana Lima Cunha

O primeiro sinal de alarme surgiu com a obsessão pelo “thigh gap”, ou o espaço entre as coxas que supostamente determina se uma pessoa é magra ou não. A seguir, a moda de tentar dar a volta à cintura com um braço, tocando no próprio umbigo, invadiu as redes sociais com a hashtag #thininspiration (qualquer coisa como inspiração para ser magra). E como os números da balança não chegam para o mundo do Instagram, mais recentemente começaram a aparecer as fotografias de jovens a colocar uma folha A4 diante da cintura (a imagem merece publicação nas redes sociais se a cintura for mais fina do que o pedaço de papel) ou a comparar a largura dos dois joelhos juntos com a de um iPhone6 Plus.

São tempos estranhos para os estereótipos de beleza feminina. Estarão as supermodelos muito magras, estilo Victoria's Secret, a perder terreno para as mulheres com curvas que enchem as redes sociais exibindo orgulhosamente um corpo diferente, como Kim Kardashian ou Nicky Minaj? Serão as próximas capas de revista ilustradas pelas modelos de fitness que agora encorajam as raparigas mais novas a pensarem na saúde antes de tentarem perder peso radicalmente, a trocarem dietas rígidas por granola e papas de aveia e a praticarem desporto?

Poderia pensar-se que as mulheres muito magras vão desaparecer das capas de revista para ceder definitivamente o lugar às modelos plus-size e às desportistas, mas a mudança pode não estar para breve, como demonstram as modas preocupantes que tomam conta das redes sociais (e que já obrigaram o Instagram e o Tumblr a proibir "imagens que promovam ou glorifiquem" distúrbios alimentares, no ano passado).

"O estereótipo de beleza para as adolescentes ainda é muito o da magreza. Há pequenos movimentos de emancipação, mas a magreza ainda está muito marcada e há várias indústrias que fomentam este estereótipo", explica o psicólogo Nuno Sousa, especializado em doenças do comportamento alimentar. No entanto, a associação entre as imagens de cinturas magras que se multiplicam nas redes sociais e doenças como bulimia ou anorexia não pode ser automática, acrescenta o médico.

ESTEREÓTIPOS. As modelos plus-size ganharam algum terreno nos últimos tempos, mas continuam a ser menos solicitadas

ESTEREÓTIPOS. As modelos plus-size ganharam algum terreno nos últimos tempos, mas continuam a ser menos solicitadas

BERTRAND GUAY/AFP/GETTY IMAGES

"As pessoas com perturbações alimentares têm sentimentos de necessidade de controlo, de medo de perder o controlo. Neste caso, o paciente esconde o corpo porque habitualmente é alvo de crítica por quem está de fora. Estes doentes querem sentir que os outros os deixam ser como querem ser e que têm controlo sobre a vida e o corpo", detalha Nuno Sousa.

Feita a distinção, o que é que caracteriza então as pessoas que participam nestes movimentos virais, exibindo com orgulho a sua magreza nas redes sociais? "Estes fenómenos têm que ver com a necessidade de integração em grupo, que é natural principalmente nos adolescentes. Há muitas raparigas que, para sentirem que fazem parte de um grupo social que é valorizado pelas suas características estéticas, adotam comportamentos para atingir esse estereótipo idealizado." A internet, defende o clínico, não criou esta tendência - ela é natural na adolescência, altura em que os jovens tentam integrar-se e identificar-se com os seus pares -, mas ofereceu bases para que ela se acentuasse radicalmente.

"É reflexo de os adolescentes cada vez mais fazerem uma socialização online, e tentarem colar-se a estas modas na internet. Na internet é mais fácil dar um aspeto bonito a uma fotografia. No contacto social há imensos elementos que entram no balanço, que por vezes impedem que uma rapariga bonita e popular seja tão idealizada porque tem outros aspetos mais negativos. Na internet é fácil manipular, dando a ilusão de haver vidas perfeitas."

O resultado, prossegue Nuno Sousa, é o de um comportamento "patológico" que traduz uma necessidade de estes adolescentes, maioritariamente do sexo feminino, se sentirem valorizadas. "As raparigas não estão a valorizar-se por aspetos espontâneos e autónomos, mas em função de um conceito idealizado. Acabam por deixar de ser quem são para passarem a adotar características e comportamentos daquilo que elas interpretam que traz mais valorização social."
Uma visita rápida ao Instagram e ao Twitter mostra milhares de imagens preocupantes com a tal folha A4 em branco ou o iPhone em frente aos joelhos. A moda começou entre as jovens asiáticas, mas a internet não tem pátria e as suas tendências também não (veja AQUI os resultados da pesquisa pela hashtag #A4WaistChallenge).

Justiça seja feita às redes sociais: as respostas aparecem tão rapidamente como as modas, e as respostas a estas tendências são implacáveis. No Twitter, uma internauta faz pouco da moda da folha A4, colocando diante de si o seu diploma universitário; mas há utilizadores que aproveitam para fazer humor com a polémica e medir as cinturas dos seus animais de estimação ou até sugerir um próximo desafio em que seja necessário "retirar costelas" para conseguir uma cintura mais fina.

Instagram

Embora a internet e as suas modas próprias tenham chamado a atenção para os perigos de promover objetivos irrealistas em relação ao peso e ao corpo de cada um, ao consultório da nutricionista Mariana Abecassis chegam muitas pacientes com a mesma obsessão por atingir um peso demasiado baixo. "Ser magro muitas vezes tem para nós uma conotação positiva, de estar em forma, mas clinicamente significa estar abaixo do peso saudável", detalha Mariana Abecassis, recordando que os parâmetros mais fiáveis para perceber se alguém é saudável são "o índice de massa corporal e de massa gorda".

O perfil de quem quer emagrecer a todo o custo confirma-se. "Geralmente trata-se de público feminino, entre os 16 e 30 anos", explica a nutricionista, que faz a distinção entre mulheres mais jovens, que podem "dar o salto com a idade" e esquecer "as manias das dietas", ou as mais velhas, que constituem "casos mais graves". Importante é também perceber a fronteira entre ter vontade de emagrecer e impor um objetivo realista ou ter um problema psiquiátrico, uma vez que a vontade de perder peso é muitas vezes "a ponta do icebergue".

"Por vezes, pessoas que já são muito magras chegam a pedir para perder mais peso e dizem-me 'por favor, quero fazer uma dieta mais restritiva'", explica a nutricionista. E é então que passa a ser necessária a ajuda profissional ao nível psicológico, uma vez que nestes casos detetar o problema demasiado tarde pode ser um erro fatal.

Nem todos os casos são iguais, e a maioria das pessoas tem noção da realidade e estabelece objetivos realistas, esclarece a nutricionista. Até porque há espaço para tudo e a internet também é, e cada vez mais, o reino das mulheres do fitness, as que se levantam cedo para fazer exercício, que promovem mensagens de aceitação do corpo e autoconfiança - e isso tem efeitos na maneira como as mulheres se sentem.