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Órfãos de filhos

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O que leva um filho a cortar relações com um pai ou mãe? Algo de incrivelmente dramático? Aqui lhe deixamos um testemunho, na primeira pessoa, do inferno pessoal vivido por uma mãe com quem a filha rompeu o relacionamento durante três anos

Na porta de embarque, Paula, o marido e o filho de 6 anos aguardam a chegada de Luísa (nome fictício). Luísa era filha de um primeiro casamento de Paula e tinha na altura 17 anos. Regressavam a casa, em Budapeste, depois de umas férias em Lisboa. Fizera o check-in, juntamente com a restante família, e dissera à mãe que ia dar uma volta pelas lojas. Mas já se fazia a chamada para o embarque e sinais dela, nada. Paula começou a ficar preocupada. Até que o seu telefone tocou. Era o ex-marido, a dizer-lhe que tinha recebido uma mensagem da filha, em que esta o informava que não iria embarcar.

O desespero apoderou-se dela. O telefone de Luísa estava desligado. Qual seria o seu paradeiro? Estaria em segurança? Teria deixado o aeroporto pelo seu próprio pé, de livre vontade, ou sob coação? Atormentada pela ansiedade, depois de inúmeras tentativas falhadas de contactar Luísa, decide não embarcar. Dirigiu-se à polícia, para denunciar o desaparecimento da filha. Passadas umas horas, Luísa dava sinal de vida. Estava em casa de um primo, em Lisboa.

Este acontecimento foi a gota de água na difícil relação entre mãe e filha. Luísa, que pedira sempre muito para ir viver com o pai (de quem a mãe estava separada desde os 3 anos da pequena), viu o seu "desejo" concedido. A mãe acreditou que era tempo da filha parar de idealizar a nova família do pai – com quem nunca vivera - e ter uma experiência real. "Achei que ela tinha ido longe demais e tinha partido a corda, e pu-la num avião para ir ter com o pai (que vivia no estrangeiro), com o seu total acordo. No dia em que a minha filha embarcou, cortou relações comigo. Durante três anos, dos 17 aos 20, não deu sinal de vida."

O inferno de mãe começou então. Paula culpou-se durante muito tempo. O quarto da filha permaneceu intocado. "Deitava-me na cama dela, chorava. Queria o meu bebé de volta", recorda, entre lágrimas. Fez psicanálise. E, no fim, percebeu que "a vida tem vida própria, e que por vezes não há nada que possamos fazer..." Paula nunca desistiu de tentar o contacto com Luísa. Do outro lado, silêncio apenas. Paula insistia, com mensagens simples. "Feliz Natal", "parabéns". Até que um dia... Passados três anos, já Luísa andava na universidade, Paula ouviu um telefonema entre Luísa e o irmão e, tal como muitas outras vezes, perguntou se não quereria falar com ela. Luísa.. acedeu.

Nesse ano, no dia de aniversário de Paula, Luísa comunica pela primeira vez. Envia um email "extenso, intenso, duríssimo. Fala pela primeira vez da separação. Foi o melhor presente de aniversário que alguma vez tive", garante a mãe. Dois meses depois, Luísa decide fugir de casa do pai, num processo rocambolesco. Paula veio a correr do Brasil, onde vivia na altura (vive fora de Portugal desde 2004). Foi o pretexto para a ver, depois de tanto tempo. "Por enquanto, nem pensar em abordar o tema da fratura. A aproximação faz-se muito lenta e com muito cuidado." Paula arranjou depois um estágio a Luísa, numa favela de Belo Horizonte, no Brasil, onde ela poderia pôr em prática o curso de Serviço Social. Luísa quis ser psicóloga. "Escolheu o tema mais duro possível", partilha a mãe. Hoje, está a escrever a tese de mestrado em torno de famílias e crianças em risco. Um tema difícil, que conheceu na carne.

Recuemos então para tentar perceber o que leva uma filha a cortar relações com uma mãe com quem viveu sempre. Paula acredita, hoje, que o ato de romper foi uma questão de "sobrevivência". Uma forma de retaliar pelo facto de mãe a ter colocado num avião e a ter mandado para o pai. Mas, curiosamente, fora isso que a filha pedira à mãe a vida toda. Depois, o embate com a realidade da vivência diária, tanto para o pai como para a filha, quebrou-lhe as ilusões. "O pai achava-a insuportável, supermalcriada. A relação com a madrasta foi piorando muito. A integração de Luísa na sua nova vida foi péssima. E ela, que fora a vida toda uma óptima aluna, pela primeira vez derrapava a sério, com péssimos resultados escolares e mau comportamento face aos professores." Andava "perdida", resume a mãe. Então, porque não recorrer à progenitora?

Recuemos mais ainda, para tentar perceber. Luísa tinha três anos quando os pais se separaram. Quando tinha dez, a mãe tornou a casar. Um ano depois, nasceu o irmão. Foi aí que começaram os problemas, como acontece tantas vezes nestes casos. Os divórcios e recomposições familiares estão frequentemente na origem de ruturas drásticas. A regulação do poder paternal não conseguiu manter-se fora do tribunal de menores e Luísa, com 12 anos, é chamada a depor, ao longo de um processo que se arrastou por demasiado tempo. O novo marido de Paula tinha sido convidado para trabalhar fora de Portugal e ela não queria abrir mão de levar a filha com ela. Em tribunal, Luísa, que estava a ser acompanhada por um psicólogo para fazer face a todas estas mudanças, pede "muito muito para ficar a viver com o pai".

Mas este, que entretanto também voltara a casar e tivera gémeos, não sentia ter condições familiares para acolher Luísa. A partir do momento em que saíram de Lisboa rumo à sua nova vida, "a situação passou a ser um inferno", descreve Paula. De alguma maneira, o nascimento do irmão retirara a Luísa o exclusivo do amor da mãe - como também já perdera o exclusivo do amor do pai. Ambos com novos companheiros e novos filhos, Luísa sentiu que perdera o seu lugar. E o sentimento de revolta e desamor foi crescendo, até à rutura.

Hoje, já passaram três anos desde que mãe e filha retomaram o contacto, sem que tenha havido uma conversa franca e aberta sobre o que aconteceu. "A relação com a minha filha ainda está em construção", confessa Paula, que acredita, contudo, que o vínculo entre as duas "saiu fortalecido" de tudo isto. "Uma ferida como a que nós temos não pode ser mexida" de qualquer maneira, acredita. Como eventuais pontos fortes deste duro processo para a filha, ressalva a "dureza e independência". Como desafios, "o medo da entrega, pelo medo do abandono." Quanto a ela própria, Paula descreve assim o período em que não teve contacto com Luísa: "Estive órfã de filha".

Desde janeiro deste ano, pela primeira vez em muito tempo, Luísa voltou a ter um chão seu em Lisboa. Paula comprou uma casa, em que a filha tem um quarto para si, para fazer de ninho. "Durante imenso tempo, foram chegando sacos e sacos com as coisas dela que estavam em casa de amigos, em casa do pai... Os sacos não paravam de chegar."

O novo filme de Pedro Almodovar, "Julieta", centra-se numa filha que corta relações com a mãe. O silêncio nem sempre é sinónimo de indiferença - mas pode ser fatal

O novo filme de Pedro Almodovar, "Julieta", centra-se numa filha que corta relações com a mãe. O silêncio nem sempre é sinónimo de indiferença - mas pode ser fatal

Relações tóxicas

A realidade supera sempre a ficção. A história de Paula e Luísa é verdadeira, a de Julieta e Antía é ficcional – mas têm muitas semelhanças. O tema do corte drástico entre pais e filhos é o objeto do próximo filme de Pedro Almodôvar, "Julieta". Com estreia marcada para 8 de abril em Espanha - em Portugal, teremos de esperar até setembro -, a longa-metragem centra-se em duas personagens, mãe e filha, que desconhecem o paradeiro uma da outra há 12 anos. Orfã de pai, Antía abandona a mãe sem dar qualquer explicação quando faz 18 anos e se torna maior de idade. Julieta procura-a desesperadamente, mas sem sucesso. A única coisa que descobre é o pouco que conhece dela. O silêncio instala-se, como inimigo maior.

Na origem de alguns destes cortes estão relações pouco saudáveis, que alguns terapeutas apelidam de "relações tóxicas". Excesso de controlo paterno, falta de afeto ou dependência excessiva face a um dos progenitores estão entre as causas possíveis. Seja por acumulação de uma vivência de agressões ou falta de afetos, seja por uma reação de defesa, para evitar sofrer, há filhos que optam por cortar o laço maior que os une aos seus progenitores. Quer o percebamos quer não, às vezes não sobra nenhuma outra opção a não ser aceitar. Mesmo que essa seja a coisa mais "antinatura" que se pode pedir a uma mãe.