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Mais perto do céu

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Alguma vez sentiu uma irresistível vontade de subir a uma árvore? Ou de a abraçar? Num mundo crescentemente urbano e tecnológico, não estranhe se vir alguém a subir a uma árvore na hora de almoço. Em Londres, é o assunto do dia

Quem nunca subiu a uma árvore em criança, descobrindo a alegria de um mundo visto a partir de outra perspetiva? Este gesto ancestral ganhou agora uma visibilidade inusitada em Londres, graças a um homem chamado Jack Cooke, que trouxe o tema para a ordem do dia. Jack Cooke subiu a 80 árvores no ano passado. Quando ele vagueia pela cidade, não se foca no mesmo que o comum das pessoas. As lojas, as modas ou quem anda na rua não lhe prendem a atenção - mas sim quais as melhores árvores para trepar. Ele conhece Londres como a palma da mão, não por ruas ou seCtores, mas pelos recantos ou parques com as melhores árvores para subir. Jack defende que trepar às árvores não é um território exclusivo da infância ou do campo. E que a pausa perfeita na sua hora de almoço pode muito bem incluir uma ascensão deste género. O efeito é muito equivalente a uma aula de ioga.

Jack Cooke editou agora um guia para subir às árvores destinado a adultos e crianças e o seu livro foi muito disputado entre editoras. Venceu a HarperCollins, reputada casa editorial de origem nova-iorquina que quis assegurar os direitos de distribuição a nível mundial – e avançou uma quantia excecionalmente elevada para um autor desconhecido. Cooke tem 29 anos e teve a ideia para este livro sentado no seu escritório em Londres, com vista para Regent Park. "Recomecei a trepar às árvores pela primeira vez desde a minha infância", conta. "E apercebi-me que as vistas sobre Londres eram tão extraordinárias que pensei 'aqui está um pedaço de natureza selvagem que quero explorar'."

Jack quer acabar com a ideia que é estranho ou inapropriado um adulto trepar a uma árvore, a meio do dia, no meio da cidade. O jovem garante que passa muitas vezes despercebido nas suas ascensões. "As pessoas nunca olham para cima", garante. A maioria está demasiado embrenhada no seu telefone, não olhando para lá dos 20 cm que a separam deste. "Podem passar-se horas numa árvore sem que ninguém repare em nós. O mais embaraçoso é às vezes, descer e 'aterrar' no meio de um piquenique que foi ali montado enquanto estávamos em cima da árvore...", conta. O livro, que será publicado este ano, fica a meio caminho entre o guia que dá conselhos práticos e o relato do sonhador, com as suas considerações pessoais, em tom elegante e poético. A obra terá como ilustrações os desenhos da mulher de Jack, Jennifer.

"Força no coração"

Na Casa da Floresta, em Monsanto, escola que segue a pedagogia Waldorf, é comum ver, à hora do recreio, crianças dos 4 aos 11 anos penduradas nas árvores. Os adultos presentes não os repreenderão de certeza. Apenas lhes dirão, no máximo, que "só podem subir quando souberem descer", explica Sofia Machado, educadora ali há 7 anos. Para ela, os benefícios de subir às árvores são evidentes, para miúdos e graúdos. "A aproximação à natureza, que faz com que os meninos se encontrem, a nível individual e espiritual. Assim como a 'força no coração'. Os meninos que sobem às árvores levam muita força no coração", explica. "Porque conseguiram superar um desafio, fazer algo que viram os colegas mais velhos fazer." Para a educadora, aquilo de que os adultos poderiam beneficiar mais se subissem mais às árvores seria "mais espontaneidade, não ligar ao que os outros pensam, e serem mais criativos". Na Casa da Floresta, as árvores fazem parte da casa. Faz-se a apanha da fruta, do limoeiro, da nespereira e da nogueira presentes no recreio, e existe uma árvore muito alta, com um baloiço pendurado, que faz as delícias das crianças.

Subir às árvores pode ser uma forma de terapia, como o 'mindfulness', o ioga ou a meditação. Afinal, recoloca-nos em contato direto com a natureza, muda a perspetiva com que olhamos para as coisas – e eleva-nos para mais perto do céu. Dali, repara-se em pormenores nos quais nunca se repararia, como a textura da casca das árvores, relativizam-se problemas, respira-se outro ar. A silvoterapia, método científico que reconhece os benefícios medicinais das árvores, foi reconhecida cientificamente em 1927 no tratamento e prevenção de doenças - embora seja usado desde sempre. Antes de haver comprimidos, havia mezinhas, infusões e remédios naturais com base em plantas e cascas de árvores. Doenças respiratórias, como pneumonia ou bronquite, tinham como tratamento recomendado passar tempo a respirar o ar puro da floresta. Inspirar o ar dos parques, bosques e florestas ativa a circulação sanguínea, aumenta o número de células vermelhas no organismo. O ar que se respira nos bosques é benéfico porque contém grandes quantidades de íons negativos de oxigénio, pouco presentes nas cidades, por causa da poluição e de outros fatores. Respirar este ar puro dá saúde. E subir às árvores é uma forma de o conseguir.