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De regresso à cascata da Serra da Peneda, agora para a ver bem perto

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CASCATAS DE CASTRO LABOREIRO. As mais espetaculares tinham de abrir este trabalho

joão paulo galacho

Mas claro que isso foi só o pretexto para uns dias de férias, no sossego do inverno de Castro Laboreiro

João Paulo Galacho (texto e imagens), João Santos Duarte (edição vídeo)

Uma imagem retida há dois anos, quando seguia de bicicleta para Castro Laboreiro, não me saía da cabeça. E por ela voltei à serra da Peneda.

Desta vez de carro. Quinhentos quilómetros depois lá estava a imagem, no mesmo sítio, tal e qual a recordava: ao longe, uma 'gravata branca' decorava a penedia.

Há dois anos o destino era outro e não pude aproximar-me, mas desta vez quero chegar à sua beira.

APROVEITAR AS DICAS DO ANTÓNIO, UM CASTREJO INFORMADO

Previamente tinha contactado António Domingues, autor DESTA PÁGINA na internet dedicada a Castro Laboreiro, que se prontificou a ajudar-me in loco. Quando lhe falei daquela queda de água identificou-a logo como a Cascata de Dorna e disse-me que sabia como lá chegar.

“GRAVATA” NA SERRA. A Cascata de Dorna vista de longe...

“GRAVATA” NA SERRA. A Cascata de Dorna vista de longe...

joão paulo galacho

... e de perto

... e de perto

joão paulo galacho

Assim fiz. Comecei a descer o barranco, e pouco depois vi a queda de água à minha direita, só que lateralmente. Uma plataforma de rocha, umas dezenas de metros abaixo, pareceu-me o sítio ideal para a ver de frente.

E embora tivesse de atravessar um autêntico matagal prenhe de água, que rapidamente me empapou a roupa, fui recompensado pela vista que obtive nessa rocha. Mesmo com muitos ramos pelo meio, tinha à minha frente uma bonita cascata com mais de uma dezena de metros.

Castro Laboreiro visto da estrada para o planalto
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Castro Laboreiro visto da estrada para o planalto

joão paulo galacho

O castelo da vila, camuflado na penedia
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O castelo da vila, camuflado na penedia

joão paulo galacho

Três vetustas pontes: a de Dorna
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Três vetustas pontes: a de Dorna

joão paulo galacho

ponte de Nova
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ponte de Nova

joão paulo galacho

Ponte de Assureira
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Ponte de Assureira

joão paulo galacho

Os característicos cumes rochosos da Serra da Peneda
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Os característicos cumes rochosos da Serra da Peneda

joão paulo galacho

O António conhece bem esta zona e aproveito para lhe perguntar se sabe de mais quedas de água aqui à volta. Em meia hora de conversa fala-me de mais quatro zonas de cascatas – Poço Sero, Salto do Gato, cascatas de Castro Laboreiro e a ´grande’ do rio Laboreiro -, e explica-me como lá chegar.

A ‘grande’, que fica no troço final do rio Laboreiro, é descrita como a mais imponente, mas também a que tem o acesso mais difícil. Prontifica-se a ir lá comigo mas avisa-me logo: “Já não vou para ali há uns tempos, não sei como aquilo está. Mas conte com muitas arranhadelas das silvas, e com muita água que o vai ensopar da cabeça aos pés. São três horas de caminhada para ir e vir, desde a aldeia de Ribeiro de Baixo.”

Agradeço-lhe a disponibilidade mas decido visitar primeiro as outras três zonas, com melhores acessos, e depois logo vejo se arrisco ou não ir à ‘mãe de todas as cascatas’.

O TRANQUILO INVERNO DE CASTRO LABOREIRO

Este ano, até meados de janeiro, altura em que fiz esta viagem, ainda só tinha nevado uma vez em Castro Laboreiro mas o sol, nos dias seguintes, depressa derreteu o manto branco.

Está frio, os nevoeiros vão e vêm, uma chuva miudinha insiste em marcar presença e o sol espreita muito raramente.

Mas isso não me preocupa. Tenho guarda-chuva e agasalhos suficientes, e as fotos, apesar de ficarem com o céu mais esbatido, são compensadas com os bonitos verdes da vegetação viçosa.

A vila, que tem a honra de ser a única terra portuguesa que dá nome a uma raça de cães, fica nos confins de Portugal. Já foi um local muito isolado, mas hoje em dia não faltam restaurantes e alojamentos para os muitos forasteiros que a demandam.

Os locais falam entre si um português com muitos termos galegos, e ouvi mesmo referências a um dialeto local que os mais antigos ainda não esqueceram.

UM CHEIRINHO DO PASSADO NUMA ALDEIA DO PLANALTO

No dia seguinte começo logo cedinho por rumar a Rodeiro, a última aldeia na estrada para o planalto de Castro Laboreiro, perto da qual fica o Poço Sero.

Logo à saída do hotel, no curto caminho para o carro, fico apreensivo com o gelo que forra o chão. Arranco devagar, não passo da 3ª velocidade, e dos 900 metros da altitude de Castro Laboreiro, para os 1100 de Rodeiro, a quantidade de gelo continua a aumentar, proporcionalmente à minha apreensão.

Ainda existem pastores em Rodeiro
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Ainda existem pastores em Rodeiro

joão paulo galacho

O forno comunitário, que não coze pão há mais de 40 anos
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O forno comunitário, que não coze pão há mais de 40 anos

joão paulo galacho

Se me perder sigam as minhas pegadas no gelo
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Se me perder sigam as minhas pegadas no gelo

joão paulo galacho

Um cão da raça Castro Laboreiro, incomodado com as pulgas, não parou quieto para a fotografia
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Um cão da raça Castro Laboreiro, incomodado com as pulgas, não parou quieto para a fotografia

joão paulo galacho

Mas lá chego a Rodeiro onde um aldeão idoso me explica o caminho pedestre para o poço, que fica a pouco mais de 1 km da aldeia. O trajeto é entre muros, mas a muita chuva que tem caído tornou-o num leito de um regato e, quando do cimo da encosta vejo o rio Laboreiro, já tenho os pés encharcados. E ainda me falta descer até aos dois moinhos que enquadram o Poço Sero, o que faço com todo o cuidado, evitando o gelo e as pedras escorregadias.

POÇO SERO. Água acelerada pelos desníveis sempre atraiu moleiros. O moinho da foto tem uma curiosa 'chaminé' de anéis de pedra, que mais tarde soube que servia para canalizar a água para o mecanismo do moinho, e não para extrair o fumo

POÇO SERO. Água acelerada pelos desníveis sempre atraiu moleiros. O moinho da foto tem uma curiosa 'chaminé' de anéis de pedra, que mais tarde soube que servia para canalizar a água para o mecanismo do moinho, e não para extrair o fumo

joão paulo galacho

Mas o esforço é recompensado: o rio, poderoso, corre enxurrado, o barulho da água apressada para chegar à foz abafa todos os outros e, para melhorar o cenário, só mesmo se aparecesse uma lontra a pescar na corrente…

A PASTORA PARA QUEM CABRAS E OVELHAS SÃO A MESMA COISA

O próximo destino é o Salto do Gato, perto da estrada de Castro Laboreiro para Varziela.

Estaciono o carro num pequeno miradouro que aparece logo depois do cruzamento para Portos, ando uma dezena de metros para trás, e apanho um troço do percurso pedestre (PR) que vai para Varziela.

Cinco minutos depois estou num largo onde pasta um pequeno rebanho. A pastora, uma senhora de meia-idade, está sentada num murete de pedra a tricotar:

- Boa dia minha senhora. Que rebanho original o seu, com ovelhas e cabras misturadas. Dão-se bem?
- Dão. Cresceram juntas e é como se fossem todas a mesma coisa.

- Ando aqui à procura do melhor local para ver o Salto do Gato. Pode ajudar-me?
- Poder posso. Só não percebo qual é o seu interesse? Aquilo é um bocado de rio como os outros. Mas você é que sabe. Tem de atravessar esse matagal aí à frente e ir até àquelas pedras lá ao fundo donde consegue vê-lo. Dantes havia veredas, agora não. Tem mesmo de ir a corta mato.

SALTO DO GATO. Mais umas bonitas quedas de água, encravadas nas montanhas, sem qualquer elemento humano no horizonte

SALTO DO GATO. Mais umas bonitas quedas de água, encravadas nas montanhas, sem qualquer elemento humano no horizonte

joão paulo galacho

Agradeço-lhe a dica, salto o murete e lá vou eu pelo meio de giestas, de silvas e de lameiros, até às pedras que me indicou.

O Salto do Gato fica num afluente do rio Laboreiro que se despenha em duas cascatas, com uma boa lagoa na primeira, e não fica atrás do Poço Sero em espetacularidade. Para a pastora é um troço do rio como os outros, mas para mim é... especial.

OS MILAGRES DO SANTO DA CASA

Parto para as próximas cascatas, as que ficam em Castro Laboreiro, a pensar se farão jus ao ditado que sentencia que 'santos da casa não fazem milagres'. Vou até ao museu, apanho um caminho sinalizado para o castelo e, uns metros depois, uma cortada à esquerda indica os moinhos e cascatas do Laboreiro a 250 metros.

Percorridos os 250 metros rapidamente percebo que 'não há regra sem exceção': o santo local fez um milagre na própria casa. As cascatas, uma sucessão de quatro, todas com lagoas, são espetaculares.

CASCATAS DE CASTRO LABOREIRO. As que têm o acesso mais fácil. Nesta imagem com as águas ‘arrastadas’ em consequência de um maior tempo de exposição da fotografia

CASCATAS DE CASTRO LABOREIRO. As que têm o acesso mais fácil. Nesta imagem com as águas ‘arrastadas’ em consequência de um maior tempo de exposição da fotografia

joão paulo galacho

Fico a imaginar este paraíso no verão, a invejar os banhistas que usufruem dele. Podem aproveitar a força destas águas para massajar os corpos, as lagoas para nadar e, se a sede apertar, basta abrir a boca. São águas puríssimas, que brotam no planalto de Castro Laboreiro, a cerca de 4 quilómetros daqui, e que correm selvagens por um território muito pouco povoado.

AFINAL TENHO DE VOLTAR NO VERÃO…

Resta-me um dia na Peneda e tenho de decidir se aceito o convite do António para me levar 'à mãe de todas as cascatas'.

Lembro-me dos arbustos encharcados, lembro-me do gelo em Rodeiro, lembro-me das silvas, e acrescento uma segunda nota na agenda, ao capítulo das 'Coisas a fazer quando voltar a Castro Laboreiro no verão': ir com o António conhecer a grande cascata no troço final do rio Laboreiro.

A outra nota já estava na agenda desde o primeiro dia: voltar no verão para tomar banho nestas lagoas translúcidas.