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A nova polémica das redes sociais (ou o jornalista que cometeu suicídio profissional enquanto a internet assistia)

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POLÉMICA. Tudo começou com uma entrevista que o jornalista Jacques Hyzagi conseguiu com a estilista japonesa rei Kawakubo. Na fotografia, a coleção que a estilista, que nunca se deixa fotografar, apresentou em 2012, em Paris

FRANCOIS GUILLOT / AFP / GETTYIMAGES

Os mundos da moda, do jornalismo e da internet (sobretudo este último) estão em polvorosa com um texto em que os mais importantes jornais e editores de Nova Iorque são arrasados sem dó nem piedade. Falta decidir se o jornalista que o escreveu é brilhante ou egocêntrico, mas o que é certo é que já se tornou a personagem principal da internet e está a receber cheques por isso

Por esta altura já toda a gente sabe que a vida está dividida em duas dimensões: há um mundo real em que as pessoas se cruzam e interagem e há um mundo paralelo de coisas que acontecem na internet, polémicas que têm ali o seu início, meio e fim e pessoas ou jornais do mundo real que chegam atrasados à festa. Quem costuma andar pela internet também sabe que para cada acontecimento há geralmente duas vagas de opiniões: a primeira pode ser a favor do protagonista da polémica mais recente, e a segunda vem apontar-lhe críticas e defeitos sem fim.

A verdade, como a virtude, é capaz de estar ali no meio. Ainda estamos para desvendar o caso de Jacques Hyzagi, que se tornou nesta quarta-feira o protagonista do mundo da internet depois de ter publicado um texto no “The Observer” em que desafia os mundos da moda e do jornalismo – e ainda ninguém percebeu se isso foi inteligente e corajoso ou egocêntrico e impulsivo.

O guião da nova polémica virtual é simples. Protagonistas: Jacques Hyzagi, um “escritor falido” (segundo o próprio) que escreve peças jornalísticas em regime freelance para publicações como o “The Observer”, o “The Guardian” ou a revista “Elle”; Rei Kawakubo, que segundo Jacques é a estilista viva “mais interessante e perseguida pela imprensa” ou até o “Bob Dylan da moda”; Robbie Myers, editora-chefe da “Elle” e a primeira pessoa que aceitou publicar a entrevista de Jacques a Rei; e Anne Slowey, editora da mesma revista que ficou encarregada de escrever a peça juntamente com Jacques, e que este descreve como “barulhenta e espalhafatosa”.

O enredo: no passado mês de junho, Jacques conseguiu uma entrevista “rara, que só acontece uma vez na vida”, com Rei Kawakubo. Como jornalista freelance que é, começou então a tentar vender a ideia a várias publicações - e aqui começa a controvérsia gerada pelo texto que publicou esta quarta-feira no “Observer”, no qual explica toda a história à volta da tal entrevista. Segundo o jornalista, a “New York Magazine” recusou a entrevista por achar que ele não conseguiria que Rei, que “recusa ser fotografada e odeia jornalistas”, dissesse algo com interesse; a “New Yorker”, uma revista que é “uma mistura de Reader's Digest com GQ”, também não; e a “superaborrecida” “Vanity Fair” não se mostrou mais entusiasmada.

INSULTOS. O jornalista diz que Anne Slowey, editora da Elle, “não sabe escrever e não é muito inteligente”

INSULTOS. O jornalista diz que Anne Slowey, editora da Elle, “não sabe escrever e não é muito inteligente”

ASTRID STAWIARZ / GETTY IMAGES

Por esta altura, ainda não passámos dos primeiros parágrafos do relato de Jacques mas ele já conseguiu estragar as relações que tem com metade das publicações jornalísticas de Nova Iorque. Mas ele prossegue e descreve o processo de negociação com a “Elle”, que pela mão de Robbie Meyers aceitou a peça. A editora-chefe determinou então que a editora Anne Slowey o deveria acompanhar na entrevista, feita em Paris, e se lhe dissermos que pelo final do texto Jacques já diz que Anne “não sabe escrever e não é muito inteligente, por isso conseguiu a difícil proeza de transformar uma pessoa fascinante e revolucionária em alguém medíocre”, percebe que houve qualquer coisa aqui que não correu bem.

Qualquer coisa que é como quem diz o processo inteiro. Logo de início, Jacques ficou com a impressão de que Anne era uma “maníaca zangada e poderosa” e decidiu cancelar um encontro marcado entre os dois para lhe ensinar uma lição: “As pessoas que são quase famosas comportam-se de forma muito mais desagradável do que as famosas”, escreve. E para Jacques este foi o momento que determinou que depois Anne “sabotasse” o artigo, deixando o jornalista sem resposta durante meses para depois descobrir que o seu texto fora totalmente reescrito e que acabava por se assemelhar a “uma página da Wikipédia, cheia de clichés, sem inteligência”.

REVELAÇÃO. Jacques Hyzagi aproveita para alimentar polémicas no mundo da moda e diz que Robbie Meyers, editora-chefe da Elle, disse sobre Anna Wintour, a icónica editora-chefe da revista Vogue: “Ninguém quer saber da Anna Wintour”

REVELAÇÃO. Jacques Hyzagi aproveita para alimentar polémicas no mundo da moda e diz que Robbie Meyers, editora-chefe da Elle, disse sobre Anna Wintour, a icónica editora-chefe da revista Vogue: “Ninguém quer saber da Anna Wintour”

FRANCOIS DURAND/GETTY IMAGES

O artigo do “Observer” tinha todos os ingredientes para rebentar na internet, o que acabou por acontecer - só que ainda não houve tempo para perceber quem é que saiu beneficiado e prejudicado. Entre os insultos de Jacques a praticamente todos os nomes fortes do jornalismo em Nova Iorque e as críticas ferozes às suas editoras, que diz terem terminado num email enviado ao pessoal de toda a empresa a que a “Elle” pertence, a Hearst, há quem lhe dê toda a razão e elogie a sua escrita brilhante e honesta, mas também ache que o texto revela alguém egocêntrico, impulsivo e raivoso por ter sido rejeitado por vários jornais e revistas.

“Com este artigo, Jacques Hyzagi decidiu acabar com as suas boas relações com todos os jornais, que provavelmente lhe podiam pagar mais por este artigo do que o 'Observer'”, comenta Julianne Escobedo Shepherd, editora de Cultura do Jezebel (porque no mundo da internet a polémica alimenta muitas análises, e Julianne faz parte da segunda vaga de opiniões - as que questionam a autenticidade e relevância do relato de Jacques). Julianne junta-se ao coro de críticas que acusam Jacques de egocentrismo e citam a parte do texto em que ele informa o leitor de que conhece o mundo da moda porque já namorou com várias modelos para dizer que “o seu objetivo primário não era desconstruir o sistema da moda, mas dizer-nos que já namorou com modelos”.

TENSÃO. Outra das principais visadas é Robbie Meyers, editora-chefe da Elle

TENSÃO. Outra das principais visadas é Robbie Meyers, editora-chefe da Elle

STEPHEN LOVEKIN / GETTY IMAGES

“Há uma nota forte de amargura de um escritor rejeitado”, nota Julianne, explicando que este é um texto que “muitas pessoas na indústria já pensaram em escrever ou escreveram mesmo, mas nunca publicaram”, uma vez que todos os jornalistas “já viram um editor transformar uma peça que amavam em algo que odiaram”. Então porque é que Jacques não tem a sua simpatia, como a de muitos outros internautas e jornalistas? Por um lado, porque “é um homem pretensioso, egocêntrico e muito inteligente que ficou picado com a ousadia de alguém editar um texto seu”: “Todas as editoras já tiveram um homem com quem é um pesadelo trabalhar, que desafia cada decisão, que não respeita a sua autoridade, que acredita que a sua escrita é um presente de Deus e todos devemos ajoelhar-nos”, explica Julianne, que considera as descrições que Jacques faz das suas superiores “cruéis, vingativas e até de uma certa condescendência chauvinista”.

Eliza Brooke, do website Racked, partilha a mesma opinião (ou não chamasse ao texto que assina “Esta peça que deita abaixo a Elle deve ser uma piada do dia das mentiras”). “É uma peça narcisista”, critica Eliza, explicando mesmo que a entrevista com Rei é sobrevalorizada pelo jornalista: “Ela não é assim tão difícil de contactar e dá entrevistas regulares a várias publicações”.

O resto da internet não ficou de fora da história. No Twitter, centenas de mensagens sobre o assunto espelham uma comunidade completamente polarizada. Jacques Hyzagi já respondeu de forma amarga a algumas das mensagens negativas que lhe são dirigidas (a uma delas, que lhe diz que não é uma “modelo”, responde que deve continuar a tentar e que há sítios que precisam de estagiárias para tratar do lixo). Há utilizadores que dizem que a peça de Jacques no “Observer” é “honesta e maravilhosa”, ou que é uma “sátira brilhante”. Outros respondem chamando a Jacques “narcisista” e dizendo que este é o “suicídio profissional mais brilhante” a que já assistiram (Jacques Hyzagi quer que saibam que namora com modelos, acrescenta a mesma mensagem).

Há poucas conclusões absolutas a retirar desta polémica. A primeira é que a entrevista que prometia ser uma daquelas que “só acontecem uma vez na vida” acabou por ficar para último plano, a segunda é que a internet não consegue parar de falar de Jacques Hyzagi – e ninguém sabe se isso é bom ou mau. Mas há mais uma: com toda esta confusão, Hyzagi acabou por publicar artigos com base na mesma entrevista à estilista no “Observer”, “Elle” e “The Guardian” - e para Julianne, do Jezebel, “no fim nós é que somos a piada. Vai buscar os teus cheques, Jacques Hyzagi”.

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