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A cidade sentada

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COIMBRA. A recuperação do Convento e Igreja de São Francisco vão revitalizar a vida cultural da cidade F

d.r.

Coimbra é cada vez mais uma ideia e já não tanto uma realidade. Os estudantes criaram-lhe um imaginário, romantizaram uma relação tantas vezes dependente do binómio amor-ódio, deram-lhe uma identidade e construíram-lhe uma aura. A cidade viveu décadas à sombra dessa construção de si própria feita pelos outros. Pelos que por lá passavam uns anos, porventura alguns dos melhores das suas vidas, mas não lhe construíam futuro. A cidade foi sempre, e antes de mais, uma memória de um passado sem retorno.

Essa pode ter sido uma das fatalidades da cidade. O passado pode reconfortar, mas não alimenta. O passado é o que já foi. O ontem nunca será amanhã, porque entretanto pulverizou o hoje, rapidamente também ele transformado em ontem.

A proliferação de universidades pelo país retirou importância e dimensão a Coimbra. A Academia continua a ser uma das mais relevantes, mas a cidade esmoreceu. Não resistiu com dignidade à passagem do tempo e é hoje um doente a precisar com urgência de atos de reanimação.

Pressente-se a existência de alguma vida cultural, mas longe do fulgor de tempos outros. Eventualmente os próprios estudantes não estarão hoje tão disponíveis para a vivência, a participação e a entrega ao projeto coletivo da cidade como estiveram muitos dos seus antecessores. Nunca há uma causa única. Nunca o problema tem uma só origem. Nem por isso se pode passar ao lado de uma realidade preocupante. O problema existe. Coimbra tem saudades de si mesma.

Nos últimos tempos têm vindo a ser tomadas algumas medidas inseridas na tentativa de inverter este rumo. A mais recente terá uma concretização prática na próxima semana.

Sala de concertos com 1.125 lugares

Sala de concertos com 1.125 lugares

A Câmara Municipal vai inaugurar um novo equipamento cultural, centrado no recuperado Convento de São Francisco, que será também um Centro de Congressos. Anexa ao convento há a Igreja, também do século XVII, cuja recuperação está a cargo do arquiteto Gonçalo Byrne. No conjunto ficará disponível um complexo de vários edifícios, construtor de diferentes cenários e facilitador de múltiplas experiências, como concertos, debates, workshops, residências artísticas, performances ou colóquios.

A cidade passará a dispor de uma das maiores salas de espetáculos do país, com capacidade para 1.125 espectadores, um fosso para orquestra sinfónica, uma concha acústica da qual se esperam os melhores resultados, e um café-concerto. Na igreja haverá um auditório para 600 espectadores e três estúdios de trabalho. Está também prevista a utilização de espaços exteriores, como os claustros.

É, ainda assim, um equipamento que chega atrasado. Lançada em 2010, a obra devia ter ficado concluída no final de 2012. Autarquia e construtora desentenderam-se em determinada fase do processo e a obra parou. O custo inicial estava orçamentado em €23 milhões, mas em março do ano passado a autarquia teve de assinar um contrato no valor de €8 milhões para conseguir a conclusão da obra em cinco meses, esperava-se. No final, o valor global ultrapassará os €40 milhões.

Claustros do Convento

Claustros do Convento

O programa cultural anunciado é ambicioso. Já há nomes, como Benjamin Clementine, num muito esperado regresso a Portugal, Michael Nyman, Gary Burton, a brasileira Maria Rita, Pedro Burmester e Mário Laginha, ou o Remix Ensemble da Casa da Música, e uma mostra de Novo Circo, para lá da reputada companhia TAO Dance Theatre.

Tudo isto apenas no primeiro trimestre. Veremos como se aguentará, não apenas o ritmo de programação, como que lógica ou critério prevalecerá. Coimbra precisa de um novo fôlego e este pode ser o momento decisivo para a indispensável revitalização.

Uma cidade sentada é uma cidade perdida no seu próprio desespero. Esse é um dos desafios com o qual se confronta um espaço urbano que já passou demasiado tempo a ver passar o tempo.

Valdemar Cruz escreve a coluna “Linha do Norte” todas as quintas-feiras no EXPRESSO DIÁRIO