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Facebook vai controlar amizades segundo gostos comuns e rendimentos pessoais

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© Dado Ruvic / Reuters

Em nome da segurança e para proporcionar a entrada a crianças, o Facebook prepara-se para um maior controlo das “amizades” e para transpor para a rede as classes sociais existentes na vida real

Bloquear "amigos" no Facebook é uma operação que os utilizadores fazem com frequência e as razões são as mais diversas. Em breve, estas "ações de limpeza" vão deixar de tomar o seu tempo. A maior rede social do mundo prepara-se para lançar um conjunto de novas ferramentas destinado à criação de "melhores amizades", partindo de gostos comuns e dos rendimentos financeiros.

A rede de Mark Elliot Zuckerberg, o empresário que em 2004, ainda na universidade, criou a própria 'sorte grande', propõe-se escolher e controlar as amizades dos faceboquistas "conforme o comportamento que estes evidenciam" e o seu nível social, tendo desenvolvido um novo algoritmo que selecionará ou apagará "amigos" e analisará os rendimentos e património de cada um usando a declaração financeira que irá ser solicitada a todas as pessoas registadas no Facebook.

D.R.

"Pretendemos apenas ir ao encontro das vontades dos nossos utilizadores e facilitar-lhes ao máximo o dia-a-dia", diz ao Expresso Mark Zuckerberg. Confrontado com o facto de esta nova ferramenta parecer ir contra a missão de "tornar o mundo mais aberto e mais interligado", como a própria rede anuncia, o fundador do Facebook diz que "não, antes pelo contrário".

Num mail de resposta a uma série de questões sobre estas "novas ferramentas", o empresário afirma que o Facebook não pretende entrar na privacidade de cada um, mas sim "facilitar tarefas" e solucionar uma situação que se "revelou preocupante": apesar de ser proibido o registo a menores de 13 anos, já se perdeu a conta às páginas feitas por crianças, daí que este novo produto seja apresentado também como "um reforço da segurança".

"Agora já podem entrar, o caminho está seguro para a presença de crianças. É importante que se entenda a motivação do Facebok. Não se trata de julgar os utilizadores incapazes de escolher as suas amizades, trata-se apenas de responder a solicitações e de facilitar a vida como, aliás, temos procedido sempre que inovamos na rede. A privacidade continua a ser a nossa prioridade", diz Zuckerberg, adiantando que "já muitos falam em surdina sobre o assunto, mas poucos estão dentro dele".

D.R.

"Amanhã, se tudo correr bem, vou fazer uma limpeza radical nos ditos amigos do Facebook! Limpezas de fim de verão!!!!!", postou o ex-jornalista Jerónimo Pimentel em outubro do ano passado. No dia seguinte esclarecia: "Já fiz a minha limpeza de outono no Facebook. Critérios simples: ou pura e simplesmente não me lembrava de quem eram ou não gostei da cara! Antecipadamente peço desculpa se 'varri' quem até me apetecia que ficasse!".

Foram posts como os do ex-jornalista, hoje dedicado ao turismo, que levaram os responsáveis do Facebook a inventar um modo de "responder aos instintos e vontades" dos utilizadores e de lhes "poupar energias". Como este desabafo de Pimentel, percorrem a rede milhares de outros e até corre, de vez em quando, uma lengalenga que cada um vai postando para que os "amigos" tomem consciência do seu comportamento e não fiquem admirados ao serem corridos das listas.

É claro que, sustenta ainda o empresário norte-americano, a seleção do amigo "mais indicado" e o bloqueio de gente considerada indesejável não são operações irreversíveis. O utilizador pode, caso a caso, contrariar a decisão do algoritmo. "Por exemplo, se alguém barafustar muito com uma pessoa de família ou esta deixar comentários considerados abusivos, é natural que, de um momento para o outro, se dê o bloqueio. Todavia, basta carregar no novo botão 'repor' para ficar com o amigo", esclarece.

Mas se estas novas ferramentas parecem ao Facebook uma medida linear e "facilitadora do quotidiano", assim como para alguns utilizadores, há quem discorde desta "nova intromissão na vida privada e, até mesmo, no livre arbítrio". Francisco Morra Marta, de 60 anos, registado na rede há uma década, está "frontalmente contra este atentado à liberdade", muito embora não fique espantado "por Zuckerman e os seus apaniguados se dedicarem a implantar no mundo virtual regimes do mundo real, como as ditaduras".

"Estas novas ferramentas vão contra todos os princípios e valores pelos quais nos devemos reger, além de atentarem contra a liberdade de escolha de cada um, não sendo nenhuma ajuda, antes pelo contrário...", diz ao Expresso Silva Guedelha, de 35 anos, que há cinco que se "enfronha" no Facebook. Para este professor de liceu, ninguém tem nada que controlar as amizades de cada um - já basta "os pais meterem-se quando se é adolescente".

D.R.

De opinião idêntica é Manuela Goucha Soares, 56 anos. A jornalista, no Facebook desde 2009, diz que se trata de uma discriminação. "Além disso, a parte interessante das redes sociais é precisamente a diversificação das relações. Se se quiser encontrar as pessoas que, digamos, pertencem ao nosso meio, temos os nossos amigos, não os emprestados do facebook", acentua, frisando ser inconcebível que se solicite a declaração de rendimentos.

Apesar de se adivinhar o surgimento de inúmeras críticas à nova ferramenta do Facebook, há quem não veja qualquer problema nesta nova modalidade de "fazer amigos" e até lhe reconheça utilidade. "Ainda há pouco tempo, fiz uma limpeza e apaguei uma série de gente que nunca punha 'gosto' nos meus posts", explica Conceição Sobreiro, 25 anos, para quem "não seria mau ser poupada a este trabalho feito à unha".

Conceição Sobreiro escusava de ter feito a "limpeza de amigos" um a um, já que existem há alguns anos "plugins" para os motores de busca que permitem apagões em bloco. É o caso de um "script" desenvolvido para o Greasemonkey que permite selecionar diversos (ou todos) amigos da sua lista e desligar a amizade em bloco, de uma só vez.

Mark Zuckerberg diz que esta inovação vem no seguimento de outras que demonstram a preocupação social da sua rede. No ano passado, por exemplo, o Facebook lançou "uma ferramenta" para evitar suicídios entre os utilizadores. A ideia é ajudar a prevenir situações e funciona de forma simples, segundo foi divulgado em fevereiro de 2015, quando começou a funcionar nos EUA.

"Se a integridade física de alguém que conheces estiver em perigo iminente, contacta as autoridades locais ou uma linha de prevenção de suicídios imediatamente. Também te pedimos que denuncies o conteúdo suicida para que possamos entrar em contacto com essa pessoa com informações que lhe poderão ser úteis", lê-se na central de ajuda da rede social. Portugal não tem qualquer entidade de apoio na lista, mas para os EUA há, inclusive, um apoio especial para potenciais suicidas entre as comunidades de militares e de LGBT.

O Facebook tem manifestado também preocupações quanto ao facto de clarificar os sentimentos dos seus lidadores, tanto que no final do ano passado lançou uma ferramenta que alarga os habituais "gosto" a "adoro", "riso", "surpresa", "tristeza" e "ira", A justificação oficial foi a vontade de proporcionar aos utilizadores o "melhor partido da sua presença online, independentemente da qualidade da Internet e do dispositivo onde o fazem".

Quanto ao "não gosto", botão muito falado no ano passado e, segundo se entendia, bastante desejado pelos utilizadores, a rede social acabou por desistir de o implantar por ter concluído que "não era bom muito para o mundo". Posto isto, o que irá concluir o Facebook sobre as novas ferramentas destinadas a "melhorar a amizade"?

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