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Eles querem sexo. Elas atenção

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EVA HAMBACH/ Getty Images

Não é apenas por uma questão biológica ou sexual que alguém comprometido é infiel. Há fatores, como o grau de compromisso na relação, que influenciam a predisposição para encontros sexuais. Num novo estudo agora publicado, fica ainda assente que quando elas se inscrevem em sites de encontros procuram conhecer novas pessoas. Eles querem sexo casual

Já alguma vez escondeu do seu namorado/a que andava a conversar com outras pessoas online? Considera isso ser infiel? Estas são algumas das questões levantadas pelo estudo, publicado este mês, que inquiriu uma série de utilizadores do site Second Love, uma plataforma “para homens e mulheres que estão num relacionamento e procuram algo mais”.

Uma das principais conclusões, e das mais interessantes na perspetiva dos investigadores, é o facto de quem já foi infiel considerar comportamentos ambíguos menos indicativos de infidelidade do que as pessoas que nunca foram infiéis. Comportamentos ambíguos são aqueles que implicam esconder informação do parceiro, incluindo falar online com outras pessoas sem que o companheiro saiba.

“É possivelmente uma forma de as pessoas que já foram infiéis lidarem com o seu próprio comportamento. Poderá ser uma questão de se desculpar. E, de alguma forma, pensar para si mesmo 'estou a fazer isto mas não é assim tão indicativo de infidelidade'”, refere David Rodrigues, investigador do ISCTE-IUL e um dos responsáveis pelo artigo “Sociosexuality, Commitment, Sexual Infidelity, anda Perceptions of Infidelity: Data from the Second Love Web Site”, publicado no Journal of Sex Research.

No entanto, quanto aos comportamentos definidos como explícitos, por exemplo sexo oral, vaginal ou anal, esses são considerados por todos os inquiridos como “infidelidade”.

Responderam ao questionário, em anonimato, 252 pessoas inscritas no Second Love (51 mulheres e 201 homens), todos eles envolvidos romanticamente com alguém. Dizem ainda manter uma relação monogâmica e têm em média 40 anos.

O Second Love é uma página de encontros, presente em oito países na América do Sul e Europa, que é direcionado para pessoas comprometidas que procuram uma aventura extra. Para criar e ter um perfil ativo é preciso pagar. Uma subscrição de dois meses custa normalmente 59,90€.

Atualmente, só em Portugal há 207 mil usuários, sendo que cerca de 75% são homens. “São sobretudo pessoas que namoram, vivem juntas ou são casadas. A média de idades é de 35 a 55 anos. Cerca de 27% dos nossos utilizadores têm mais de dez anos de relacionamento. E 52% têm filhos”, descreve Anabela Santos, gestora do Second Love.

Eles querem sexo. Elas atenção

Mas afinal o que leva homens e mulheres comprometidos, grande parte com relações duradoras, a inscreverem-se num site e a pagarem perto de 60€? Simples: eles querem sexo, elas atenção. Este resultado não foi necessariamente “surpreendente” para David Rodrigues, uma vez que o sexo masculino tende a ter a iniciativa e a procurar mais sexo, enquanto o sexo feminino é, por norma, mais retraído.

“Mas se elas estão num site de pessoas com relacionamentos para conhecer outras pessoas, e embora não consigamos tirar essa conclusão [na nossa pesquisa], é possível que esse conhecer alguém possa levar a encontros sexuais, ou então não”, sublinha o investigador. “Isto está relacionado também com questões de papéis associados ao sexo, em que de modo geral os homens são percebidos como mais sexuais, em que é suposto terem mais parceiros sexuais. Já as mulheres, supostamente, são menos sexuais e menos sexualmente ativas.”

É precisamente neste comportamento mais proativo dos homens que Anabela Santos, gestora do Second Love, também repara. Aliás, a própria plataforma aconselha os homens a meterem conversa com elas. “Pedimos para enviarem primeiro uma mensagem às mulheres, porque elas não são muito ativas no chat. Esperam sempre que o homem tenha o primeiro passo. Mas claro, há sempre exceções à regra.”

A existência da dualidade é discutível, defende o investigador. Mas não há dúvidas quanto ao facto de a sociedade ter tendência para acreditar que realmente existe. “A partir do momento em que tendem a acreditar que sim, podem assumir de alguma forma estes papéis sexuais associados e ter algumas restrições em dizerem o que realmente esperam - neste caso com a sua inscrição no Second Love”, considera David Rodrigues.

O compromisso na relação também conta

Todas as pessoas têm uma maior ou menor predisposição para encontros sexuais, explica David Rodrigues, e isso implica que podem estar mais ou menos propensas à infidelidade. Ou seja, uma maior predisposição levará a uma maior probabilidade de ser infiel na relação. Mas essa facadinha na relação não depende única e exclusivamente de fatores biológicos.

“O que mostramos aqui, e é mais importante porque falamos de participantes já inscritos num site de infidelidade, é que os atos infiéis não são apenas influenciados pela sua predisposição para sexo casual, mas também pelo maior ou menor compromisso na sua relação”, diz o investigador.

Significa isto que a sexualidade vai além de fatores puramente biológicos. Embora a satisfação com a relação não tenha sido analisada no estudo, o investigador pondera que possa ser uma variável para determinar a predisposição da pessoa. “É muito importante mostrar que fatores associados à relação também são importantes para prevenir ou diminuir a probabilidade se incorrer em infidelidade.”

É precisamente para compreender melhor as reais motivações e responder a uma série de outras questões que a análise vai continuar. O artigo publicado este mês é apenas o primeiro passo.

“É importante continuar a fazer este tipo de investigação para perceber o porquê de estas pessoas serem infiéis mas ao mesmo tempo manterem a relação. Compreender se estão insatisfeitos, se há outras questões que os mantém juntos, como por exemplo terem uma casa comprada em conjunto e ser extremamente difícil fazer a partilha dos bens, se estão numa relação não monogâmica, etc.”, defende David Rodrigues. “Já acabámos de escrever um segundo artigo, que estamos a tentar submeter para publicação. E vamos fazer umas quantas análises para tentar perceber melhor o que é podemos dar a conhecer sobre a nossa amostra.”