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Manifestação pró-democracia no Brasil às portas da Universidade de Lisboa

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Manifestação contra o golpe e a favor da democracia brasileira às portas da Universidade de Lisboa num seminário onde está o juiz que não autorizou a tomada de posse como ministro de Lula da Silva, Gilmar Mendes. Grita-se: "Golpistas fascistas não passarão"

Manifestação pró-democracia à porta da Universidade de Lisboa

Manifestação pró-democracia à porta da Universidade de Lisboa

Foto D.R,

Mais de uma centena de pessoas manifestaram-se esta terça-feira de manhã à porta da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde está a decorrer um seminário sobre direito constitucional, com a participação do juiz do Supremo Tribunal Federal brasileiro, Gilmar Mendes, responsável por ter impedido a tomada de posse de Lula da Silva, como ministro da Casa Civil do Governo de Dilma Rousseff.

Manisfestantes protestam contra o que dizem ser uma tentativa de golpe de Estado e afirmam temer o regresso da ditadura ao Brasil. “Golpistas fascistas não passarão” e o “O povo não é bobo, abaixo a rede Globo” são palavras de ordem que se gritam. A manifestação foi convocada nas redes sociais, e é organizada por um conjunto de brasileiros que estão no Facebook com o evento denominado “Acto pela democracia”. A maioria dos manifestantes são brasileiros, mas também houve portugueses, nomeadamente estudantes da Faculdade de Direito e da Faculdade de Letras.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi convidado para participar no seminário, intitulado “Constituição e crise: A constituição no contexto das crises políticas e económicas”, mas recusou alegando falta de agenda.

“Ao contrário do que algumas pessoas têm afirmado não estamos aqui numa manifestação pró-Dilma ou pró-PT, mas estamos aqui num acto pró-democracia e pró-estado de direito democrático. É preciso que a comunidade portuguesa perceba que o que está em causa no Brasil é uma tentativa de golpe disfarçada de destituição. Golpe, porque não há por enquanto nenhum crime de responsabilidade imputado à presidente Dilma Rousseff”, afirma Bruno Araújo, investigador em media e política da Universidade de Brasilia, em Portugal, no âmbito de um doutoramento. Dilma, explicou Bruno Araújo, está acusada de ter sido envolvida em manobras fiscais no âmbito da campanha e quem as terá feitou foi o tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT).

Outra manifestante Neiara de Morais, a fazer um doutoramento relacionado com o tema da democracia na Universidade de Coimbra, tem uma opinião semelhante. "O nosso receio não se restinge ao perigo de uma ditadura militar. Como aconteceu no Paraguai, os golpes de tomada de poder fazem-se hoje de outras formas, o golpe militar já não está mais na moda e não é bem aceite. Um golpe parlamentar e judicial é que é a grande ameaça à democracia do século XXI. Julgar uma pessoa e não lhe garantir a pressunção de inocência e o direito de defesa não é justiça, é injustiça", sublinha Neiara de Morais.

O seminário que está a decorrer na Universidade de Lisboa, chegou a ter prevista a presença do vice-presidente brasileiro, Michel Temer, mas foi cancelada. O encontro tem sido apontado pela imprensa brasileira como um momento de articulação das lideranças da oposição brasileira, algo que Gilmar Mendes recusa.

Estavam confirmadas no seminário as presenças dos senadores Aécio Neves e José Serra, ambos do Partido da Social Democrata Brasileira/PSDB, da oposição, além do presidente do Tribunal de Contas da União, Aroldo Cedraz, e do magistrado do STF Dias Toffoli, entre outros convidados. Aécio Neves e José Serra estão a ser investigados no âmbito do caso Lava Jato.

"Identificamos uma enorme hipocrisia aqui. Gilmar Mendes promove um evento cujo tema é a constituição, a crise e a democracia, e no meio dos oradores está Aécio Neves e José Serra, pessoas delatadas (investigadas) no caso Lava Jato", afirma Bruno Aarújo. Naira de Morais sublinha, por seu turno, o juiz "Gilmar Mendes é capaz de fazer um tratamento muito desigual das pessoas delatadas (investigadas) no processo do Lava Jato. Umas impede que tomem posse (Lula da Silva), outras ele traz para participar num seminário em Lisboa, e para todos juntos falarem de democracia. É um escândalo. Aécio Neves e José Serra já são inclusive réus, Lula não é". Neiara de Morais prossegue: "O facto de a justiça estar a comportar-se assim está a deixar o povo em pânico. Há a ameaça de desordem no país. Nós queremos que a corrupção seja combatida, mas o que estamos vendo não é isso. Estamos a assistir a zelo persecutório de um juiz ou outro. É uma perseguição. E temos um problema adicional, é que os media também estão a fazer isso. Hoje há pessoas que têm medo do comunismo, há uma grande desinformação". Neiara diz ainda: "O perigo que existe para a democracia e mesmo no combate à corrupção, é derrubar alguém, neste caso o PT, e a corrupção continuar como uma estrutura em funcionamento. É isso que pode estar a acontecer".