Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O som dos ditadores

  • 333

Não são apenas as popstars mundiais que atuam em regimes autocráticos. Também os portugueses Xutos & Pontapés, Ana Moura ou Mariza deram concertos num país que está na lista negra dos direitos humanos. E não escaparam às críticas da Human Rights Foundation

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

A noite era quente. Luanda transpirava por todos os poros em vésperas do Natal. Poucos minutos antes de subir ao palco do lotado Estádio dos Coqueiros, a rapper norte-americana Nicki Minaj dava os últimos retoques no camarim e aproveitava para fazer uma selfie ao lado de Isabel dos Santos. “Não é nada de especial. É só a oitava mulher mais rica do mundo. Girl power!”, escreveu no Twitter a artista. No dia anterior, não muito longe do estádio onde o público se preparava para cantar em coro sucessos mundiais como ‘Super Bass’ ou ‘Your Love’, um outro rapper tinha sido conduzido da prisão até casa para continuar a cumprir a pena: o angolano Luaty Beirão era, e continua a ser, acusado de atos preparatórios de rebelião contra o Presidente Eduardo dos Santos. Apesar dos protestos da Human Rights Foundation (HRF), associação de defesa dos direitos humanos sediada em Nova Iorque, que apelou à cantora para cancelar o concerto numa altura em que o regime de Luanda endurecia a repressão, Nicki Minaj subiu ao palco nos Coqueiros, logo depois da fotografia nos bastidores com a empresária angolana e dona da Unitel, empresa de telecomunicações que patrocinou o evento.

A cantora oriunda de Trinidad e Tobago é só o mais recente alvo da HRF. Também Mariah Carey, que cantou em Luanda no concerto da Unitel em dezembro de 2013, ou Kanye West, a estrela da noite no casamento do neto do Presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev, não foram poupados. “Hoje, as celebridades pagam um custo significativo se escolherem atuar ou visitar ditadores”, disse ao Expresso Alex Gladstein, um dos responsáveis daquela organização norte-americana. “Para alguns artistas, como Nicki Minaj, o dinheiro está acima do resto. Mas outros, que têm uma imagem pública a defender, acabam por ser desencorajados a atuar nesses países devido à má imprensa que isso pode originar.” Detalhe importante: Kanye West recebeu três milhões de dólares pelo concerto no Cazaquistão, Minaj um pouco menos, cerca de dois milhões, e Carey metade desse cachê.

Instantes 1. Mariah Carey posa para uma fotografia com a família presidencial de Angola, por ocasião do concerto em Luanda

Instantes 1. Mariah Carey posa para uma fotografia com a família presidencial de Angola, por ocasião do concerto em Luanda

agência já

Luanda tem sido uma tentação também para vários artistas portugueses nos últimos anos. Muitos têm aceitado convites de promotores angolanos, apesar das polémicas criadas em redor das estrelas mundiais. Só em 2015 atuaram em Angola bandas como os Xutos & Pontapés e fadistas como Mariza ou Ana Moura. Por lá também passaram recentemente os rappers Boss AC e Valete, bem como os Buraka Som Sistema. Aparentemente, o assunto parece não deixar confortáveis a maior parte dos seus managers. Dos 12 artistas portugueses e estrangeiros contactados, só Ana Moura e Boss AC responderam às perguntas enviadas pelo Expresso.

A fadista, que lançou o álbum “Moura” em novembro, cantou na ilha de Luanda, no Lookal Ocean Club, a 5 de fevereiro. Foi também uma das estrelas da noite no mês seguinte, no Porto, durante a estreia da exposição de arte africana de Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos. No final do evento deixou-se fotografar ao lado do casal angolano. Curiosamente, oito meses depois, a cantora fez parte do cartaz de artistas que atuou em Lisboa no concerto intitulado “Liberdade Já”, de solidariedade para com os ativistas detidos em Angola. Uma mudança de palcos que do ponto de vista de Ana Moura não revela qualquer tipo de contradição: “O meu concerto do ano passado em Angola não teve rigorosamente nada a ver com o regime angolano, e o espetáculo em que participei no Porto foi um evento cultural onde estiveram presentes muitos agentes culturais portugueses e angolanos. Decorreu muito antes das detenções dos ativistas angolanos que levaram ao espetáculo solidário em que cantei em novembro. Assim sendo, qualquer sensação de incoerência não faz sentido”, defende.

Instantes 2. Ana Moura esteve na estreia da exposição de arte africana de Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos, no Porto

Instantes 2. Ana Moura esteve na estreia da exposição de arte africana de Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos, no Porto

Ana Moura revela que a questão dos direitos humanos não é nova na sua carreira. Já em 2012 foi pressionada por ativistas palestinianos para cancelar um concerto previsto para Israel. “Decidi manter o espetáculo, porque entendo que a música é uma das mais poderosas ferramentas ao serviço da paz e da concórdia entre os povos e as diferentes culturas. A música sempre aproximou as pessoas. Por outro lado, eu não canto para governos ou regimes. Canto para o meu público. Não me sinto minimamente refém do poder político existente em determinado país. Além disso, estas matérias são muito frágeis e facilmente suscetíveis de criar confusões. Não devo cantar em Angola, mas posso cantar nos EUA, que mantêm Guantánamo por resolver há tantos anos e que continuam a praticar a pena de morte em 2016? E na Rússia, onde a liberdade de imprensa e os mais elementares direitos, liberdades e garantias são postos em causa? E na China, relembrando eu a fortíssima ligação cultural que mantemos com Macau?”, questiona.

Boss AC não se arrepende

Os Xutos já atuaram várias vezes no país de Eduardo dos Santos. Em outubro de 2012 fizeram a abertura do Summer Opening Festival e há três meses pisaram o mesmo palco de Ana Moura, o Lookal Ocean Club. Citado pela imprensa angolana, o produtor de concertos da discoteca, Manuel Moura dos Santos, declarou que o evento celebrizava o rock’n’roll, um género que “está a dar os primeiros passos em Angola”. Tocaram para 1600 pessoas êxitos como ‘Para Ti Maria’, ‘A Minha Casinha’ ou ‘À Minha Maneira’. O preço dos bilhetes rondava entre 12 mil e 25 mil kwanzas (70 a 150 euros), valor próximo do ordenado mínimo em vigor naquele país (entre 112 e 168 euros).

Luanda tem sido uma tentação para vários artistas portugueses. Muitos têm aceitado convites de promotores angolanos

Luanda tem sido uma tentação para vários artistas portugueses. Muitos têm aceitado convites de promotores angolanos

A entrada não era tão cara como a do concerto de Mariza, que teve lugar no Epic Sana Luanda Hotel, uns meses antes, a 18 e 19 de abril. Quem assistiu ao “Mariza Irrepetível” pagou entre 52 mil e 99 mil kwanzas (cerca de 300 a 600 euros), o preço mais elevado, que dava direito à entrada, oferta de um CD de edição especial, um jantar com vinho e champanhe e acesso aos bastidores. Ricardo Tadeu, um dos colaboradores da artista moçambicana, explicou que de momento não seria possível responder às questões do Expresso. “A Mariza não se encontra neste momento em Portugal e por motivo de viagem não será possível enviar-lhe as respostas no prazo pedido.”

Ao contrário da fadista, o rapper Boss AC mostrou-se bem mais disponível para falar. Em dezembro de 2014 encabeçou o Show Boas Festas Unitel, no Estádio dos Coqueiros, ao lado do músico norte-americano Ne-Yo. “Foi com satisfação que aceitei o convite para voltar a atuar em Angola”, disse o artista ao Expresso, garantindo “não se arrepender” de ter dado aqueles concertos.

O rapper nunca chegou a equacionar a possibilidade de cancelar a sua presença em Luanda. “Na altura do convite, essa questão [os direitos humanos] não se pôs”, justifica. Hoje, as coisas seriam diferentes. “Dada a proximidade” com as detenções em Luanda, “e caso se justificasse”, ele ponderaria a hipótese de recusar um convite para dar mais um concerto em Angola. “Estou solidário com Luaty Beirão e manifestei essa solidariedade nas redes sociais. Reitero o que escrevi em outubro de 2015 a propósito da prisão dos ativistas: Desejo uma Angola livre e plural e em que cada um possa livremente expressar a sua opinião.”

Nicki Minaj aproveitou o concerto em Luanda para fazer uma selfie ao lado de Isabel dos Santos

Nicki Minaj aproveitou o concerto em Luanda para fazer uma selfie ao lado de Isabel dos Santos

Tanto os Buraka Som Sistema como o rapper Valete, que já foram igualmente estrelas de cartaz no Estádio dos Coqueiros, optaram por não tecer comentários. Também o promotor musical Luís Montez, que montou vários festivais Super Bock Super Rock em Angola, preferiu remeter-se ao silêncio.

Para Alex Gladstein, da HRF, os argumentos usados pela organização contra os grandes nomes internacionais da música estendem-se também aos cantores portugueses que optaram por atuar em Luanda. “A HRF encoraja os artistas a juntarem-se à luta pelos direitos humanos. Os músicos têm um papel chave a jogar no movimento para a liberdade e justiça. As ligações culturais e sociais entre Portugal e Angola fazem com que seja ainda mais importante para os artistas portugueses mostrarem solidariedade com Luaty Beirão e outros artistas angolanos perseguidos e falarem publicamente contra a sua perseguição.”

Nem todos os grandes artistas se mostram indiferentes aos apelos da organização norte-americana. A colombiana Shakira já tinha agendado um concerto na Tchetchénia, onde ia tocar na festa do 35º aniversário do Presidente Ramzan Kadyrov, em 2011. Acabou por cancelar a viagem depois de receber uma carta da HRF que enunciava os crimes do ditador. Também a artista Erykah Badu cancelou os planos para cantar na Gâmbia após alertas semelhantes feitos pela HRF.

DEPOIS DA POLÉMICA, A CARIDADE

Nelly Furtado mostrou arrependimento por ter tocado em Itália para a família Kadhafi e veio a público garantir que iria entregar o dinheiro do concerto a instituições de caridade. Em 2011, a cantora doou um milhão de dólares para a construção de uma escola de raparigas necessitadas no Canadá. Os mais cínicos lembram que Nelly Furtado fez estas declarações depois de a revista norte-americana “Rolling Stone” revelar os nomes de artistas que tocaram para Kadhafi. Além da luso-canadiana, também Mariah Carey, Beyoncé, Usher e 50 Cent tinham recebido cachês milionários em troca de concertos privados.

As duas cantoras, Mariah Carey e Beyoncé, seguiram o mesmo exemplo de Furtado, doando os ‘dólares de sangue’ que tinham recebido. “Fui ingénua”, chegou a declarar Carey durante o pico do escândalo. Mais tarde viria a despedir o agente que a colocou na rota do ditador líbio. Só que, em 2013, a artista voltou a prevaricar, ao aceitar ir cantar ao polémico concerto em Luanda. Carey atuou, ora de biquíni, ora com um fato de Pai Natal, não se esquecendo de tirar fotografias ao lado da família de Eduardo dos Santos.

Nessa gala da Cruz Vermelha em Angola houve tempo para um leilão, que incluiu um dos vestidos usados pela cantora durante a noite. “Estou muito feliz e entusiasmada, é um prazer cantar para o Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos”, afirmou Carey no palco. Poucos meses antes havia cantado os parabéns ao ditador do Turquemenistão. A lição de Kadhafi tinha sido rapidamente esquecida.

Pior do que Mariah Carey só uma outra cantora que também vende milhões, Jennifer Lopez. A artista latina é uma espécie de besta negra da Human Rights Foundation. Em 2013 foi acusada de receber mais de 10 milhões de dólares de “vigaristas e ditadores” das ex-repúblicas soviéticas. Nesse ano, foi apanhada numa festa de aniversário do Presidente do Turquemenistão, Gurbanguly Berdimuhammedow, considerado como chefe de um dos governos mais repressivos da Ásia Central. O agente da cantora tentou apagar o fogo, justificando que Lopez nunca teria feito nada do género se soubesse que os direitos humanos não eram respeitados naquele país.

 Nicki Minaj, uma das cantoras mais famosas do mundo, ao vivo em Luanda

Nicki Minaj, uma das cantoras mais famosas do mundo, ao vivo em Luanda

agência já

Alegações que convenceram poucos, já que, dois anos antes, a artista tinha recebido um milhão de dólares de um industrial uzbeque para atuar no casamento do filho. E antes ainda recebera uma quantia semelhante para um concerto no aniversário de um homem de negócios russo. As digressões da cantora latina terão passado também pela Bielorrússia e Azerbaijão.

Outro cantor com cartão amarelo é Júlio Iglesias, que não se importou de cantar na Guiné Equatorial, considerada uma das ditaduras mais repressivas em África. Iglésias não reagiu às críticas. Regra geral, os artistas acusados de conivência com países autocráticos preferem manter-se no silêncio. Depois há as exceções. Em dezembro, pouco antes de atuar no concerto de Natal em Luanda, Nicki Minaj respondeu aos detratores via Twitter, citando uma frase bíblica. “Cada língua que me ataca deve ser condenada em julgamento.”

Alex Gladstein, Diretor estratégico da Human Rights Foundation

A HRF tem esperança de que os comunicados que criticam as atuações de artistas como Mariah Carey ou Nicki Minaj em países onde não são respeitados os direitos humanos chamem a atenção do público sobre o assunto?
As críticas da HRF aos artistas que atuam para ditadores tem chamado repetidamente a atenção do público em várias partes do mundo. No exemplo mais recente da Nicki Minaj, dezenas de media mundiais escreveram sobre a ditadura e a corrupção em Angola depois das nossas denúncias sobre o concerto. Como resultado, milhões de pessoas leram artigos e posts sobre a repressão naquele país (e muitas delas agora têm uma melhor compreensão sobre os abusos do Governo de Angola). Enquanto o mundo debate o concerto da Nicki Minaj, fala também sobre a corrupção em Angola.

Estas denúncias podem fazer com que outros artistas não atuem em Angola? Ou é difícil mudar toda esta situação?
Hoje, as celebridades pagam um custo significativo se escolherem atuar ou visitar ditadores. Para alguns artistas como Nicki Minaj, o dinheiro está acima do resto. Mas outros, que têm uma imagem pública a defender, acabam por ser desencorajados a atuar nesses países devido à má imprensa que isso pode originar.

Há alguns artistas portugueses que atuaram em Luanda recentemente. O que tem a dizer a HRF sobre a sua decisão de dar concertos em Angola?
A HRF encoraja todos os artistas a juntarem-se à luta pelos direitos humanos. Os músicos têm um papel chave a jogar no movimento para a liberdade e a justiça. As ligações culturais e sociais entre Portugal e Angola fazem com que seja ainda mais importante para os artistas portugueses mostrar solidariedade com Luaty Beirão e outros artistas angolanos perseguidos e falar publicamente contra a sua perseguição.

Artigo publicado na REVISTA E do jornal EXPRESSO de 6 fevereiro