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O smartphone é uma arma... da imagem

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Apontar o telemóvel para fotografar tudo e mais alguma coisa, com alguma arte, pode ser mobile photography. É mais uma comunidade a crescer online, à mesma velocidade que a tecnologia avança

getty images

O prato chega à mesa. A comida parece apetecível e vem elegantemente disposta. Não há pingos nem excessos. É tudo feito em doses pequeninas. A fome aperta, os convidados também querem comer, mas antes disso há algo mais importante. Fotografar o prato. Os ‘fotógrafos de Instagram’ levantam-se, pedem ajuda ao do lado para apontar a lanterna do iPhone e não fazer sombra, retiram o prato da confusão visual de uma mesa com toalha e cheia de talheres e levam-no para um canto. Já algum dia se viu numa situação destas? É provável que sim. Ou então, se a comida não for o seu forte, ao contrário do que acontece com os utilizadores de Instagram, que já usaram a #foodporn 84.204.577 vezes, ou a #foodlovers outras 1.453.550 vezes, ponha-se noutra situação. O concerto é espetacular, a banda não deverá voltar a atuar em Portugal, já tirou uma selfie à entrada da sala, outra — de braço esticado — com os amigos abraçados e a fazer o V de vitória, ilustrado com um smile. Antes disso, logo depois de ter sido comprado, o bilhete foi fotografado e disseminado através do Instagram por todas as redes sociais: Facebook e Twitter. (Se tiver menos de 23 anos ou achar que é tão cool para o parecer, até deve ter feito um vídeo no Snapchat.) Também não se identifica com isto?

Ainda não se reconhece? Então, experimente mais esta: vai de férias com a família, os monumentos são milenares ou as praias paradisíacas. Dificilmente voltará a ter crédito para tal aventura, a família diverte-se, mas em vez de aproveitar o momento vai tirando fotografias, em especial aos próprios pés, sempre com o smartphone. De vez em quando lá tira a câmara reflex para uma imagem mais compostinha com o grupo, para retratar todos os ângulos. Do lado direito na praia ou em frente ao monumento, do lado esquerdo, a fazer cara séria ou a brincar, outra mais atrás, outra mais à frente, outra de cima para baixo, outra de baixo para cima. Se está nalgum destes grupos, então é sinal de que pratica a mobile photography.

O conceito é demasiado complexo para ser definido como fotografias tiradas com smartphones, tratadas com filtros de aplicações e publicadas através de outras aplicações. Há quem defenda que só há mobile photography quando se tiram as imagens com o iPhone, ou quando se publica apenas numa aplicação: o Instagram (a rainha de todas no que toca a priveligiar publicações de imagens). “Não é muito claro o que é e o que não é mobile photography. Uma câmara pequena e um iPod que tire fotos também são portatéis, não são?! Logo aí, aumentamos a definição do objeto que permite fazer mobile photography. A definição evolui à medida que a tecnologia cresce”, esclarece Simon Sparks, professor de Filosofia da Universidade do Oglethorp, em Atlanta, nos EUA.

A comida é das coisas mais partilhadas nas redes sociais

A comida é das coisas mais partilhadas nas redes sociais

Há quem ache que basta ter um smartphone, procurar o melhor âmgulo, ajeitar a luz, apontar a câmara, partilhar e já está. Mas há fatores que fazem a diferença. “Um é a lente — por mais avançados que sejam os telefones, os megapixels, etc., a reduzida dimensão da lente vai ser sempre uma limitação, nunca irá captar a luz e os detalhes que uma lente convencional (e bem maior) consegue. O outro factor é a conectividade, que está relacionada com a motivação da fotografia — na maior parte das vezes a ideia é partilhar a imagem de imediato”, defende José Miguel, mais conhecido nas redes sociais como @bzoing, anfitrião de workshops onde ensina que para tirar boas fotografias “convém estar sempre pronto a disparar, não hesitar”. E faz recomendações que a maioria dos nativos digitais não se lembraria: “Que se use sempre a câmara nativa do telefone — ao invés de usar filtros e aplicações —, porque depois é possível editar, ajustar, fazer uma infinitude de edições à imagem original.”

Atenção, quem faz isto não significa que seja um fotógrafo das redes sociais. “Não chamo fotógrafo a todas as pessoas que fazem fotografia e usam o Instagram — da mesma forma que não chamamos jornalistas ou cronistas a todos os bloggers.”

Laboratório Instagram

Numa coisa se encontra consenso. O ponto de partida — o início — deste ‘movimento’ esse é comum: o gosto de partilhar o que se faz. E nesse gosto a comida, seja de que tipo for desde que seja bonita, ganha o pódio das preferências. “Toda a vida as pessoas gostaram de partilhar o que lhes dá prazer. Se antigamente o faziam presencialmente com os amigos, ao partilharem os ténis novos ou o livro que estavam a ler, desde há uns anos para cá, com as redes sociais, tudo ficou mais acessível e rápido de ser partilhado.

A comida, em específico, começou a ganhar maior projeção com programas de televisão como o “MasterChef”, que, quando associada à crescente curiosidade pela área da nutrição e tudo o que tem a ver com estilos de vida saudáveis e alimentação equilibrada, terá culminado no gosto pela partilha, principalmente aquilo que as pessoas consideram mais saudável”, explica Raquel Fortes, autora do blogue “It’s Up to You”, dedicado a um estilo de vida saudável (outra das atuais tendências). Do blogue nasceu uma conta de Facebook, depois uma de Instagram e Raquel começou a perceber a necessidade de aperfeiçoar o food styling das imagens. Raquel juntou-se a Samanta McMurray, outra blogger adepta de um estilo de vida saudável mas com formação em fotografia, saíram da blogoesfera para a vida real e criaram o workshop Instafood, para que as fotografias mobile deixem no ar a dúvida se foram tiradas com uma câmara ou com um smartphone.

Tal como no mundo da fotografia, tudo se submete à ‘lei da luz’. “O workshop começa com a parte teórica, onde são dados vários exemplos de fotografias com descrições e explicações sobre os melhores enquadramentos, o processo que levou a determinada imagem, a luz, sempre natural se possível, composição e edição. São abordadas também técnicas de styling e dicas infalíveis; por exemplo, quais são os alimentos frescos que ficam sempre bem nas imagens”, explica Samanta do “Eat Love With Love”. “A ‘mania’ de fotografar e partilhar (em privado e em redes sociais) foi crescendo conforme as tecnologias foram permitindo. Assim sendo, não considero que seja um ‘movimento’ consciente. Existe apenas porque há imensa gente a usufruir dessas mesmas tecnologias”, continua José Miguel. O seu percurso pode-se aplicar a muitos dos mobile photographers. Antes de aqui chegar, fez muita fotografia analógica, “depois a minha máquina avariou e só muitos anos mais tarde o facto de andar com uma câmara minimamente decente no bolso o tempo todo voltou a despertar em mim o bichinho da fotografia”. O Instagram funcionou como um laboratório onde o feedback instantâneo foi crucial e como uma fonte de inspiração.

Na internet é fácil encontrar dicas, sugestões de aplicações, blogues especializados ou até mesmo prémios para os melhores da mobile photography, aos estilo dos Óscares. Em 2014, pouco depois do seu boom, utilizadores do Instagram começaram a encontrar-se regularmente, semanal ou mensalmente, consoante o país e a cidade — serão, talvez, os primeiros passos de uma comunidade. O próximo passo, e essa discussão também já começou na internet, é saber se se pode tratar de arte — à semelhança do que acontece com a fotografia — ou não. Até lá, as redes digitais continuam a crescer.

Mobile photographers a seguir no Instagram

Ana Sampaio Barros
Vanessa Rees
Brandon Stanton
Anthony Danielle
Clerkenwell_Boy
SymmetryBreakfast
Anna Jones
David Ingraham
Linda Lomelino
Anton Kawasaki
Elisabeth Kirby
David Frenkiel e Louise Vindahl

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 19 março 2016