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O pijama sai à rua

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A moda tem destas coisas: a roupa com que se deita todas as noites pode transformar-se na próxima tendência a usar durante o dia. História do ‘sleepwear’

Cortesia Olivia von Halle

A revolução deu-se do dia para a noite. Talvez seja mais correto dizer que migrou da noite para o dia. Usar a roupa de dormir às claras — seja combinações, calças largas ou calções e camisas de seda — compõem o novo look “festa do pijama”, a marca da estação. Se a modelo Kate Moss aparece de pijama às riscas no réveillon deste ano, em Trancoso, no Brasil, e a celebrity Kendall Jenner está na semana da Moda de Londres de pijama de seda, robe, gabardine, chapéu e stilettos, é bastante seguro dizer que está lançada uma nova tendência. O conjunto clássico do pijama — calças e camisa com botões, debrum a branco na gola e virola nas calças — ganhou estatuto próprio e padrões luxuosos e trabalhados, dos motivos japoneses a florais e outros. Chamam-lhe sleepwear, roupa de dormir, e é a moda para estar acordado e bem vestido nesta primavera-verão. O look é assumidamente integral. Vale pelo conjunto, para associar com complementos sofisticados, saltos altos obrigatórios, lenços, chapéus ou joias.

CORTESIA "FOR RESTLESS SLEEPERS"

Três marcas emergiram em força desta tendência. A londrina Olivia von Halle assina pijamas de seda de duas peças dos mais variados feitios, e David Beckham confessou que compra conjuntos desta marca para a mulher, Victoria Beckham, o que certamente ajudou nas vendas (que não têm nada de barato — um pijama ronda os €500). A Sleeper, criada por duas ex-editoras de moda ucranianas, Kate Zubarieva e Asya Varetsa. E a italiana “For Restless Sleepers” (F.R.S.), da autoria de Francesca Ruffini Stoppani, a mulher do CEO da Moncler. Outras casas de moda aderiram à corrente, da espanhola Zara à Valentino ou à Rochas. Mas como todas as tendências de moda, também esta é cíclica — nos anos 20, uma das musas da moda europeia, Coco Chanel, era adepta e entusiasta dos lounging pijamas, pijamas cuidados, em seda, com os quais se podia passar o dia sem envergonhar ninguém.

A stylist Filipa Caramujo assegura que “os pijamas ganharam um novo fôlego, novas versões e estilos nesta estação”. “Mas tudo começou nos anos 20, com Coco Chanel a revolucionar a moda, vestindo mulheres com pijamas de tecidos luxuosos como o cetim, a seda e o algodão indiano. Essa tendência só seria seguida no mundo do cinema, pois as senhoras da sociedade da época achavam-na pouco apropriada e provocante. Foi através da discreta atriz Claudette Colbert que a popularidade do pijama cresceu, logo seguida por Marlene Dietrich e Greta Garbo”, explica.

CORTESIA OLIVIA VON HALLE

A tendência saltou das passerelles para as ruas após um desfile de Dolce & Gabanna na Semana da Moda de Milão, em 2015. Vivienne Westwood, Louis Vuitton, Phillip Lim, Alexander Wang e Gucci seguiram-lhe os passos. O sleepwear ou slipdress obriga a tecidos de qualidade, leves e fluidos, a cores e padrões sofisticados, como o preto, marinho, verde militar, combinados com estampas arty, abstratas, paisley ou digitais. O sleepwear como o outwear já conquistou algumas fashionistas. “Desengane-se se acha fácil de usar: é preciso ter atenção para não correr o risco de ficar com um visual caricato. Há que criar um look elegante e equilibrado”, defende Filipa Caramujo.

Se sempre teve uma combinação que acha que lhe fica a matar, já não precisa de ter pena de não a poder usar na rua. Agora pode. Não só pode, com os devidos saltos altos em vez dos chinelos de quarto, como estará na moda nesta primavera-verão. Pode até levar o pijama para o escritório e para um evento fashion. Com os acessórios certos, o tal pijama poderá fazer com que seja a única pessoa acordada num mar de gente a dormir na cama da moda. Atreve-se?

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 19 março 2016