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Cada português tem por ano menos €1500 que um espanhol e €10.000 que um alemão

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LONGE DA MÉDIA. Ainda mais altos que os rendimentos dos portugueses são os dos alemães ou dos austríacos, ambos acima da média europeia

NUNO BOTELHO

Uma publicação conjunta dos institutos estatísticos de Portugal e Espanha mostra como é que os dois países se aproximam e distanciam em vários indicadores estatísticos. Um deles é o rendimento disponível, no qual Portugal fica abaixo de Espanha e ambos distantes da média da União Europeia

A proximidade de Portugal e Espanha, enquanto países vizinhos, não se verifica em alguns dos indicadores estatísticos apresentados num estudo conjunto entre os institutos nacionais de estatística dos dois países. Um deles é o rendimento bruto disponível per capita, com os valores já ajustados às diferenças de preços de cada país. É que se cada português tem um rendimento anual de 16.830 euros, um espanhol tem 18.340 euros. O que dá, entre os dois, uma diferença de menos 1510 euros para os portugueses.

A publicação “Península Ibérica em Números”, disponibilizada esta quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), reúne dados sobre 14 temas diferentes numa comparação direta entre Portugal e Espanha, para além de os posicionar entre os restantes países da União Europeia (UE). E no caso do rendimento bruto per capita, com dados para 2014, a distância aumenta para 9906 euros se compararmos Portugal com a Alemanha (o país com o rendimento mais elevado na UE). É que se um português tem em média 16.830 euros por ano, um alemão tem 26.736 euros, tendo em conta as paridades de poder de compra (ou PPC, que são deflacionadores que eliminam os efeitos das diferenças nos níveis dos preços entre países).

Em termos médios, entre os 28 Estados-membros da União Europeia, o rendimento bruto disponível per capita é de 20.732 euros. E acima dessa média, para além da Alemanha, fica Áustria, França, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Reino Unido e Itália. No caso particular dos italianos, o rendimento fica praticamente colado à média (€20.733).

Apesar de estar acima de Portugal, também Espanha fica abaixo da média europeia, assim como a Letónia, Hungria ou Eslovénia. Entre os países para os quais há dados relativos a 2014, a Letónia surge como o país com o rendimento mais baixo per capita (€11.882).

Desde 1986 até hoje

Quando se compara Portugal com a União Europeia, conclui-se que a tendência de divergência dos rendimentos se acentuou, segundo uma análise dos últimos 30 anos do rendimento das famílias portuguesas, inserida na publicação “Três Décadas de Portugal Europeu”, de Augusto Mateus, editada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS). “A tendência de desaceleração do ritmo anual de crescimento do rendimento disponível das famílias portuguesas acompanhou um declínio transversal à generalidade da UE, tendo tido, no entanto, maior expressão, o que reverteu parcialmente a convergência anterior”, lê-se na análise.

Lucília Monteiro

Se por um lado, na década de 1990, a evolução do rendimento disponível dos portugueses superou o referencial europeu, “o ritmo de crescimento anual de 1%, verificado entre 1999 e 2008, já foi o segundo mais baixo da UE.”

A divergência acentuou-se, desde 2010, com o impacto da crise económica e financeira no rendimento das famílias a ser bastante mais intenso em Portugal. A contração de 10% do poder de compra nacional entre 2010 e 2013, tendo sido inferior à dos países mais afetados pela crise, não deixou de ser cinco vezes superior à verificada no conjunto das economia da União Europeia”, lê-se na publicação da FFMS.

Quanto às razões, o peso pende sobre os ordenados e os salários. “Os salários, embora continuem a ser a principal fonte de rendimentos, viram o seu peso relativo cair de 70% em 2003 para 63% em 2013.” Evolução contrária tiveram os impostos e contribuições sociais, que ganharam impacto no poder de compra. “Se em 1986 a sua soma correspondia a 17% do rendimento disponível, em 2013 já representa 31%.”

Portugal é o 4º país da UE com mais horas de trabalho

A publicação estatística sobre Portugal e Espanha, publicada esta quarta-feira pelo INE, mostra ainda outros indicadores, como a população em risco de pobreza ou exclusão social. A taxa em Portugal era de 27,5% em 2013, acima de Espanha (27,3%), assim como mais elevada do que nos países da União Europeia (24,5%). No caso da taxa de pobreza entre os jovens (15-29 anos), Espanha está numa situação pior que a de Portugal, com uma taxa de 34%, acima dos 31,1% dos jovens portugueses. A média da UE fica nos 29%.

Quando se fala de emprego, Portugal surge como o quarto país da UE com o maior número de horas trabalhadas: são 42,8 horas, acima das 41,6 horas em Espanha – em ambos os casos acima da média europeia (41,5 horas). Outro dos vários dados que constam na publicação mostra as projeções de população para os dois países. Enquanto se estima que em Espanha a atual população, de 46,5 milhões de habitantes, aumente a partir de 2030 e atinja os 47,6 milhões em 2080, para Portugal o cenário é outro. Estima-se que os atuais 10,4 milhões de habitantes desçam para 7,1 milhões em 2080.