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A geografia do medo

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TERRORISMO. Muitos dos agentes do terror na Europa vêm dos bairros sociais transformados em guetos habitacionais

REUTERS/VINCENT KESSLER

Comboio ao princípio da noite de Amesterdão para Haia. Álvaro Siza viaja acompanhado de outros dois arquitetos, o português Nuno Grande, e o italiano Roberto Cremascoli, comissários do pavilhão de Portugal na próxima bienal de Veneza de arquitetura. Estão a visitar os bairros destinados a habitação social construídos por Siza na Europa. O destino, agora, é o conjunto de blocos de apartamentos de Schilderswijk West, em Haia. Os pouco mais de 50 quilómetros de distância entre as duas cidades são percorridos em 25 minutos. Há, ainda assim, tempo e oportunidade de conversar com outros passageiros. Uma mulher holandesa mostra-se curiosa e quer conhecer as razões da visita. Quando Siza lhe aponta Schilderswijk West como destino, depara com uma imediata reação de espanto e rejeição. Num tom de aviso confundível com súplica, a mulher roga-lhes que não se atrevam a entrar naquele antro de malfeitores. Verbaliza o discurso alimentado pela extrema-direita holandesa, que tem vindo a classificar o bairro como o mais perigoso do país.

Bairro construído por Siza em Haia agora ocupado em mais de 90% por emigrantes turcos e marroquinos

Bairro construído por Siza em Haia agora ocupado em mais de 90% por emigrantes turcos e marroquinos

ALESSANDRA CHEMOLLO

Com e sem Siza, andámos por lá vários dias. A entrar nas casas, a falar com os habitantes, a conhecer-lhes hábitos, mas também reservas e desconfianças. Não fosse o desabafo daquela mulher e o conhecimento da narrativa construída pelo chamado Partido para a Liberdade, cujo principal dirigente, o ultranacionalista Geert Wilders, se tem destacado por lutar pelo repatriamento de todos os muçulmanos residentes na Holanda e afirmar que odeia o Islão, e jamais nos teria ocorrido pensar nos hipotéticos perigos de uma tão continuada presença naquele grande bairro.

Seja pelo ambiente geral, seja pelo aspeto exterior das casas, tudo ali respirava o ar tranquilo de uma pacata zona residencial. E, no entanto, há, para lá da superfície, uma outra realidade à qual convém prestar atenção. Na origem, foi construído com a generosa (e utópica?) intenção de promover a integração das diferentes comunidades. Ao ser inaugurado, no final dos anos de 1980, metade dos seus moradores eram holandeses e a outra metade eram emigrantes de diferentes nacionalidades, portugueses incluídos.

Passados vinte e seis anos, a paisagem humana alterou-se de forma radical. Mais de 90% dos atuais habitantes são emigrantes, marroquinos ou turcos, na sua esmagadora maioria. A presença de holandeses é residual. Têm de ser procurados à lupa para serem encontrados. Seja qual for a razão, ao longo dos tempos a sociedade holandesa criou ali uma espécie de gueto. A comunidade criou as suas próprias lojas, os seus templos, os seus espaços de vivência comunitária. Desapareceu o contacto com o outro. Esta ausência de vasos comunicantes entre culturas e conceitos de vida diferentes começa a revelar-se dramática para a Europa.

Há uma pérfida tendência de alguns colunistas de direita para associarem a esquerda (à qual gostam sempre de acoplar as inevitáveis variantes de caviar ou bem pensante) a uma certa vocação desculpabilizante dos coitados, dos incompreendidos, dos desintegrados, dos mal amados árabes. O argumento esgota-se na sua própria inutilidade enquanto instrumento para um debate sério.

Aeroporto de Bruxelas

Aeroporto de Bruxelas

KETEVAN KARDAVA/reuters

Num dos últimos números da revista do jornal espanhol El País, o escritor Javier Cercas abordava este tema. Citava Manuel Valls, primeiro-ministro francês. que num debate no parlamento sobre terrorismo terminou uma longa intervenção com esta frase: “compreender um projeto terrorista, nunca: é inaceitável”. Na opinião de Cercas, Valls está equivocado ao cometer um erro linguístico “que implica um erro moral e outro político: assenta em confundir o verbo compreender com o verbo justificar”. Nada mais falso, visto tentar compreender tudo não é perdoar nada. Nesse sentido, prossegue o escritor, “compreender o mal – qualquer mal, incluindo o do terrorismo - não significa justificá-lo, mas, como argumentou Tzvetan Todorov, proporcionar os meios para o combater e impedir o seu regresso”.

Nas décadas seguintes ao fim da II Guerra Mundial, a Europa devastada quase implorou a chegada de emigrantes, indispensáveis ao esforço de reconstrução. Só em Berlim, onde Siza construiu o bloco de apartamentos de habitação social em em Schlesisches Tor, depois conhecido por “Bonjour Tristesse", chegaram a conviver mais de 100 mil turcos.

Bairro de Siza em Berlim

Bairro de Siza em Berlim

GIOVANNI CHIARAMONTE

Afogada numa crise sem precedentes, a Europa vacila também nos seus valores morais e éticos. Claramente não sabe o que fazer com os filhos destes emigrantes. Claramente não compreende como podem ter crescido tantas bolsas de radicalização entre aqueles que considera usufruírem do modo de vida proporcionado pelos sistemas políticos e sociais europeus.

Talvez por isso, e por mais polícias e mais sofisticação de armamento exibido nas ruas, por mais vigilância e mais apertadas regras de cidadania que possam existir, tudo será em vão enquanto o objetivo maior não estiver centrado no esforço de compreender. Compreender as causas. Compreender o porquê. Compreender os esquemas mentais. Compreender o que leva um jovem a fazer-se explodir num aeroporto, junto a um café, numa estação de metro. Compreender o que motiva o outro a desencadear atos tão bárbaros e tão assassinos. Compreender, de novo, não é desculpar. É construir os atalhos capazes de levar à tentativa de descodificação deste nó e, no limite, a aniquilar a pulsão de terror.

Evitar a geografia do medo poderá constituir a última fronteira entre o precipício que será confundir o juízo individual com o preconceito coletivo.

Valdemar Cruz escreve a coluna “Linha do Norte” todas as quintas-feiras no EXPRESSO DIÁRIO