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Saúde mental: “Os portugueses são mais vulneráveis ao sofrimento”

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O retrato da saúde mental em Portugal, traçado no mais recente relatório da Direção-Geral da Saúde, não é animador. O consumo de antidepressivos está a disparar e o suicídio está a crescer, sobretudo nas pessoas em idade ativa

Em entrevista ao Expresso Diário, o diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental, Álvaro de Carvalho, sugere que os portugueses são mais vulneráveis ao sofrimento psicológico e diz que a crise económica vivida nos últimos anos fez aumentar o desespero.

De acordo com o relatório “Saúde Mental em Números”, divulgado esta quinta-feira, o suicídio em Portugal continua a ser maior entre os idosos, mas está a crescer entre as pessoas em idade ativa. A que se deve este aumento?
O relatório indica que, tanto nos homens como nas mulheres, tem crescido o número de anos de vida perdidos por suicídio, o que significa que se estão a suicidar pessoas mais jovens, em idade ativa. Nas consultas de prevenção do suicídio, muitas pessoas na casa dos 40, 50 anos queixam-se de que são muito novas para se reformarem, mas já são consideradas demasiado velhas pelo mercado para poderem trabalhar. É um discurso muito comum.

A crise económica agravou o problema?
Um estudo elaborado pela professora Paula Santana, que saiu em agosto e que se baseou nos últimos três censos populacionais, conclui que sim. O aumento dos suicídios nas zonas rurais da região centro e da região norte, que tinham tradicionalmente uma baixa incidência de suicídio, também aponta para isso e é demasiado grave para que o Governo não dê atenção ao que se está a passar. O estudo recomenda que sejam levados a cabo programas de desenvolvimento económico e social, sobretudo nas zonas rurais e interiores.

O suicídio está também a crescer entre as mulheres, apesar de continuar a ser um fenómeno sobretudo masculino. Esse aumento também estará relacionado com a crise?
Provavelmente sim. Na minha leitura, a crise provocou um aumento do desespero, tal como aconteceu noutros países como a Grécia, ainda que de um modo mais explosivo. Isso está de acordo com toda a literatura internacional sobre os efeitos das crises. Os suicídios são mais comuns em pessoas que ficam desempregadas, que têm grandes dificuldades económicas e que perderam a casa. Em Espanha, por causa disso, foi inclusivamente alterada a lei que permitia que fosse retirada a habitação própria a pessoas em situação de rutura financeira.

Isso poderá explicar o aumento do consumo de antidepressivos em Portugal nos últimos anos?
No caso das depressões por falta de dinheiro, de emprego, de capacidade de alimentar a família e os filhos, não há antidepressivo que resulte. Ou se deteta a tempo essas situações de depressão e as pessoas são internadas e têm um apoio efetivo que lhes permita ficar mais confortáveis na vida, ou então é muito difícil reverter esses processos de desespero.

A depressão está de facto a aumentar a um ritmo alarmante, como pode sugerir o crescimento significativo do consumo de antidepressivos?
O aumento dos antidepressivos poderá passar por uma melhoria da capacidade de diagnóstico e terapêutica e por uma maior sensibilidade dos clínicos, em geral, em relação a este problema. Só daqui a dois ou três meses é que podemos ter uma ideia mais rigorosa, uma vez que o primeiro estudo epidemiológico realizado em Portugal, em 2013, está neste momento a ser replicado, utilizando a mesma amostra, o que vai permitir atualizar a prevalência das doenças mentais e quantificar o impacto da crise económica. Uma das conclusões desse primeiro estudo epidemiológico é que Portugal é dos países onde a depressão assume maior gravidade e em que o intervalo de tempo entre o aparecimento dos sintomas e o início do tratamento é mais elevado. Só 37% das pessoas com depressão major, que é o que mais leva ao suicídio, tiveram uma consulta médica no primeiro ano da doença.

Por que razão Portugal aparece como um dos países europeus com maior prevalência de doença mental?
Há motivos que nos escapam, mas sabemos que Portugal tem das maiores taxas de consumo de benzodiazepinas (ansíoliticos) da União Europeia e, simultaneamente, das maiores taxas de consumo de bebidas alcoólicas em todo o mundo. Pode haver qualquer coisa na nossa cultura que faz com que os portugueses sejam mais vulneráveis ao sofrimento. São elementos que têm de nos fazer refletir.

A verdade é que a depressão tem estado a aumentar, de uma forma geral, em todo o mundo ocidental. A Organização Mundial da Saúde fala mesmo numa epidemia. Há alguma coisa na forma de organização das sociedades ocidentais que provoque este aumento do sofrimento psicológico?
A depressão é a doença que mais tem crescido nos países desenvolvidos e é hoje a causa de maior incapacidade para o trabalho. Sabemos que as sociedades ocidentais têm menos espaço para o lazer, para a convivência interpessoal e têm uma grande pressão para o trabalho, para a eficácia e para a produtividade. A enorme pressão para o sucesso académico e profissional pode ser um fator que promove a depressão. Tal como o consumo de álcool continuado.

Apesar de as doenças mentais serem das que mais incapacidade causam em Portugal, o relatório lamenta que sejam objeto de uma “baixa prioridade política”. Porque é que isso acontece?
Por um lado, porque as pessoas com doença mental grave não têm uma postura reivindicativa nem têm grande inserção social na comunidade. Por outro lado, e por natureza, as pessoas que estão deprimidas não têm grande iniciativa. Por isso é que nós temos feito muita força para a criação de mais associações de utentes e familiares e foi, aliás, com o nosso apoio que foi constituída há um ano a primeira federação de associações de famílias de pessoas com doença mental. Se os familiares e os amigos das pessoas com doença mental não os substituírem em termos de consciência cívica, estas pessoas não têm voz e não têm hipóteses.

Nos últimos anos, Portugal apostou no fecho de hospitais psiquiátricos e na desinstitucionalização das pessoas com doença mental. A curto prazo, o que vai mudar na política da saúde mental?
A tónica vai ser cada vez mais nos cuidados ambulatórios e residenciais. Por outro lado, o secretário de Estado da Saúde anunciou esta quinta-feira que a implementação dos cuidados continuados de saúde mental vai arrancar a muito breve trecho e vão incluir respostas para crianças e adolescentes, que tem sido uma grande lacuna em Portugal. Estão previstas residências para adolescentes com problemas de saúde mental e outras para adolescentes com problemas e de comportamento, o que pode permitir que alguns casos que hoje vão parar à delinquência e às mãos da Justiça deixem de ter esse percurso bastante indesejável.

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