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A máquina venceu-nos, mas torceu-nos?

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A derrota do campeão mundial de Go para um computador da Google (o AlphaGo, cujas indicações era aplicadas por um humano) voltou a trazer o duelo entre humanos e tecnologia para a ordem do dia

getty Images

O duelo entre o homem e a máquina não correu bem a Lee Se-dol, campeão mundial do jogo chinês Go , que perdeu uma série de partidas para um computador da Google. Ao Expresso, o presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial rejeita alarmismos e lembra que às máquinas falta a criatividade e o livre arbítrio

Não estávamos lá, mas não é difícil imaginar que naquela altura as mãos de Lee Se-dol deviam estar húmidas e tremelicantes, a sua cabeça a andar à roda, a mente nervosa a tomar conta do corpo. Quando se sentou à mesa que já conhecia, fez uma vénia a alguém que não estava lá e preparou-se para mais um desafio. Ao ganhar, disse que a vitória foi "incalculável", mesmo que simbólica: a batalha estava ganha, mas a guerra fora perdida.

Falamos do campeão mundial do complexo jogo de tabuleiro chinês Go, que só ganhou um dos cinco jogos que disputou contra o computador da Google AlphaGo. O duelo está a ser visto como um feito importante para a inteligência artificial, uma vez que este é um jogo considerado ainda mais complexo do que o xadrez (cujo campeão Gary Kasparov também foi vencido por um computador, dessa vez da IBM, em 1996). Mas o que é que esta vitória significa na prática, e o que é que pode mudar nas nossas vidas?

É o velho dilema

Esta série de jogos não significa nada de especial por si só, explica ao Expresso Paulo Novais, presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial (APPIA). "O que está por trás disto é o velho dilema de se as máquinas vão ou não superar-nos", explica o investigador. "Mas em algumas tarefas, e até em algumas que nem éramos capazes de executar, como voar, já nos suplantaram."

"Se as pessoas soubessem que quando vão ao supermercado e se registam com cartão de cliente ele percebe os seus hábitos de consumo, esse já seria um prenúncio. Já há computadores capazes de detetar o estado emocional de alguém, a fadiga, a sonolência", prossegue Paulo Novais, detalhando que isto só é possível porque "em 99% dos casos o nosso comportamento muda gradualmente, numa continuidade. Os sistemas também aprendem e vão-se reajustando".

Um dos exemplos dados pelo investigador é o dos sistemas sofisticados de criptografia usados por algumas empresas de software em que a combinação de login e password é reconhecida não pelo conteúdo, mas pela maneira de escrever do utilizador. Mas se todo este quadro parece assustador, o investigador esclarece que os computadores ainda não podem competir connosco: "Falta a criatividade, a intuição, o livre arbítrio".

Marketing extraordinário

Então porque é que a vitória do AlphaGo está a ser tão noticiada pela imprensa internacional? "É um marco porque é um jogo nobre e é de grande complexidade, mas a característica do AlphaGo de aprendizagem, o chamado deep learning, já existia. No caso do AlphaGo, o que o distingue é a capacidade de sintetizar grandes quantidades de informação". E, claro, o segundo fator: "É uma extraordinária manobra de marketing da Google".

Embora saliente que as ciências da computação estão em Portugal em "franco desenvolvimento", com mais de 300 cientistas a trabalhar na área, Paulo Novais rejeita alarmismos: "O homem é a máquina mais complexa que existe no universo, até ver", e prova disso é a sua capacidade para "criar estes artefactos", que não competem com a sua inteligência. "É a diferença entre saber porque se sabe e memorizar."