Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Porque é que a Apple lançou pela primeira vez um iPhone nesta altura do ano?

  • 333

STEPHEN LAM / Reuters

Diz a tradição que costuma ser mais próximo do outono. O diretor da Exame Informática, Pedro Oliveira, explica

Uma nota prévia: escrevi este artigo 16 horas antes do evento no qual Tim Cook ia revelar os novos dispositivos da Apple. Ou seja, hoje, à hora que está a ler este texto já se sabe o que se passou no campus da empresa mais valiosa do mundo. E, se os rumores estiverem certos, a Apple terá apresentado um novo iPhone com ecrã de quatro polegadas.

É nessa suposição (que tem um grau de certeza de mais de 90%) que se baseia este texto. Aliás, a premissa que está na sua origem é simples: o que leva a Apple a, pela primeira vez, apresentar um iPhone no primeiro trimestre do ano?

Nunca aconteceu. O primeiro iPhone (a “Exame Informática” esteve em São Francisco para o lançamento oficial) saiu em junho de 2007. Os três seguintes também chegaram antes do verão. No entanto, a partir do iPhone 4S, a Apple começou a preferir o último quadrimestre do ano para revelar a sua cash cow - o iPhone foi, nos últimos resultados financeiros apresentados pela empresa, responsável por vendas na ordem dos 51 mil milhões de dólares, de um total de 75.900 milhões de dólares.

E isso não vai mudar. Ou seja, o iPhone 7, o próximo topo de gama da empresa, só vai ser revelado em setembro. No entanto, a Apple percebeu que, à semelhança do que aconteceu com os iPad, também nos iPhone a taxa de renovação do equipamento diminui. É uma consequência da evolução tecnológica dos terminais. Neste caso, numa mistura mais conseguida entre software e hardware. O resultado? Smartphones que têm desempenho suficiente para se manterem fluidos durante 2/3 anos e que, por isso, não obrigam à sua substituição anual.

A Apple sente agora os efeitos da melhoria que imprimiu aos seus telefones. E a consequência está à vista: os próximos resultados financeiros indicam que, pela primeira vez, vai registar-se uma redução na venda de iPhones. Perante este cenário dantesco, a empresa decidiu acrescentar mais um ciclo de vendas adicionando um novo terminal ao portefólio. Este novo iPhone vem para tornar a empresa menos dependente das vendas de Natal (é no último quadrimestre do ano que as empresas da eletrónica de consumo fazem a quota de leão das vendas).

A aposta no “mais recente”

STEPHEN LAM / Reuters

Um telefone lançado em março tem por finalidade aproveitar os consumidores que ambicionam renovar o seu iPhone e não querem esperar pelo final do ano. Afinal, o ser o “mais recente” ainda é um dos principais fatores de influência de compra de um dispositivo eletrónico. Assim, quem compra no primeiro trimestre garante que está a adquirir o mais recente – mesmo que não seja o topo de gama.

Outro fator a ter em consideração é o preço. Este novo iPhone “fora de época” tem um preço mais convidativo que os que são mostrados em setembro. Além disso, espero eu, baseado nos tais rumores, o ecrã tem a mesma dimensão que o atual 5S, mas especificações técnicas do iPhone 6S. Um verdadeiro cocktail preparado para agradar a quem não embarcou na febre dos phablets – telefones com ecrãs com mais de cinco polegadas.

Esta é a oportunidade de ter um telefone que se consegue controlar facilmente com apenas uma mão e que não compromete o desempenho. Temos sempre a questão do preço. Reforço que estou a escrever antes do evento e, por isso, não sei o que foi decidido por Tim Cook. Mas, acredito, estará algures entre os 649 euros do iPhone 6 e os 519 euros do iPhone 5S.

Esta não é a primeira vez que a empresa norte-americana lança um iPhone mais acessível – nunca houve no lançamento, nem vai haver, um iPhone “barato” (abaixo dos 400 euros, entenda-se). Quando revelou o iPhone 5C, a 599 euros, a Apple apresentou, igualmente, o 5S, que era muito melhor. Talvez este lançamento simultâneo tenha prejudicado o iPhone mais barato de sempre (a preço de lançamento). Agora, com o desfasamento, a empresa pode tentar criar um espaço próprio para este novo dispositivo.

Olho na concorrência

STEPHEN LAM / Reuters

E há outro fator a ter em conta: a concorrência Android. Samsung, LG, Huawei, HTC… todas têm um portefólio muito variado, onde há telefones para todos os segmentos de preço. E, dado curioso, os topos de gama são habitualmente conhecidos no primeiro trimestre. Aliás, ainda agora a Samsung revelou os novos Galaxy S7 e a LG o G5. Estas empresas vão mantendo lançamentos mais “soft” ao longo do ano, tendo, claro, novidades guardadas para o último quadrimestre.

A estratégia tem funcionado. O Android é o sistema operativo móvel mais usado no mundo (uma taxa de penetração acima dos 80%, segundo a consultora IDC em números referentes a 2015) e a Samsung é número 1 mundial. Isto não quer dizer que não existam problemas com os fabricantes que atuam no Android. Existem e muitos. A Samsung mudou o seu responsável pela área dos telefones após as vendas do ano passado terem ficado abaixo do esperado e a empresa está a rever portefólio e, em alguns mercados, a abandonar os segmentos de preço mais baixos.

Na LG a situação foi mais complicada. Os maus resultados da área do mobile obrigaram a tripartir a divisão por três presidentes, que agora têm como missão principal redirecionar a empresa por novos e melhores caminhos – parece estar a resultar, a LG foi das empresas que mais surpreendeu no recente Mobile World Congress, a maior feira de telecomunicações da Europa.

A “equação chinesa”

STEPHEN LAM / Reuters

Mais um exemplo, a HTC. A empresa de Taiwan é uma verdadeira incógnita. Faz excelentes telefones, mas nunca conseguiu ganhar dimensão de mercado e está, constantemente, a ser alvo de rumores de uma possível aquisição.

Um dos poucos “fabricantes Android” que está a dar mostras de grande vitalidade é a Huawei. A empresa chinesa está a construir um portefólio de grande qualidade, com uma oferta que tem preços para todos os gostos. E lá vai crescendo. Já é o número 3 mundial.

Recentrando-me na Apple, este novo iPhone pode ter o condão de manter o ritmo de vendas da empresa mais constante e, acima de tudo, ser a resposta a todos os “fãs da maçã” que querem mudar de telefone com maior frequência, mas não gostam de ecrãs de grande dimensão ou não têm o poder financeiro para chegar, anualmente, aos preços que a Apple coloca nos seus topos de gama. Que, já agora, são muito semelhantes aos praticados pelos “fabricantes Android” para o mesmo segmento.

No evento de hoje, a Apple terá, supostamente, revelado um novo iPad e acessórios para o Apple Watch. Meros pormenores que foram, de certeza, ofuscados pela surpresa de ver um iPhone lançado fora de época.