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Herman José: “Fui um miniclone do Nicolau Breyner”

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Foram colegas de profissão, comparsas e amigos. Cruzaram-se vida fora mas cada um seguiu o seu percurso. Nunca se desligaram, porém, naquele profundo sentimento de comunhão e partilha. Herman José traça-lhe aqui o perfil. Nicolau Breyner morreu há precisamente uma semana

Qual é a primeira memória que tem do Nicolau Breyner?
É muito original. Entrei numa revista ainda como apoio do musical e dos coros. Era um meio absolutamente hostil. E tive mesmo a sensação de que aquilo não seria o meu futuro, de que não ia ficar lá a fazer nada, até porque, na altura, do ponto de vista cultural e social, senti-me também muito deslocado. De repente, aparece a primeira figura da companhia, que é a âncora, que me escolhe como apoio e que acaba por ser a razão de ter ficado não só na revista, como também de ter passado a colaborar com ele na televisão.

Porque é que isso acontece?
Ele ficou encantado por ter alguém com quem pudesse falar e estar. Éramos uma dupla um bocado fora naquele meio. Os interesses, as músicas, os cinemas, o fascínio por certas coisas boas que nem sequer eram tema de conversa. Portanto, houve ali uma grande identidade estética e cultural que acabou por nos unir.

O que significou para si o Sr. Feliz e o Sr. Contente?
Foi uma espécie de Euromilhões. Uma pessoa tem 20 anos, é completamente desconhecida e ainda está longe de ter encontrado o seu talento e em poucas semanas fica-se uma vedeta, daquelas que só apareceram mais tarde com as telenovelas. Fizemos espetáculos por todo o país, ganhámos imenso dinheiro. Tudo aquilo me permitiu começar a organizar a vida, comprar a minha primeira casa.

Que facetas mais o fascinavam nele?
Tinha aquela componente que me fascinava, a de católico praticante. Eu que sou completamente pragmático e que quanto mais anos passam mais granítico me torno nas minhas certezas, ficava sempre fascinado a ver como ele se entregava à fé com total convicção. Inclusivamente confessava-se e ia à missa com a mesma convicção profunda.

Isso ajudava-o?
Não sei. Mas gostava de dizer uma coisa de que ninguém fala por pudor. Tenho a certeza de que se ele vivesse pelo menos em Espanha, teria tido agora um nível de vida e uma paz económica que teriam permitido viver de uma maneira diferente. Correr menos e, de certeza, viver mais dez ou 15 anos. O Nicolau passava o tempo a remar atrás das despesas, dos encargos, de contas para pagar das empresas que criava e que às vezes não funcionavam. Se é verdade que numa fase resultou em criatividade, noutra deu-lhe trabalho a mais e obrigou-o a fazer coisas de que ele não se orgulhava especialmente. Houve muita coisa mesmo que ele teve de fazer só por razões económicas.

O que teria sido a televisão em Portugal sem ele?
Estaríamos muito mais atrasados na ficção telenovelística, sem sombra de dúvida. Não se teria arrancado nos anos 80 tão rapidamente como se fez.

Alguma vez se inspirou no Nicolau?
Tive uma fase horrível, que corresponde aos meus primeiros anos de carreira. Era a loja dos 300 do Nicolau Breyner. Era uma vergonha! As interjeições, gestos até os tiques... Enfim, acho que é compreensível. Só depois é que comecei a andar à procura de mim próprio e lá me descobri e deixei de ser uma espécie de miniclone do Nicolau Breyner.

Qual era a chave da popularidade dele?
Era muito moderno, no sentido em que era muito espontâneo, não tinha tiques de representação como tinham os atores no final dos anos 60. Depois teve uma grande escola. Teve a felicidade imensa de trabalhar com a Laura Alves e ela está para ele como ele esteve para mim. E depois ainda a sua componente de não gostar de atritos e de não comprar guerras foi-o tornando uma pessoa unânime. Ele foi sempre o tipo que lutou contra os saneamentos políticos de direita e de esquerda, adorava mulheres sem ser misógino. Foi também um lutador contra qualquer espécie de segregação social, sexual, etc. Muitos anos dessa prática criaram à volta dele um unanimismo. Humanamente toda a gente lhe reconhecia o maior mérito.

O LADO B

“O único lado que as pessoas não lhe conhecem, porque ele também não deixava que se visse, era o seu lado português triste. Aquele lado amaliano, aquela tristeza que a Amália tinha, profunda, inata como se estivesse arreigada no DNA. E havia ainda a sua costela alentejana que reforçava isso. O Nicolau tinha momentos de profunda tristeza, às vezes até aquela tristeza que não tem razão de ser, durante os quais procurava isolar-se e a curtia. E eu sentia isso, que ele tinha grandes, grandes baixas de humor.”

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