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O avanço incontrolável da Inteligência Artificial

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ISTO ESTÁ MAU... O campeão mundial de Go revê o jogo após a quarta partida contra o computador da Google

reuters

Stephen Falken - The whole point was to find a way to practice nuclear war without destroying ourselves. To get the computers to learn from mistakes we couldn't afford to make. Except, I never could get Joshua to learn the most important lesson.

David Lightman - What's that?

Stephen Falken - Futility. That there's a time when you should just give up.

Quem viu “Wargames” em 1983 lembra-se, certamente, deste diálogo entre o génio que criou Joshua – o computador que “brincava” à Guerra Nuclear – e um jovem imberbe (interpretado por Mathew Broderick aos 21 anos) que conseguiu entrar no sistema NORAD (North American Aerospace Defense Command) e quase provocou a 3ª Guerra Mundial quando jogou aquilo que ele pensava ser a simulação de uma guerra nuclear.

Em período de Guerra Fria, “Wargames” – candidato a três Óscares e não ganhou nenhum - pegava, de uma forma light, no fantasma nuclear que assombrava a humanidade e trazia, como tema central, o poder que os computadores (que na altura ainda eram raros nas casas portuguesas) estavam a ganhar em determinadas áreas. Na militar, principalmente. O filme acaba bem, com o computador a aprender o conceito de “futilidade” quando realiza inúmeras partidas do Jogo do Galo e se depara com empates sucessivos. O cenário previsto para uma guerra nuclear entre os EUA e a União Soviética.

Um ano depois, Hollywood levou a Inteligência Artificial para o patamar seguinte. Em “Terminator”, a humanidade é praticamente devastada, curiosamente também por um sistema de inteligência artificial militar que decide acabar com a concorrência – connosco, entenda-se. Décadas mais tarde, Steven Spielberg faz uma versão de “Pinóquio” em que a madeira do corpo da marioneta é substituída por circuitos integrados e por uma camada de pele artificial que dá aos robôs de companhia um aspeto totalmente humano em “I.A. – Inteligência Artificial”.

Sim, A Inteligência Artificial faz parte do nosso imaginário desde sempre. Na literatura, no cinema, na TV. As máquinas que vão ser mais inteligentes que todos nós estão condenadas a dominar o mundo. Aliás, nem preconizamos outro cenário que não seja esse, o tenebroso.

Ficámos ainda mais preocupados quando, em 1997, o Big Blue derrotou Garry Kasparov. O robô da IBM fez o impensável e aprendeu a jogar xadrez tão bem que ganhou ao grande mestre russo. Big Blue conseguia prever uma infinidade de jogadas possíveis para cada momento do jogo. Mas “só” sabia fazer isso.

A semana passada assistimos a outro desafio homem vs máquina. A Google colocou a aplicação AlphaGo a jogar Go com Lee Se-Dol, campeão do mundo da modalidade – o jogo baseia-se em colocar pedras pretas e brancas num tabuleiro de madeira para ver quem consegue conquistar mais território. O jogo terá tido origem na China há mais de 3000 anos e obriga os jogadores a tentar antecipar os movimentos do oponente. Lee Se-Dol sentou-se em frente ao tabuleiro talvez antecipando uma vitória fácil. Afinal, especialistas tinham previsto há mais de cinco meses que ainda seria preciso esperar uma década até que um sistema eletrónico tivesse a capacidade de jogar Go contra um humano.

O jogo tem características muito específicas que abrem demasiados desafios às máquinas. Nomeadamente o seu amplo espaço de jogo e a infinidade de posições e movimentações que as pedras podem assumir e fazer.

A verdade é que o AlphaGo deu uma tareia ao campeão humano, que só ontem (domingo) conseguiu ganhar a primeira partida ao computador da Google. O resultado é agora de 3-1 e só falta um jogo. Ou seja, o “humano” já não pode ganhar.

Esta vitória fez com que alguns especialistas em Inteligência Artificial tivessem, no passado sábado, alertado para a necessidade de desenvolver os esforços necessários para manter o desenvolvimento da IA sob controlo, com a elaboração de regras muito bem definidas. Aliás, o mesmo já tinha referido Stephen Hawking (que tem uma visão da IA muito semelhante à de Hollywood), que, em conjunto com Elon Musk (patrão da Tesla) e mais 150 especialistas na área, escreveram uma carta aberta sobre a necessidade de controlar o desenvolvimento da IA. A carta pode ser lida AQUI.

Aliás, no final do ano passado, o mesmo Elon Musk estabeleceu um fundo de 10 mil milhões de dólares para o desenvolvimento de Inteligência Artificial que tenha bons propósitos e de tecnologia que possa controlar a IA que seja desenvolvida por outros. (pode ler mais AQUI)

O patrão da Tesla acredita que a evolução descontrolada da “Inteligência das Máquinas” é uma das maiores ameaças à humanidade. Sentimento partilhado por Bill Gates, por exemplo.

O fim do mundo?

O desenvolvimento de máquinas mais inteligentes que usam algoritmos complexos para encontrar soluções para problemas reais já faz parte do nosso quotidiano. Foram estes avanços que contribuíram para a descodificação do genoma humano, que permitem hoje sequenciar o ADN de qualquer um de nós, e é graças a ele que, por exemplo, a comunidade científica acredita que, com a ajuda da gigante tecnológica Intel e com a utilização de informação partilhada pela comunidade médica seja possível, em 2020, ter um tratamento para o cancro definido em 24 horas e específico para cada paciente (pode ler a informação oficial da Intel AQUI)

E não só. Alzheimer, autismo… a diabetes; doenças que podem vir a ser tratadas graças ao cruzamento em tempo real de dados clínicos e pela antecipação de cenários. Melhor software unido a computadores com maior capacidade de processamento de dados serão a camada mais profunda da organização das sociedades.

Cidades inteligentes onde a geração e consumo da energia está otimizada; hospitais com tratamentos desenhados à imagem específica de cada pessoa; carros que andam sozinhos; a exploração espacial. Máquinas que comunicam com máquinas. Um diálogo que é supervisionado por nós e, claro, por outras máquinas. Tudo isto vai ter a Inteligência Artificial como pano de fundo.

O que assusta não é pensar que tudo isto vai existir. O que assusta é ter os cientistas a dizer que ainda ia demorar 10 anos até um computador ganhar uma partida de Go. E, cinco meses depois de o afirmarem, presenciarmos a derrota do Sr. Lee às “mãos” de um sistema que cruza vários tipos de algoritmos.

Sim, a Inteligência Artificial está a acelerar o futuro. E fá-lo, pelos vistos, a uma velocidade que poucos anteciparam. Veja AQUI o terceiro jogo no qual o AlphaGo acabou de vez com as esperanças do “rival humano”.