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Herbicida com dias contados

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Substância potencialmente cancerígena pode ser utilizada em áreas agrícolas de proteção integrada.

António Pedro Ferreira

Glifosato BE apresentou proposta para proibir substância tóxica em Portugal. Ordem dos Médicos aplaude

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

O vizinho resolveu pulverizar as silvas para abrir um caminho e quando Alice deu conta “já as couves estavam queimadas, com as folhas amarelas”, conta a idosa apontando para a vegetação ao lado da casa onde vive em Alcaria, na Serra de Aire e Candeeiros. “Tive de deitá-las todas para o lixo, nem aos animais me atrevo a dá-las de comer”, conta, lembrando que a filha a tem alertado para os perigos tóxicos dos herbicidas que contêm glifosato, uma substância química usada nos meios rurais para matar ervas daninhas em pomares, olivais e terrenos florestais.

Considerada potencialmente cancerígena pela Agência Internacional de Investigação para o Cancro (IARC) da Organização Mundial de Saúde, esta substância é utilizada generalizadamente no mundo. Em Portugal é usada não só por agricultores e proprietários rurais, mas também por autarquias no espaço urbano para eliminar vegetação em passeios e jardins.

Não faltam apelos para que se proíba a sua comercialização. O mais recente deu entrada esta semana, na Assembleia da República, pela mão do Bloco de Esquerda. Os bloquistas recomendam ao Governo que vote contra a renovação da licença de glifosato na União Europeia e proíba o seu uso em Portugal, seguindo o princípio da precaução. “Com esta resolução queremos trabalhar a transição para técnicas alternativas, tendo em conta que esta substância é cancerígena e é usada de forma intensiva e desregulada”, sublinha o deputado Jorge Costa, lembrando que glifosato foi recentemente detetado em produtos alimentares e de higiene pessoal.

A licença que permite usá-la no espaço comunitário expira a 30 de junho e a Comissão Europeia (CE) propôs renová-la até 2031. Porém, o comité de peritos dos 28 Estados-membros ainda não chegou a um consenso que permita esse prolongamento. França, Itália, Suécia e Holanda opõem-se e está marcada nova reunião em Bruxelas para 18 e 19 de maio.

Governo indeciso

Portugal ainda não decidiu como vai votar. Questionado pelo Expresso, o Gabinete do Ministro da Agricultura, Capoulas Santos, diz que “o Governo está a estudar o assunto e a avaliar a informação disponível para tomar a sua posição”.

Até agora, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) tem estado alinhada com a CE, que segue o defendido pela ‘Glyphosate task force’ (que junta mais de 20 empresas do sector). Em resposta ao Expresso, a DGAV desvaloriza as conclusões da OMS e sustenta que “exaustiva reanálise feita pela Agência Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) indica que o alegado potencial carcinogénico não está ligado ao glifosato, mas a um coformulante (taloamina) em certos produtos fitofarmacêuticos que evidenciou um potencial genotóxico”.

Também a Sapec Agro — empresa que produz um herbicida vendido em Portugal — reitera que a substância ativa em causa “não é classificada ou proposta para classificação como carcinogénica pela EFSA e que, quando corretamente utilizada, é segura”.

Na proposta de resolução, o Bloco salienta que a decisão da agência europeia “baseou-se em seis estudos científicos financiados por 23 empresas agroquímicas” e foi contestada por perto de uma centena de cientistas, que escreveram uma carta conjunta ao comissário europeu da Segurança Alimentar e Saúde, Vytenis Andriukaitis. O movimento ativista Avaaz reuniu cerca de 1,4 milhões de assinaturas numa petição contra a renovação da licença do glifosato.

João Dinis, dirigente da Confederação Nacional de Agricultores (CNA) é altamente crítico quanto à decisão de Bruxelas. “A UE não tem coragem para enfrentar a Bayer e a Monsanto que têm lóbis bem organizados”, afirma desafiando “o senhor da Monsanto a beber um copo de Roundup para provar que aquilo é inócuo e não tóxico como ele diz”.

Também o bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, chama a atenção para a “toxicidade” e “as evidências dos riscos”. Aplaudindo a iniciativa do BE, o bastonário sublinha que “o glifosato devia ser suspenso não só em Portugal mas em todo o mundo tendo em conta o seu potencial cancerígeno”. Num artigo publicado na revista da Ordem, José Manuel Silva refere estudos que “demonstram a associação epidemiológica do glifosato e o aumento de patologias como a doença celíaca, infertilidade, malformações congénitas ou doença renal” e que “há uma relação entre a exposição a esta substância e o linfoma não Hodgkin detetado em agricultores”.

Compra exige cartão e formação

Os trabalhadores e os proprietários rurais que manuseiam estas substâncias têm de ter formação para saber como o fazer e que cuidados seguir. Desde novembro de 2015 houve uma corrida a estes cursos, pois sem eles não têm acesso ao cartão que lhes permite adquirir o herbicida. Pequenos proprietários rurais como José, de 80 anos, e a mulher, de 73, fizeram uma dessas formações “para poder comprar o produto e queimar as ervas no olival e no eucaliptal” que têm no maciço calcário da Serra de Aire. Já na horta que têm no quinta da casa “nada disto entra”, asseguram.

Também Arlindo Augusto, fruticultor em Porto de Mós, fez uma destas formação “e mais algumas” em 30 anos de trabalho na terra. Mas ainda “facilita”, esquecendo-se da máscara quando mistura o glifosato com água antes de pulverizar as ervas daninhas que rodeiam as filas de macieiras. “Este produto já não tem a caveira e por isso não é tão perigoso como outros e já não não faz mal às abelhas”, julga. Passou o dia a pulverizar as ervas do pomar: “Se não o usasse tinha de cortá-las com uma roçadora, o que dava mais trabalho e despesa”.

Nos terrenos argilosos onde Arlindo coloca o herbicida, “a concentração fica à superfície mas pode escorrer para as linhas de água se chover”, explica Luísa Rodrigues, especialista em geomorfologia. Mais preocupante, alerta a investigadora, é o uso de herbicidas no maciço calcário da Serra de Aire, sob a qual se aloja um dos maiores lençóis freáticos nacionais. Tudo lá vai parar, sem que se saiba em que quantidades, pois o glifosato não faz parte da lista oficial de substâncias a analisar.