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Como decifrar o insustentável choro do bebé

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RUI OCHÔA

Qualquer mãe pode confirmar: há poucas coisas tão desesperantes como ouvir o seu bebé chorar e não o conseguir acalmar. O choro dos bebés é um tema intemporal – mas há formas de o decifrar e compreender melhor. E até há estratégias e soluções SOS. E fique descansada: não existe colo a mais

Chamam-lhe a “fada dos bebés”. Constança Cordeiro Ferreira acha graça à expressão, que tem algo de mágico, mas assume-se como terapeuta de bebés. Mãe de duas crianças, há 10 anos o “choro inconsolável” da primeira filha fê-la despertar - ainda mais, já que é filha de um pediatra e de uma parteira - para esta temática. Em 2014, passados seis anos de acompanhamento a mães e bebés, e inúmeras formações em Portugal e no estrangeiro, abriu o Centro do Bebé, um lugar com uma filosofia e visão diferente do habitual sobre a gravidez, o pós-parto e os primeiros anos de vida do bebé. Tem uma equipa multidisciplinar de profissionais de saúde, que inclui psicólogos, enfermeiras, educadoras de infância, psiquiatra e fisioterapeuta. A ela chegam os pais que já passaram pelo pediatra, despistando possíveis causas físicas para o choro. Muitos vão em desespero de causa. Já foram mais de 500 os que a procuraram nestes dois anos.

O que Constança lhes tenta explicar é que cada bebé é único, e que os próximos tempos vão ser passados a decifrar e compreender os sinais da sua “fala” - que se faz através do choro. “Chegam-me bebés que choram sem parar, que dormem muito pouco, ou com os quais os pais estão a sentir dificuldades na vinculação, a ligar-se ao bebé e a compreender a sua linguagem.” No fundo, resume, “o meu trabalho é criar harmonia nas famílias, para que desfrutem em pleno dos seus bebés”.

“O choro é um assunto complexo. Há bebés que choram para sinalizar desconforto ou necessidades concretas, mas há outros que efetivamente choram muito, quase todo o tempo em que estão acordados. O chamado 'choro inconsolável', que resiste às tentativas mais óbvias de acalmar, é ainda muito pouco debatido e conhecido. Famílias com bebés que choram muito passam pelo processo sozinhas”, considera. Constança sabe do que fala. Na sua primeira gravidez, há 10 anos, a filha chorou uma vez praticamente durante 36 horas seguidas. Consegue imaginar...? Mas existe. E pode levar à quase loucura. “Uma das grandes razões pela qual os bebés choram é separação. Outra é a necessidade de regulação. Muitos deles, particularmente os que têm maiores períodos de choro inconsolável, têm necessidade de contacto permanente com o cuidador. É assim que se consolam, que se regulam face aos estímulos do mundo extrauterino.”

Colo e “manha”

Há quem sugira que os bebés devem ser deixados a chorar. Que mais tarde ou mais cedo se calam. Que têm “manha” e que choram porque querem colo. Constança Cordeiro Ferreira explica que isto é uma infeliz “fortíssima tradição cultural”, que visa essencialmente não quebrar a produtividade da mulher, em casa ou no trabalho. E que gera ansiedade no bebé. “É uma tortura para as mães e mexe diretamente com mecanismos de sintonização que são protetores” tentar incutir-lhes a ideia de deixar os bebés chorarem. “Esta sincronia dos níveis de cortisol (a hormona libertada pelo stress) da mãe e do bebé é protetora da cria - não é suposto a mãe ficar ali descansada enquanto o bebé chora a pedir ajuda”, explica. “É preciso parar de fazer as mães e os pais sentirem-se culpados por acudirem ao choro dos seus filhos. A biologia desenhou-nos para não o fazermos. O querer estar perto do cuidador, a amamentação frequente, é algo que as mães sabem instintivamente há milhões de anos.”

O problema é que a dinâmica choro-nervos é uma “pescadinha de rabo na boca”, que se alimenta nos dois sentidos. A saber: a mãe de um bebé que chora muito fica cada vez mais nervosa, e quanto mais nervosa fica, mais o bebé sente esse aumento do cortisol e mais dificilmente se acalma. Não é fácil... “Adrenalina gera adrenalina, occitonina gera occitocina”, explica Constança.

Em alturas em que o bebé não pára de chorar e a mãe sente que está a perder a clama, deve “respirar fundo e interromper o ciclo. Tentar introduzir um elemento novo – abrir uma janela, de ambiente (ir para a rua), pôr uma música calma, e dizer ao bebé 'eu estou aqui'.” O que Constança Ferreira ensina aos pais que a procuram, depois de reduzir o stress de todos, é a “observarem o seu bebé e aprender a lê-lo”. Por estranho que pareça, a terapeuta ensina a trabalhar a comunicação com o bebé, a sua “linguagem fora do choro”. E para lá disso, estratégias para os pais saberem parar o “choro inconsolável” e “soluções SOS”, como o toque, a massagem e aprender a observar as reações do bebé, percebendo, por exemplo, se está em sobre-estímulo.

O toque, ou a massagem, podem ser formas de acalmar um bebé que chora muito, aquilo que os especialistas chamam de "high need baby", um bebé de elevada necessidade

O toque, ou a massagem, podem ser formas de acalmar um bebé que chora muito, aquilo que os especialistas chamam de "high need baby", um bebé de elevada necessidade

António Pedro Ferreira

“Um botão de desligar”?

Não há dois bebés iguais, assegura Constança. “Quando nasce, o bebé já traz a sua história, o seu temperamento. É completamente diferente se nasceu às 35 semanas ou às 40, se sofreu traumas como um internamento com procedimentos invasivos, se nasceu da forma x ou y.” A “fada dos bebés”, como alguns pais a apelidaram, dá o seu próprio exemplo. Mãe de dois filhos, assegura: “Tive graus de choro muito diferentes, porque a experiência extrauterina dos dois também foi muito diferente”. Na primeira filha, tinha “ainda aquela ideia de que 'não é suposto andar ao colo', ou ter horas para isto e para aquilo. Isto, a juntar a um bebé que tem tendência para o choro inconsolável, é a receita para o desastre para mãe e bebé. Ela foi um bebé com choro inconsolável no início e isso é muito duro”, conta. “Mas depois encontrámos o nosso ritmo conjunto, como numa dança.” “Há uma componente de aceitação” muito importante, assegura, que passa por “aceitar que estamos a dar o nosso melhor e que não há fórmulas mágicas”. “No segundo filho, entreguei-me desde o início sem medo, e isso faz toda a diferença. Andou logo sempre colado a mim ou ao pai, e apliquei algumas estratégias de toque terapêutico relacionadas com o tipo de parto que teve. Era um 'bebé lapa', e vivemos isso com muita paz e felicidade. Chorava muito pouco. Afinal, ia chorar para quê, se tinha tudo o que queria?”

O argumento que de não se deve dar demasiado colo aos bebés, porque isso “vicia”, esbarra numa teoria biológica. Existem tipos de mamíferos diferentes - “cache”, “follow”, “nest” e “carry” (esconde, segue, ninho e carrega) - que descrevem o tipo de comportamento da mãe para com a cria. Nós, humanos, pertencemos ao tipo de mamíferos “carry”, os mais imaturos de todos (onde se incluem os macacos, os lémures, os cangurus e os koalas). Estes precisam absolutamente do calor e colo da mãe para regular a sua própria temperatura e respiração. Alimentam-se frequentemente, uma vez que o leite tem o menor teor de gordura e proteína de todos os mamíferos. Uma dica para as mães que gostavam de conseguir fazer alguma coisa além de dar colo nos primeiros meses do seu bebé: o “sling” - que em Africa tem uma versão ancestral - é uma ótima solução “mãos livres”.

Se é um pai ou mãe verdadeiramente desesperado, vai gostar do método do pediatra norte-americano Harvey Karpp, que defende que os bebés têm um “botão de desligar”. Este advoga um método de cinco passos, que tenta recriar o ambiente do bebé no conforto do útero materno. As cinco etapas passam por: embrulhar o bebé com os braços, firmemente apertado; virá-lo de barriga para baixo e de lado; embalá-lo com vigor; fazer sch... ou expor o bebé a um “ruído branco”, como o secador de cabelo; e, finalmente, o chamado “sugar” (açúcar), a mama da mãe, com o seu efeito calmante.

Instrutora certificada internacionalmente neste método, Constança Ferreira conhece-o bem, mas prefere adaptá-lo individualmente a cada bebé. Não gosta de “usar o balanço vigoroso, nem o enfaixamento apertado, nem sons altos”, que na sua opinião apenas funcionam com bebés de poucas semanas. Prefere “trabalhar ferramentas de relaxamento, o contacto pele com pele e o toque”, que considera trazerem “muito melhores resultados no médio prazo”. Até porque, considera, “por vezes o bebé não quer ser 'desligado'”.

Qualquer que seja o método, o que interessa é que funcione – e que a harmonia em casa volte a reinar.