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Ainda há esqueletos no armário sobre atividades do KGB em Portugal

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As implicações do Arquivo Mitrokhin, e as ligações portuguesas, reveladas na última edição do Expresso, não têm fim à vista. Agora, o politólogo António Costa Pinto e a historiadora Irene Pimentel comentam a posição do PCP. Esta última lembra, a propósito, que o desvio para Moscovo dos arquivos da PIDE referentes às agências secretas também implica o partido. E que, em 1995, uma resolução do Parlamento prometeu abrir um inquérito para saber o que aconteceu. Ainda nada se fez

A informação contida nos Arquivos Mitrokhin, que o Expresso revelou em primeira mão no último sábado e que vai aprofundar na próxima edição, era há muito tempo alvo de suspeita para historiadora Irene Flunser Pimentel e politólogo António Costa Pinto. Em especial, a colaboração do PCP com o KGB e a presença deste em Lisboa, que quatro décadas depois aquele partido continua a negar, mantendo a versão de que qualquer ligação à agência soviética não passava de uma “campanha de calúnias”. Ambos os investigadores concordam que este tipo de colaboração não só era expectável, como não era exclusiva, pois haveria outros serviços secretos no terreno a promovê-la.

ANTÓNIO COSTA PINTO. “O PCP nega, por questões de imagem política e ainda por reflexo condicionado, face à acusação de 'estar ao serviço de Moscovo'”

ANTÓNIO COSTA PINTO. “O PCP nega, por questões de imagem política e ainda por reflexo condicionado, face à acusação de 'estar ao serviço de Moscovo'”

marcos borga

Apesar de ser “ridículo” continuar a negar esta interferência, há motivos para que o PCP se recuse a admiti-la. “O PCP nega por questões de imagem política e ainda por reflexo condicionado face à acusação de estar 'ao serviço de Moscovo'”, diz António Costa Pinto.

Porém, nada disto era estranho a uma época onde o xadrez da diplomacia mundial se movimentava na sombra: “Durante o PREC, Portugal foi caracterizado por uma grande e diversificada intervenção internacional dos dois lados da guerra fria, e não só dos Estados Unidos versus União Soviética. O Reino Unido e a França, tal como as duas Alemanhas, tiveram também uma grande importância, desde o apoio a partidos políticos, a movimentos sindicais e organizações de interesse, até a algumas movimentações mais violentas.”

Por sua vez, Irene Pimentel opina que o PCP “deveria ter guardado silêncio” em vez de insistir na teoria da calúnia. “O PCP vivia desta tensão: por um lado era um partido internacionalista, com uma ligação umbilical aos serviços da URSS; pelo outro, assumia uma postura patriótica, numa tentativa de nacionalização. O facto de negar o que é óbvio mostra que não aprendeu nada”, comenta a historiadora. E dá como exemplo o caso de Sita Valles, “angolana e militante do PCP, morta na tentativa de golpe de 1977 em Angola, e que o PCP considerou não ser do partido por ter ido para lá”.

O desvio dos arquivos da PIDE

Esta atitude de negação do PCP é também visível no episódio ainda não esclarecido do desvio dos arquivos da PIDE. “Há testemunhos e provas de que militantes do partido, chamados a participar na Comissão de Extinção da PIDE-DGS, desviaram arquivos para a URSS e para o KGB. Claro que os desvios não foram feitos apenas pelo PCP e que outras pessoas da Comissão estiveram também envolvidas. Mas o PCP continua a dizer que isto é uma calúnia e que não aconteceu.” Não é por acaso que a informação sobre o relacionamento com as agências secretas e sobre as colónias seja uma das lacunas naquilo que hoje se encontra disponível: os documentos enviados para a União Soviética foram justamente os que se referiam a estes dois assuntos.

“Se quisermos ver os arquivos da PIDE que contêm esta informação, não os encontramos", refere Irene Pimentel, que tem vindo a pedir, em conjunto com outros historiadores, o regresso destes arquivos. Em 1995, a Assembleia da República chegou a aprovar a resolução nº24 com o objetivo de iniciar um inquérito que lançasse alguma luz sobre a questão. Mas 21 anos depois ainda não produziu efeitos.

IRENE FLUNSER PIMENTEL: “O facto de o PCP negar o que é óbvio mostra que não aprendeu nada”

IRENE FLUNSER PIMENTEL: “O facto de o PCP negar o que é óbvio mostra que não aprendeu nada”

tiago miranda

Jornais transmissores de recados

Quanto à ingerência da agência soviética no exercício do jornalismo, “é interessante perceber como era conduzida a propaganda e como os jornais foram transmissores de recados exteriores”, frisa Irene Pimentel. Opinião diferente tem António Costa Pinto: “Não creio [que essa influência] tenha sido muito importante para o KGB propriamente dito. No caso da comunicação social, a influência e o apoio passaram não só por jornalistas, mas também por tipografias e por apoio financeiro direto. Alguém fez seguramente o trabalho de ligação e informação.”

Para o politólogo, “ainda falta saber bastante sobre a atuação de outros serviços secretos, como os espanhóis e americanos, no quadro do chamado 'verão quente' de 1975”. E quanto ao KGB, “uma coisa é certa: com a consolidação da democracia quer de um lado quer do outro se deixou de gastar dinheiro e tempo com Portugal”. Quatro décadas passadas sobre a Revolução de abril, ainda há segredos por desvendar e armários por abrir com esqueletos dentro.

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