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Isto era o Nicolau. Este é o seu legado. O de um homem atravessado pelo otimismo

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“Nisto o Nicolau foi exemplar.” Nisto o quê? José Eduardo Moniz: “Na maneira como ele tinha de encarar a vida”. E ainda: “No fundo, era uma criança no sentido em que as crianças são o que devemos preservar”, diz João Perry. E mais: “Também me lembro do seu lado generoso”, lembra António Pedro Vasconcelos. Três testemunhos na primeira pessoa

José Eduardo Moniz, consultor da TVI

Ana Baião

Aprendei imenso com ele, não consigo separar o amigo do homem profissional. Se pensar no o Nicolau, imediatamente me lembro da forma como ele encarava as dificuldades e aquela descontração enorme que tinha em relação a problemas que surgiam. Quando eu entrava em stress, dizia-me sempre que eu devia parar, respirar um pouco, porque na manhã seguinte iria surgir outro problema que me faria esquecer o daquele momento, que deixaria de ter importância… Isto era o Nicolau. Este é o seu legado. O de um homem atravessado pelo otimismo e junto do qual apetecia estar. Foi ele que me levou a conhecer a Ria Formosa e tantas outras coisas que me lembram a enorme cumplicidade que partilhávamos. Outro ponto: mantinha-se sempre o mesmo fosse em que situação fosse. Assim era o Nicolau, também nesta forma de estar. Tive o privilégio de trabalhar com ele em televisão, pública e privada, em rádio, e o seu modo nunca se alterava. Tal como nunca se alterou a sua capacidade de ser empreendedor, nem o seu espírito criativo. Muitas vezes aparecia com uma ideia e outras houve em que lhe propus coisas que ele mal via como se podiam concretizar mas às aderia imediatamente. Esta capacidade de representar, de desenhar projetos, de viver com risco, podia ser encarada como uma certa negligência. Mas não. Era apenas a maneira como ele tinha de encarar a vida, como uma caminhada em que todos os dias nos acontecem possibilidades de coisas diferentes e há sempre um dia seguinte. Nisto foi exemplar.

João Perry, ator

Rui Carlos Mateus

Conheci o Nicolau em 56, sou mais velho dois meses. Na altura frequentávamos o mesmo ginásio de alteres, era o que se fazia, ali para os lados da Alameda D. Henrique. Nessa época o Nicolau frequentava o Conservatório Nacional, queria ser cantor. Eu já era ator e fazia peças no Nacional. Havia um bom entendimento entre nós, ele tinha um bom carácter e aquela capacidade em converter a existência em humor. Tinha prazer em fazer isso e nunca se lamentava. Era muito saudável mentalmente. No fundo, era uma criança no sentido em que as crianças são o que devemos preservar.

Só tive ocasião de estar em cena com ele duas vezes. A primeira foi em 1972, numa revista no Parque Mayer, que se chamava "O Fim da Macacada" e também entrava a maria do Céu Guerra. Reencontramo-nos agora, nesta novela que estávamos e que ainda estou a fazer, "A Impostora" onde tivemos a possibilidade de reencontrar amigos, situações em que estivemos juntos, memórias que nos deram enorme prazer, sem nostalgia de voltar ao passado. Aqui, tive oportunidade de assistir àquela energia em acreditar nas coisas. Foi ele que criou a Vila Faia, a primeira novela portuguesa, porque tinha aquela loucura saudável de se atirar e tinha unhas para isso.

Como ator era sobretudo dotado para a comédia, é o ator da novela e do humor, com um carácter supergeneroso e também nesse sentido esta profissão ganhou imenso com a passagem do Nicolau, porque ele melhorou-a nos projetos que montou em variadíssimas áreas. Era um sonhador.

António Pedro Vasconcelos, realizador

Goncalo Rosa da Silva

Penso que um dos últimos filmes que fez para cinema foi "Os Gatos Não Têm Vertigens", filmado há dois anos, que fizemos juntos.

Conhecíamo-nos há muito tempo mas mal, até ter entrado no meu filme "Jaime", em 1999, e depois disso escrevi exatamente à medida dele nos "Imortais". A partir daí começamos a trabalhar juntos. Sempre achei que ele tinha uma paleta enorme para um ator português. Neste sentido estava ao nível de um ator de Hollywood. Era capaz de passar do riso às lágrimas, de fazer de duro e logo em seguida representar com ironia. Em qualquer papel era capaz de ter essa gama infinita de cores e, simultaneamente, uma capacidade de improviso invulgar. Tal como concentração. Era capaz de estar a falar ao telemóvel ou a contar anedotas e mal dizíamos "ação!" imediatamente entrava no papel. Também me lembro do seu lado generoso com os atores mais novos, que ajudava, nunca tentando sobrepor-se.

Apesar de ser mais conhecido nas novelas e até no teatro, do qual não gostava muito - achava uma chatice fazer a mesma coisa todas as noites -, o que mais gostava mesmo era de cinema. Aqui ficou muito aquém do que poderia ter dado, não teve muitas oportunidades e era um ator espantoso.